Arte

Modernismo abstrato e a transcendência do ser: uma retrospetiva de Kenji Yoshida

Uma exploração da folha de ouro, da laca e da fragilidade da existência na October Gallery, em Londres
Lisbeth Thalberg

A October Gallery, em Londres, apresenta uma importante exposição individual dedicada ao falecido artista japonês Kenji Yoshida, um mestre cuja trajetória unificou as tradições estéticas do Oriente e do Ocidente. Composta por uma seleção de obras fundamentais criadas entre as décadas de 1960 e 1990, a mostra oferece uma análise aprofundada da evolução da linguagem visual única de Yoshida. Reconhecido pelo seu uso transcendental da folha de ouro e prata sobre laca japonesa, a produção do artista é definida por uma preocupação profunda com a unidade essencial que vincula todos os seres vivos.

A síntese entre a tradição japonesa e o modernismo europeu

A evolução artística de Yoshida foi moldada significativamente pela sua mudança definitiva para Paris, cidade que acabou por adotá-lo como um dos seus próprios criadores. Durante a sua formação no influente Atelier 17, de Stanley Hayter, iniciou uma exploração rigorosa das técnicas gráficas, produzindo gravuras que utilizavam variações cromáticas subtis para definir formas primárias. Essas experimentações iniciais abriram caminho para as serigrafias e obras sobre papel dos anos 70, período em que começou a investigar os efeitos metálicos que se tornariam a sua marca registada.

O seu estilo de maturidade representa uma síntese técnica e conceptual:

  • Materialidade: O uso de metais preciosos como folha de ouro e prata aplicados sobre laca japonesa e pigmentos coloridos.
  • Forma: Figuras elípticas de grande dinamismo, influenciadas pela abstração formalista europeia.
  • Espaço: Composições que remetem para os padrões irregulares típicos da pintura tradicional de biombos japoneses.

O trauma histórico e a série La Vie

A profundidade da obra de Yoshida tem raízes na sua experiência durante a Segunda Guerra Mundial. Recrutado aos 19 anos para um esquadrão kamikaze, o artista conviveu com a proximidade traumática da morte, uma vivência que forjou nele uma consciência permanente sobre a fragilidade da existência. Como resposta, a grande maioria das suas telas tardias carrega o título recorrente de La Vie (Vida). Estas obras não são meros exercícios estéticos, mas celebrações do mistério cósmico da vida e uma rejeição absoluta da guerra.

Legado e relevância institucional

O prestígio internacional de Yoshida consolidou-se quando se tornou o primeiro artista vivo a protagonizar uma exposição individual nas Galerias Japonesas do British Museum. O seu trabalho tem sido comparado ao de expoentes do expressionismo abstrato, como Mark Rothko e Robert Motherwell, que também procuraram uma espiritualidade transcendente por meio da forma abstrata. Atualmente, as suas peças integram coleções permanentes de instituições de renome mundial, incluindo a Tate Modern, o Metropolitan Museum of Art e o Centre Pompidou.

Detalhes da exposição

  • Título: Kenji Yoshida: The Meaning of Life
  • Galeria: October Gallery
  • Localização: 24 Old Gloucester Street, Londres, WC1N 3AL
  • Datas: De 5 de março a 11 de abril de 2026
  • Inauguração privada: Quarta-feira, 4 de março, das 18h00 às 20h30
Kenji Yoshida La Vie
Kenji Yoshida La Vie

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