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Comer, Orar, Ladrar: Terapia em 4 Patas na Netflix sabe bem por que é que tens um cão

Cinco alemães vão para os Alpes corrigir os seus animais. Os animais não precisam de correção nenhuma.
Veronica Loop

Existe uma comédia que o público português reconhece sem precisar que lha expliquem: a do personagem convicto de que o problema vem de fora. Portugal tem a sua própria tradição nessa matéria, desde a comédia à portuguesa com os seus tipos lisboetas que tudo explicam a todos menos a si próprios, passando pelos sketches dos Gato Fedorento — onde a graça residia precisamente na distância entre o que o personagem acredita de si mesmo e o que o espectador vê com imediata clareza — até ao humor observacional de Ricardo Araújo Pereira, que transforma o absurdo do quotidiano em filosofia sem nunca parecê-lo. Comer, Orar, Ladrar: Terapia em 4 Patas, a comédia alemã da Netflix disponível desde 1 de abril, opera nesse mesmo terreno, ainda que com a temperatura afetiva de quem prefere deixar toda a gente bem.

Cinco donos de cães fazem-se a caminho dos Alpes Tiroleses para que um treinador de renome corrija o comportamento dos seus animais. Os animais não têm problema nenhum. O dispositivo cómico não é o cão. É a distância entre o que cada personagem acredita ter vindo resolver e o que o espectador entende desde o primeiro plano que esse personagem não consegue nem quer ver em si mesmo. Urschi é uma política que adotou a sua cadela Brenda como estratégia de imagem; o animal não lhe agrada, nunca lhe agradou, mas a gestão das aparências exige a sua presença. Helmut e Ziggy são um casal que discute há anos através de um Yorkshire terrier mimado chamado Gaga, como se o cão pudesse absorver tudo aquilo que o casamento não está disposto a nomear. Hakan é descrito como reservado, o seu pastor belga Roxy como ansioso: a simetria desses dois adjetivos atravessando a fronteira entre as espécies é a escrita mais precisa de todo o material pré-estreia. Babs chega com um Rottweiler que reproduz com exatidão uma energia nela própria que igualmente transborda de qualquer recipiente.

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Para o público português, há uma entrada específica neste filme que nenhuma outra audiência tem da mesma forma. Alexandra Maria Lara — a atriz que interpreta a política Urschi — nasceu em Bucareste em 1978 com o nome de Alexandra Plătăreanu e é de língua e formação alemãs desde os quatro anos, quando a família fugiu do regime de Ceaușescu. Em Portugal, o seu nome não é imediatamente reconhecido da mesma forma que na Alemanha, onde Der Untergang e o papel de Traudl Junge a tornaram uma das figuras mais reconhecidas do cinema alemão contemporâneo. Mas o interesse é o oposto: uma actriz de origem do Leste europeu que encontrou o seu registo no cinema de língua alemã, agora num filme de comédia que exige de si exatamente o que a comédia portuguesa mais aprecia — a precisão contida, o controlo que se fende sem nunca se perder completamente. O seu instrumento natural é a presença e a exactidão, não o excesso. Gera comédia mantendo a compostura do personagem até ao momento em que essa compostura se torna insustentável.

Devid Striesow, ator formado no teatro clássico berlinês, cuja carreira inclui Os Falsificadores de Stefan Ruzowitzky e Im Westen nichts Neues, traz ao marido brigão Helmut aquele que os melhores atores cómicos portugueses também conhecem — o microajuste que diz tudo sem dizer nada: o rosto que discorda antes que a voz o faça. Rúrik Gíslason — futebolista islandês, vencedor do programa televisivo alemão de dança Let’s Dance, sem carreira de ator até agora — interpreta o treinador na sua terceira língua. A comédia secundária que o seu casting introduz é completamente independente do guião: fisicamente demasiado improvável para ser um guru de confiança, a navegar o alemão com a deliberação visível de quem sabe que cada frase é também uma conquista técnica. Alexandra Maria Lara afirmou publicamente que não precisou de o proteger no set. Esse detalhe diz mais sobre a interpretação do que qualquer clip promocional.

O momento em que chega Comer, Orar, Ladrar: Terapia em 4 Patas tem uma precisão particular, também para Portugal. O mercado dos retiros de bem-estar, dos workshops de desenvolvimento pessoal e dos fins de semana de reconexão consigo mesmo cresceu de forma sustentada nos últimos anos — fenómeno europeu que Portugal acompanhou, com os seus próprios formatos de coaching e cuidado emocional a ocupar um espaço cultural antes inexistente. A ideia de que o ambiente certo, o método certo, o especialista certo podem resolver o que é essencialmente uma questão de autoconhecimento é agora suficientemente familiar para dispensar explicação. O campo de treino de cães que é na verdade terapia de grupo é uma premissa com arestas cortantes, se o guião quiser usá-las. Segundo as primeiras leituras críticas disponíveis, Comer, Orar, Ladrar prefere não as usar.

Essa opção é também o que o distancia do melhor humor observacional português, cujo traço mais característico — de Camilo Castelo Branco ao Gato Fedorento, da comédia à portuguesa mais acutilante a Ricardo Araújo Pereira — é precisamente a disponibilidade para deixar o personagem no seu equívoco sem o resgatar. A graça portuguesa quase nunca oferece a redenção fácil: observa, registra, ri, e deixa a coisa como estava. Comer, Orar, Ladrar faz caminho contrário: os cinco donos de cães saem do Tirol transformados, mais conscientes, mais abertos. É um filme que quer fazer bem ao espectador, e fá-lo explicitamente.

A presença de Jane Ainscough como co-argumentista ajuda a perceber a lógica do projeto. Ainscough escreveu Faraway (2023), outra comédia alemã da Netflix produzida pela mesma equipa — Olga Film, as produtoras Viola Jäger e Marina Schiller — em que uma mulher insatisfeita fugia para a Croácia para que a mudança de cenário precipitasse o autoconhecimento. A estrutura narrativa é idêntica. Comer, Orar, Ladrar: Terapia em 4 Patas aplica a mesma lógica a cinco personagens em simultâneo e acrescenta cães. É uma fórmula com resultados demonstrados na plataforma e o filme não aspira a ser mais do que é.

Eat Pray Bark
Eat Pray Bark. Netflix

Comer, Orar, Ladrar: Terapia em 4 Patas está disponível na Netflix desde 1 de abril de 2026. Realização de Marco Petry, argumento de Petry, Jane Ainscough e Hortense Ullrich, produção da Olga Film — empresa da Constantin Film —, rodado em Seefeld no Tirol austríaco, fotografia de Marc Achenbach.

O que o filme não consegue dizer a si próprio — e que também não consegue dizer diretamente ao espectador — está precisamente abaixo do seu calor. O cão em Comer, Orar, Ladrar: Terapia em 4 Patas absorve o trabalho emocional que o seu dono não consegue realizar: a distância entre a imagem pública da política e a sua real indiferença pelo animal, o conflito conjugal externalizado num terrier, a desconfiança do homem reservado comunicada sem palavras ao animal que vive mais perto dele. O filme mostra tudo isto. O que não consegue dizer é que a revelação no final do retiro é também ela uma representação. Que o grupo de desconhecidos que regressa às suas cidades tendo compreendido os seus problemas está agora a encenar a compreensão. Que essa encenação é igualmente uma forma de desviar. Que estes cães — o pastor ansioso, o Rottweiler transbordante, o terrier mimado — não são apenas espelhos. São testemunhas. E as testemunhas não consertam o que refletem.

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