Documentários

A procuradora que processou um procurador-geral por encobertar um femicídio

No México, a primeira magistrada especializada em crimes de género descobriu que o maior obstáculo para responsabilizar assassinos de mulheres não era a ausência de provas — era a instituição encarregada de as preservar
Veronica Loop

Sayuri Herrera não fez carreira dentro das procuradorias. Fez-a do lado de fora, litigando contra o aparelho do Estado como advogada de direitos humanos: representou famílias dos 43 estudantes desaparecidos de Ayotzinapa, vítimas de tortura, universitárias cujas queixas de violência sexual haviam sido enterradas pela inércia burocrática. Em 8 de Março de 2020 — Dia Internacional da Mulher — foi nomeada primeira titular da Fiscalía de Investigación del Delito de Feminicidio da Cidade do México, criada após a declaração de alerta de violência de género na capital mexicana. Permaneceu no cargo até Fevereiro de 2025. A procuradora (La fiscal) é a série documental que regista esses cinco anos por dentro.

A produção da Netflix acompanha quatro casos de feminicídio que paralisaram a opinião pública mexicana. O mais juridicamente explosivo envolve Ariadna Fernanda, de 27 anos, encontrada morta em 31 de Outubro de 2022 na estrada La Pera-Cuautla, no estado de Morelos. O Instituto Médico-Legal desse estado determinou a causa da morte: broncoaspiração por ingestão excessiva de álcool. Quando a Fiscalía da Cidade do México assumiu a investigação e realizou uma segunda perícia, a conclusão foi outra: traumatismo múltiplo. As imagens de câmeras de vigilância mostravam o suspeito, Rautel “N”, a transportar a vítima inconsciente do apartamento para um veículo. A análise das comunicações digitais situava-o em contacto com o estado de Morelos antes de o corpo ter sido descoberto. O procurador-geral de Morelos, Uriel Carmona, foi detido pela Fiscalía da capital por declarações falsas e vínculos presumidos com o arguido — um precedente sem paralelo na história judiciária mexicana: uma procuradoria a accionar penalmente o procurador-geral de outro estado por suposta conivência no feminicídio que ele próprio deveria investigar.

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Em Portugal, a ausência de um quadro legal específico para o femicídio e de estruturas de investigação especializadas coloca o sistema numa posição estruturalmente frágil perante este tipo de crimes. O Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR regista sistematicamente um padrão que se repete: em muitos dos casos documentados, a violência era conhecida por terceiros — familiares, vizinhos, amigos — e havia contacto prévio com as autoridades. Não existiu, até à data, em Portugal uma unidade de investigação equivalente à que Herrera chefiou no México, nem uma magistrada com mandato específico para investigar e qualificar crimes de género com perspectiva forense especializada. A série da Netflix chega a Portugal num momento em que o debate sobre a criação de respostas institucionais mais robustas ao femicídio continua em aberto.

Yrma Lydya Gamboa tinha 21 anos e era cantora de boleros e música regional mexicana. Na noite de 23 de Junho de 2022, o marido, o advogado Jesús Hernández Alcocer, de 79 anos, disparou três vezes contra ela num salão privado do restaurante Suntory, em Cidade do México, perante testemunhas. O arguido foi detido no local mas morreu de acidente vascular cerebral em Outubro de 2022, antes do fim do processo. A arma do crime saiu do restaurante nas mãos de um cúmplice que permaneceu em fuga durante três anos. Câmeras de vigilância rastrearam o percurso do suspeito por diversas ruas do bairro antes de o perder de vista. Uma recompensa de 500 mil pesos foi oferecida. O homem só foi detido em Outubro de 2025 e formalmente acusado de feminicídio no mês seguinte.

O caso da estudante de odontologia Karen Itzel é o que melhor ilustra o preconceito estrutural que Herrera denunciou logo no seu primeiro dia de funções: a tendência das instituições para investigar feminicídios sem perspectiva de género, reduzindo a responsabilidade ao acto individual e descartando a hipótese de cumplicidades. A mãe da vítima sustentou desde o início que o crime não poderia ter sido cometido por uma única pessoa. Essa hipótese — ignorada numa fase inicial — conduziu os peritos a provas materiais numa habitação particular, depois ao círculo familiar do responsável, e por fim a uma condenação que somou mais de cem anos de prisão, alcançando os familiares do autor envolvidos no ocultamento do cadáver.

A força documental da série assenta no acesso que proporciona. As realizadoras Paula Mónaco Felipe, jornalista de investigação, e Miguel Tovar, fotógrafo, estiveram dentro da procuradoria durante vários anos. O resultado não é uma reconstituição retrospectiva: é o trabalho real captado em tempo quase real — os conflitos de competência entre estados, as perícias contestadas em laboratório, as audiências onde esses confrontos encontram ou não resolução. A produtora DetectiveMx, fundada pelo jornalista Diego Enrique Osorno, construiu a série como imersão jornalística de longa duração — um documento sobre a pergunta mais difícil que uma advogada de direitos humanos pode colocar a si própria: é possível reformar por dentro uma instituição que se passou a vida inteira a combater por fora?

Herrera deixou o cargo em Fevereiro de 2025, após cinco anos. A série não oferece um balanço definitivo. Regista quatro nomes de mulheres, quatro processos, e — pela primeira vez em qualquer produção audiovisual — o interior operacional de uma procuradoria especializada em feminicídio no continente latino-americano. Em países onde ainda não existe essa especialização, a série documenta o que pode estar em falta.

A procuradora estreou na Netflix a 26 de Março de 2026 como série documental limitada de três episódios, realizada por Paula Mónaco Felipe e Miguel Tovar e produzida pela DetectiveMx sob Diego Enrique Osorno.

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