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Untold: A Morte e a Vida de Lamar Odom na Netflix — sobreviver nunca foi o argumento

Um homem que regressou da morte entrou numa clínica de desintoxicação dois meses antes de este documentário estrear. O filme que deveria contar a história da sua ressurreição chega, em vez disso, como prova de que a ressurreição, no território clínico da dependência, não é uma categoria aplicável.
Jack T. Taylor

Khloé Kardashian não soube da recaída de Lamar Odom por uma chamada telefónica ou pela capa de um tabloide. Soube ao subir em bicos de pés as escadas da casa que ela própria pagava — aquela casa onde tinha contratado um cuidador e um cozinheiro para assegurar a sua recuperação — e ao encontrá-lo sentado na beira da cama a fumar crack. Bateu-lhe. Disse-lhe que tinha de sair antes de segunda-feira. Disse: acabou, não pago mais nada e não quero voltar a falar contigo. Não foi em outubro de 2015, quando o mundo inteiro a viu correr para um leito de hospital no Nevada. Foi depois. Depois de ele ter sobrevivido a doze acidentes vasculares cerebrais e seis paragens cardíacas. Depois do coma. Depois do milagre médico. Depois de as câmaras terem imortalizando a história de amor de uma ex-mulher devotada que se recusara a abandoná-lo.

O que a Netflix consegue com Untold: A Morte e a Vida de Lamar Odom — realizado por Ryan Duffy, o responsável editorial da franquia que construíra o episódio sobre Manti Te’o como o documentário desportivo formalmente mais honesto da era do streaming — é, antes de tudo, a demolição da narrativa pós-crise. Aquela narrativa que os media montaram a partir de 2015: o desportista frola a morte, o desportista é amado de volta à vida, o desportista sobrevive. O que o documentário coloca no seu lugar é mais preciso e mais perturbador: o desportista frola a morte, o desportista retoma imediatamente o comportamento que quase o matou, o desportista é apanhado a fumar crack pela mulher que o amava, o desportista recebe um ultimato, o desportista continua. A recuperação não é um arco narrativo. É uma condição atmosférica.

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Em Portugal, a história de Lamar Odom convoca memórias que o formato tabloide jamais chegou a tocar. O país viveu, nas décadas de 1980 e 1990, uma das crises de heroína mais devastadoras da Europa Ocidental — uma epidemia que atravessou todas as classes sociais, que entrou pelos bairros históricos de Lisboa e do Porto, e que produziu uma geração inteira de famílias marcadas pela perda silenciosa. Portugal respondeu com aquilo que viria a ser reconhecido internacionalmente como um dos modelos mais corajosos de política de drogas do mundo: a descriminalização do consumo em 2001, assente na convicção de que a dependência é uma doença e não um crime. É precisamente essa convicção — duramente conquistada, testada durante décadas, defendida contra resistências políticas e morais consideráveis — que este documentário encarna sem o saber. Odom não é um caso americano a observar com curiosidade distante. É a demonstração clínica, em corpo e em nome próprio, daquilo que Portugal compreendeu antes de quase todos os outros: que punir o dependente é punir o doente.

Os factos biográficos que precedem o Love Ranch exigem a atenção que nunca receberam no formato tabloide. Odom nasceu em South Jamaica, no Queens de Nova Iorque, filho de um pai dependente de heroína e de uma mãe que morreu de cancro do cólon quando ele tinha doze anos. A investigação sobre as Experiências Adversas na Infância, documentada pela Kaiser Permanente e pelos CDC americanos, estabelece uma relação directa entre a perda precoce de um progenitor, a dependência no ambiente familiar e o risco elevado de perturbação por uso de substâncias ao longo da vida. Quando o córtex orbitofrontal — a arquitectura neural que governa o comportamento orientado para objectivos — se desenvolve sob stress crónico e luto infantil, o cérebro reestrutura-se literalmente em direcção ao comportamento habitual em vez da escolha deliberada. A declaração de Odom, anos depois, de que começou a consumir cannabis aos doze anos — o mesmo ano em que enterrou a mãe — não é biografia acessória. É um marcador neurológico no tempo.

Tornou-se, apesar dessa arquitectura interior, um dos jogadores mais talentosos da história recente da NBA — um extremo de dois metros e oito que dominava a bola como um base, distribuía o jogo com o instinto de um maestro e conquistou dois títulos consecutivos com os Los Angeles Lakers em 2009 e 2010. Khloé Kardashian, que casou com ele nesse mesmo ano, identificou anos mais tarde com precisão clínica aquilo que todos à sua volta tinham escolhido não dizer em voz alta: que a dependência dele se intensificava sempre no intervalo entre as épocas. A estrutura do basquetebol profissional fora, durante anos, o único andaime externo suficientemente sólido para organizar um cérebro dependente. Quando a carreira terminou, esse andaime ruiu. O que preencheu o vazio era o que sempre estivera lá, por baixo.

A força comparativa do filme no interior da sua própria franquia é mais nítida quando colocado ao lado do documentário ESPN 30 for 30 intitulado Unguarded — realizado por Jonathan Hock em 2011, que acompanhou o ex-jogador dos Celtics Chris Herren por um arco quase idêntico: herança familiar de dependência, carreira na NBA, overdose quase fatal, recuperação. Unguarded funcionara em parte porque Herren, no momento das filmagens, tinha vários anos de sobriedade sustentada. A sua história chegara a um fechamento provisório suficiente para sustentar uma narrativa. Duffy apresenta o seu filme sem esse luxo, e o filme é melhor por isso. A recusa em esperar pela resolução — a decisão de lançar um documentário sobre a dependência de um homem vivo nas semanas após a conclusão de um novo ciclo de tratamento residencial — é a escolha formalmente mais honesta que a produção faz. Coloca no ecrã não uma história de recuperação mas uma tentativa de recuperação, que é o que a recuperação realmente é.

A investigação do National Institute on Drug Abuse americano é inequívoca: as perturbações por uso de substâncias são doenças crónicas para as quais a recaída não é um fracasso mas uma característica clínica documentada. O circuito pré-frontal-amígdala alargada, que governa tanto a resposta ao stress como a procura da droga, não cura de forma linear. Em doentes com o historial documentado de Odom — dependência de cocaína, perturbação de luto concomitante, dependência sexual, e os danos neurológicos cumulados de doze acidentes vasculares cerebrais — a probabilidade de recaída não reflecte a moralidade do indivíduo. É uma característica estatística da doença. Odom expressou-o com a clareza de quem chegou a essa compreensão do modo mais brutal possível: a dependência é uma luta diária, não uma batalha que se vence uma vez e para sempre.

A arquitectura testemunhal que Duffy constrói assenta num problema fundamental que o documentário não consegue resolver inteiramente: o seu narrador principal é um homem cujo cérebro foi catastroficamente lesado durante o episódio que está a narrar. Odom reconheceu que não se recorda claramente daquele período. A sua descrição do além — a única frase do trailer que capturou a atenção mundial: “O além não é o que as pessoas pensam” — vem de um cérebro que sofreu o equivalente neurológico de uma inundação devastadora. A literatura clínica sobre experiências de quase-morte, incluindo a investigação prospectiva do cardiologista Pim van Lommel publicada em The Lancet, documenta que as alucinações e as experiências subjectivas profundas durante a paragem cardíaca são eventos neurológicos comuns, produzidos por padrões específicos de actividade cerebral em hipóxia. O documentário não se confronta com essa literatura. Apresenta o testemunho e recua. Se isso é honestidade intelectual ou protecção editorial da promessa comercialmente mais poderosa do filme é uma questão que o espectador tem de responder sozinho.

A detenção de Odom por condução sob influência do álcool na Interstate 15 de Las Vegas em Janeiro de 2026 — a velocidades reportadas superiores a 160 quilómetros por hora, com cheiro a cannabis a imprегnar o veículo — aconteceu enquanto este documentário se preparava para estrear. Entrou na clínica iRely Recovery em Los Angeles a 29 de Janeiro, concluiu o programa voluntário de trinta dias a 25 de Fevereiro, e saiu com cerca de cinquenta dias de sobriedade e uma nova plataforma digital de bem-estar que estava a construir para ajudar outras pessoas a encontrar tratamento. O documentário estreia a 31 de Março. A cronologia não é irónica. É o tema.

Untold: The Death & Life of Lamar Odom
Untold: The Death & Life of Lamar Odom. Phil Jackson in Untold: The Death & Life of Lamar Odom. Cr. Courtesy of Netflix © 2026

Untold: A Morte e a Vida de Lamar Odom está disponível na Netflix a partir de 31 de Março de 2026, como o primeiro capítulo de Untold Volume 4, produzido pela Propagate e Stardust Frames Productions, com os irmãos Chapman e Maclain Way — os criadores de Wild Wild Country — como produtores executivos ao lado de Ben Silverman, Howard Owens, Ryan Duffy, Jeff Jenkins e Shondrella Avery. A franquia Untold é construída desde o início sobre uma convicção simples: a história desportiva que a cultura julga conhecer quase nunca é aquela que realmente aconteceu. Neste caso, a história que o mundo conhecia era esta: o desportista frola a morte, a ex-mulher corre para o seu lado, ele sobrevive, ele recupera. O que este filme sabe é diferente: sobreviveu, teve uma recaída, ela foi-se embora, teve outra recaída, e o documentário sobre tudo isso pode ser visto agora enquanto o homem no centro da história conta os seus dias de sobriedade um a um.

A pergunta que o documentário levanta e não consegue responder — aquela que sobrevive a cada plano, a cada testemunho, a cada estatística médica — é esta: se sobreviver a doze acidentes vasculares cerebrais, seis paragens cardíacas, quatro dias de coma e uma experiência do além tão perturbadora que um homem a descreve como nada do que ninguém alguma vez lhe prometeu não é suficiente para reestruturar permanentemente a neurologia da compulsão, o que será? O documentário não sabe. A ciência não sabe. Odom não sabe. O que sabe é que ainda está aqui, e que ainda estar aqui não é o mesmo que estar em segurança. O que este documentário pede ao seu público é a coisa mais difícil que um documentário pode pedir: não se deixar comover, não torcer por ele, mas aceitar que a história ainda não tem um fim — e que essa condição inacabada, em curso, irresoluta, é a coisa mais verdadeira que alguma vez foi dita sobre a dependência.

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