Realidade

Ready or Not: Texas — o astro coreano que sonha reformar-se em Dallas e prova-o ao mundo inteiro

Uma ícone do entretenimento asiático, uma road trip sem guião e o lugar mais americano da terra — a série que redefine o que significa amar um país que não é o teu
Molly Se-kyung

Ready or Not: Texas (título original: 이서진의 달라달라) é uma primeira temporada de série de viagem não guionizada que estreia na Netflix a 24 de março de 2026, co-realizada por Na Young-suk (Nah Yung-suk) e Kim Ye-seul, produzida pela Egg is Coming. Faz parte do catálogo coreano de 33 títulos que a Netflix construiu para 2026, um ano em que os conteúdos em língua coreana se tornaram a segunda categoria mais vista da plataforma em todo o mundo.

Algures entre Dallas e Fort Worth, dois homens coreanos com botas de cowboy acabadas de comprar estão a descobrir algo que a televisão de viagem há muito esqueceu: um lugar amado por razões puramente pessoais, sem algoritmos, sem agenda editorial, sem itinerário imposto. As botas são calçadas e a energia, por tudo o que se percebe, dispara. Esta imagem — desajeitada, alegre, culturalmente híbrida e estranhamente comovente — é a chave emocional para perceber o que Ready or Not: Texas realmente é.

A premissa do programa é de uma simplicidade enganosa. O ator sul-coreano Lee Seo-jin e o seu parceiro criativo de sempre, o lendário produtor Nah Yung-suk (universalmente conhecido como Na PD), partem para Dallas sem plano fixo, acompanhados de amigos que aderiram por impulso, confiando cegamente em Seo-jin. Sem itinerários. Sem briefings culturais. Sem encontros guionizados para ilustrar a distância entre Oriente e Ocidente. O que existe em seu lugar é algo muito mais raro: o amor privado de um homem por uma cidade, e uma equipa de filmagem talentosa o suficiente para capturar como esse amor se parece quando é mostrado em público pela primeira vez.

Lee Seo-jin tem 55 anos e é famoso na Coreia do Sul há quase três décadas. Construiu a sua reputação em dramas históricos — interpretando reis, generais e ícones do passado em séries como Yi San e Gyebaek — antes de Nah Yung-suk o escalar em 2013 para Grandpas Over Flowers e revelar um registo cómico que a sua carreira de ator nunca havia explorado por completo. É mal-humorado da forma como só as pessoas que realmente se preocupam com as coisas se podem dar ao luxo de ser. É contido como alguém que aprendeu, ao longo de anos de televisão sem guião, que a emoção autêntica tem mais impacto quando o rosto permanece quieto. A sua alcunha no mundo do entretenimento, «Sr. Lee», resume com perfeição a performance de dignidade levemente exasperada que foi aperfeiçoando ao longo de uma década de reality television.

Mas em Ready or Not: Texas algo muda. Quando Lee Seo-jin diz — em frente à câmara, com a sua característica contenção — que Dallas é a cidade onde sonha passar o resto da vida, tudo se reposiciona. Não é uma celebridade a visitar um país por razões profissionais. É um homem que regressa a um lugar que ama, com amigos em quem confia, através de um meio que domina. Esta combinação produz uma transparência que a televisão de viagem raramente alcança.

Dallas é uma cidade que carrega mais mitologia cultural do que talvez qualquer outra nos Estados Unidos. É a cidade do assassinato de Kennedy, da saga televisiva do boom do petróleo que exportou para o mundo, nos anos oitenta, uma imagem particular da ambição americana, e de uma identidade urbana contemporânea que se reinventa a grande velocidade sob a pressão da migração económica, da transformação demográfica e de um estado que decidiu, em voz alta, o que pensa de si mesmo. Não é, de forma alguma, a América com que a cultura pop coreana costuma interagir. Sem praias, sem néons, sem o cool costeiro das grandes metrópoles. O que Dallas oferece em troca é escala, franqueza e um orgulho quase desafiante por uma versão muito específica da boa vida.

A sequência nos Stockyards de Fort Worth — antecipada no trailer e com grandes probabilidades de se tornar o episódio mais comentado da temporada — coloca essa especificidade cultural em foco mais nítido. Gado longhorn, couro de sela, cheiro de animais e serradura, e duas personalidades televisivas coreanas a navegar num mundo que mal registou a existência do K-pop: não é um encontro cultural polido. É uma colisão genuína, e o estilo de produção de Na PD está calibrado com precisão para este tipo de momentos. Os seus programas são construídos sobre a comicidade do fosso entre expectativa e realidade, e poucos fossos na televisão contemporânea são tão largos quanto o que separa Seul dos Stockyards de Fort Worth.

A cultura gastronómica do Texas é outra das veias mais ricas do programa. Para Lee Seo-jin em particular — um homem que passou várias temporadas a gerir restaurantes coreanos no México e em Espanha para os programas de restauração no estrangeiro de Nah Yung-suk — chegar ao Texas como consumidor em vez de embaixador culinário é uma inversão estrutural com implicações dramáticas reais. A identidade alimentar do Texas é tão orgulhosa, tão particular e tão resistente à interpretação externa quanto a da própria Coreia. O brisket fumado em lume brando, o Tex-Mex, o fervor sem ironia pelo Whataburger: não são apenas refeições. São posicionamentos culturais. Ao colocar Lee Seo-jin no papel de recém-chegado admirado em vez do guia experiente, o programa deixa entrar no enquadramento um tipo novo de humildade.

A filosofia de produção de Nah Yung-suk privilegiou sempre o momento não fabricado em relação ao construído — ou pelo menos construiu estruturas sofisticadas o suficiente para gerar momentos que parecem genuinamente espontâneos. As suas sequências mais celebradas ao longo da carreira não se baseiam em paisagens espetaculares nem em acesso privilegiado a famosos, mas na simples estranheza humana de pessoas que se deparam com algo inesperado. Num programa construído em torno do sonho pessoal de um homem, o formato sem guião ganha um peso acrescido: se o sonho se revelar real — se Dallas for realmente tão boa quanto Lee Seo-jin acredita — a câmara vai captar. E se a realidade do lugar colidir com o romantismo da ideia, a câmara vai captar isso também.

A pergunta a que todo o programa de viagem precisa de responder no final é se merece os seus momentos ou os fabrica. Ready or Not: Texas tem vantagens estruturais que a maioria dos programas do género não possui. As apostas pessoais — o sonho de reforma de uma celebridade, exposto ao escrutínio global — são reais. A amizade entre Lee Seo-jin e Nah Yung-suk, forjada ao longo de mais de uma década e testada em vários continentes, é real. A distância cultural entre Seul e Dallas é real. O que resta ver é se o programa encontrará no Texas a mesma qualidade de encontro humano que o melhor trabalho de Na PD sempre soube entregar: o momento em que a produção se apaga, a máscara cai, e o que a câmara encontra é simplesmente uma pessoa, no lugar onde queria estar.

Ready or Not: Texas chega num momento em que o conteúdo em língua coreana se tornou um fenómeno global de pleno direito. Neste contexto, um programa construído sobre o amor de um homem coreano pelo lugar mais iconicamente americano que existe não é uma nota de rodapé cultural. É uma provocação. Pergunta o que acontece à imagem que um país tem de si mesmo quando é visto por olhos que teriam todas as razões para ser indiferentes e escolhem, em vez disso, ser devotos.

As botas de cowboy são calçadas. A energia dispara. O mundo, no fim de contas, é maior, mais estranho e mais generoso do que qualquer itinerário pode conter.

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