Documentários

Confessou os crimes. A polícia esperou 7 meses para contactar o FBI

Uma investigadora de seitas gravou Samuel Bateman enquanto este descrevia os rituais de abuso sexual que impunha às suas vítimas e entregou a gravação à polícia local. As autoridades esperaram sete meses antes de contactar o FBI.
Veronica Loop

Em novembro de 2021, Christine Marie, investigadora especializada em dinâmicas sectárias, sentava-se ao lado de Samuel Bateman numa viatura enquanto o telefone gravava em silêncio. Bateman descrevia com as próprias palavras as chamadas “cerimónias de expiação” — rituais de abuso sexual colectivo que impunha a mulheres adultas e menores de idade, apresentados como mandamento divino. Christine Marie entregou de imediato a gravação ao sargento da polícia local com quem vinha colaborando há meses. As autoridades esperaram sete meses antes de chamar o FBI. Nesse intervalo, os abusos prosseguiram.

Trust Me: The False Prophet é a nova docussérie em quatro episódios da Netflix, realizada por Rachel Dretzin — autora de Keep Sweet: Reza e Obedece, de 2022 —, disponível a partir de 8 de Abril de 2026. A série reconstrói a ascensão de Samuel Rappylee Bateman, ex-membro da FLDS — Fundamentalist Church of Jesus Christ of Latter-Day Saints, uma seita poligâmica dissidente do mormonismo oficial —, que em 2019 se autoproclamou profeta e sucessor do líder encarcerado Warren Jeffs na comunidade fronteiriça de Short Creek, entre o Arizona e o Utah. Bateman tomou mais de vinte “esposas espirituais”, pelo menos dez delas menores de idade, com vítimas a partir dos nove anos.

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A imunidade herdada de décadas de silêncio institucional

A inacção das autoridades locais não resultou de negligência casual. Tinha raízes históricas precisas. Em 1953, o governador do Arizona ordenou uma operação policial massiva em Short Creek que levou à separação de 164 crianças das respectivas famílias. A cobertura mediática foi devastadora para as autoridades: o governador perdeu as eleições seguintes, e o Arizona e o Utah recuaram durante décadas de qualquer tentativa de perseguição penal desta comunidade. O que ficou foi uma prática institucional não escrita — um limiar de intervenção significativamente mais elevado do que o exigido em qualquer outra comunidade dos dois estados.

Bateman herdou essa imunidade de facto. A teologia da FLDS tinha feito o trabalho preparatório: gerações de fiéis tinham sido educadas na crença de que a vontade do profeta era a vontade de Deus, e que questionar a sua autoridade equivalia à apostasia. Os homens que entregavam as filhas a Bateman como esposas não o faziam apesar das suas convicções religiosas, mas em nome delas. Christine Marie havia alertado a polícia local pelo menos seis vezes antes de produzir a gravação de Novembro de 2021. A resposta fora sempre a mesma: não existiam provas suficientes para agir.

Portugal tem a sua própria memória de casos em que estruturas de autoridade fechadas perpetuaram abusos durante anos com a cumplicidade passiva das instituições — o Processo Casa Pia, instruído em 2002, é o exemplo mais eloquente. O caso Bateman pertence à mesma família de histórias: não a excepção monstruosa, mas o padrão sistemático em que o poder institucional, a memória política e a inércia produzem impunidade através de mecanismos ordinários.

A detenção: dedos visíveis pela fresta de um reboque

A detenção de Bateman não resultou do trabalho de investigação de Christine Marie. Resultou de um acidente. Em Agosto de 2022, um agente da polícia rodoviária do Arizona observou uns dedinhos de criança a sobressair pela fresta de um reboque fechado que Bateman transportava na Interestadual 40 em direcção a Phoenix. No interior — sem ventilação, com um balde como única instalação sanitária — encontravam-se três raparigas com idades entre os onze e os catorze anos. O carácter fortuito desta descoberta evidencia com precisão o grau em que o sistema poderia ter continuado indefinidamente.

Bateman foi libertado mediante caução. Em Setembro, o FBI realizou buscas nas suas residências em Colorado City e retirou nove crianças, entregues à protecção do Estado. A partir da prisão preventiva, Bateman coordenou imediatamente o rapto dessas mesmas crianças das famílias de acolhimento, através de aplicações de mensagens cifradas — que ordenou depois aos seus seguidores que apagassem. As crianças foram encontradas semanas mais tarde em Spokane, no estado de Washington. Onze adultos foram condenados juntamente com Bateman. Em Dezembro de 2024, a juíza federal Susan M. Brnovich condenou-o a cinquenta anos de prisão seguidos de supervisão vitalícia. “O dano que causou é simplesmente imensurável”, declarou a magistrada na leitura da sentença.

O que o documentário acrescenta ao que o processo judicial já estabeleceu

A criminalidade sectária de coerção — em que as vítimas são integradas no próprio sistema de abuso de forma a tornarem-se simultaneamente testemunhas e participantes — coloca desafios jurídicos e morais que o acórdão não resolve. Várias das mulheres adultas condenadas por participação no rapto das crianças eram elas próprias vítimas da mesma arquitectura coerciva: algumas tinham sido entregues a Bateman quando ainda eram menores. Os seus advogados argumentaram que a linha entre vítima e cumplice numa comunidade de controlo total não pode ser traçada com os instrumentos ordinários do direito penal. O Ministério Público reconheceu parcialmente esse argumento na gradação das acusações apresentadas.

Rachel Dretzin regressa ao mesmo território com uma vantagem metodológica que Keep Sweet: Reza e Obedece não possuía: imagens captadas em tempo real no interior da comunidade, por testemunhas que estavam presentes enquanto os acontecimentos se desenrolavam. A força documental das gravações de Christine Marie e Tolga Katas é de natureza distinta da do testemunho retrospectivo. Não ilustra o passado — constitui a sua prova directa. Nesse sentido, a série inscreve-se na tradição do documentário investigativo que, desde The Thin Blue Line de Errol Morris, em 1988, questiona o que o sistema judicial não conseguiu ou não quis fazer sozinho.

A pergunta que nenhuma sentença pode encerrar

Em 2023, investigações jornalísticas revelaram que membros da FLDS se tinham reorganizado no Dakota do Norte e que Helaman Jeffs, filho de Warren, havia emergido como nova figura de autoridade na seita. A estrutura que produziu Bateman não se dissolveu com a sua condenação. Adaptou-se. A sentença de cinquenta anos removeu um único actor. Não alterou as condições institucionais que, durante anos, transformaram denúncias documentadas e repetidas em processos sem consequência — o limiar elevado de intervenção em comunidades religiosas fechadas, mantido por memória política e inércia burocrática.

É esta a interrogação com que Trust Me: The False Prophet encerra: não sobre a culpa de Bateman, por ele própria assumida, mas sobre a persistência das condições que o tornaram possível — e sobre o que acontecerá quando o próximo profeta se proclamar herdeiro do mesmo sistema.

Trust Me: The False Prophet, docussérie Netflix em quatro episódios realizada por Rachel Dretzin, está disponível na plataforma a partir de 8 de Abril de 2026. Cada episódio tem uma duração aproximada de 45 minutos.

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