Série

Criminosos, Mas Pouco na Netflix é uma comédia sobre gente que se julga melhor do que é

Dan Levy regressa à televisão com um pastor gay, uma irmã à deriva e a máfia de New Jersey: a família como palco das verdades que ninguém quer dizer
Veronica Loop

Dan Levy regressa à televisão seis anos depois de Schitt’s Creek com uma farsa criminal em oito episódios em que dois irmãos de New Jersey são chantageados e acabam involuntariamente dentro do crime organizado. O que Criminosos, Mas Pouco (Big Mistakes) diz realmente sobre identidade construída, autoridade moral e as conversas de família infinitamente adiadas merece uma análise que vai muito além do género.

Existe um tipo de comédia que não precisa de punchline porque a situação já é a piada. Um pastor comete um furto de joias. Não como reviravolta dramática — como condição estrutural. Cada cena em que aparece o personagem de Nicky é simultaneamente uma cena sobre crime e uma cena sobre um homem que construiu toda a sua existência em torno da ideia de ser uma pessoa de bem, alguém que sabe como agir melhor do que os outros. O crime organizado não tem qualquer interesse nisso. E é exactamente nessa indiferença absoluta da realidade perante a auto-imagem de um personagem que o mecanismo cómico da série ganha velocidade.

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O espectador português reconhece este território com uma familiaridade particular. A tradição cómica nacional — de Herman José ao Gato Fedorento, de Ricardo Araújo Pereira a toda a linhagem de sátira política que atravessa décadas de televisão portuguesa — tem o seu nervo mais sensível precisamente aqui: na figura que se julga acima do escrutínio, que confunde a sua aparência pública com a sua substância real, que usa o cargo, o título ou a pose como protecção contra a realidade. O político que não vê a ironia no que diz. O intelectual que usa o humor como escudo enquanto se julga imune ao ridículo. O funcionário que “faz de conta” com tanta convicção que acabou por acreditar. Nicky, o pastor gay que predica clareza moral enquanto esconde a sua relação da congregação e da família, predica transparência enquanto vive de dissimulação — é um personagem desta genealogia. Não pelo crime, que é o pretexto. Mas pelo tipo de fingimento que o crime, de repente, já não consegue sustentar.

Dan Levy interpreta Nicky: assumido perante a sua congregação enquanto homem gay, mas obrigado a apresentar-se como célibe, escondendo a relação com Tareq, interpretado por Jacob Gutierrez, tanto aos fiéis como à família. Prega clareza moral. Vive de ocultação. A cena descrita na imprensa especializada — Nicky na cama com Tareq, que lhe pergunta por que razão alguém invocaria Deus contra um amor como o deles, ao que ele responde que “Deus é perfeito, mas não as pessoas que O interpretam” — não é uma fala cómica. É uma fala dramática alojada dentro de uma farsa criminal. Que a série escolha tratá-la com esta seriedade, consultando um pastor gay real para autenticar o personagem, diz algo essencial sobre o que está realmente a fazer: usa a mecânica do género cómico para tratar de uma questão que não tem nada de cómica, a da verdade que se adia indefinidamente.

Taylor Ortega interpreta Morgan com uma mecânica paralela e oposta. Onde Nicky suprime, Morgan comenta. Usa a linguagem da observação irónica como escudo contra a própria vida — como se estivesse a descrever a situação de outra pessoa. Uma sequência do trailer demonstra isto com precisão: Morgan descreve o próprio rapto na linguagem das redes sociais, como se estivesse a fazer a crítica de um conteúdo. O perigo é real. O personagem está a resenhar a própria situação. Esta distância irónica aplicada à ameaça directa tem uma ressonância específica no contexto português: é precisamente o modo como a sátira nacional costuma funcionar — o comentário que se coloca fora da situação para a descrever, como se a distância analítica fosse ela própria uma forma de controlo. Morgan faz isso como defesa. A comédia nasce quando a situação deixa de cooperar com o truque.

Laurie Metcalf interpreta Linda, a mãe dos dois irmãos. O seu dom específico — confirmado em décadas de trabalho em teatro e cinema, de Roseanne a Lady Bird a Hacks — é a capacidade de entregar as falas mais devastadoras com absoluta sinceridade. Linda não é uma caricatura de mãe sufocante. É uma mulher que tem razão em tudo o que observa e erra em quase todo o resto, e faz isso com um amor tão total e implacável que amor e pressão se tornam indistinguíveis. Levy contou que Metcalf recebeu o argumento numa quarta-feira e respondeu sim na quinta. A cena que a convenceu contém, já no primeiro episódio, três falas em maiúsculas à cabeceira da avó moribunda.

A banda sonora da série merece atenção própria. Levy convidou Peaches, a musicista canadiana de electro-clash, para assinar a música da série — um universo sonoro angular, sintético, carregado de uma ansiedade controlada que não tem absolutamente nada a ver com uma comédia familiar no New Jersey. Não é um erro de produção. É um sinal formal: a série é mais estranha e mais perigosa do que o seu género sugere. A música mantém a ameaça a um nível que o calor familiar, por si só, dissolveria completamente.

A cocriadora Rachel Sennott traz uma sensibilidade afiada, forjada em Shiva Baby, Bottoms e I Love LA: personagens que se auto-observam com tanta precisão que a auto-consciência se torna a sua principal limitação, que usam a ironia como modo de existir para evitarem comprometer-se a sério com a própria vida. Morgan é um personagem de Sennott dentro de uma série de Levy. Esta tensão entre duas tradições cómicas diferentes — uma que quer que a distância irónica permaneça por resolver, outra que quer que a família chegue a algum tipo de verdade — é a questão criativa central que a série carrega em aberto.

Big Mistakes Netflix
BIG MISTAKES. (L to R) Dan Levy as Nicky, Boran Kuzum as Yusuf, and Taylor Ortega as Morgan in Episode 102 of BIG MISTAKES. Cr. Spencer Pazer/Netflix © 2025

Criminosos, Mas Pouco (Big Mistakes) está disponível na Netflix desde 9 de Abril de 2026, com todos os oito episódios lançados em simultâneo. A série foi criada por Dan Levy e Rachel Sennott no âmbito do acordo global de Levy com a Netflix através da sua produtora Not a Real Production Company. Levy é também showrunner e lidera o elenco a par de Taylor Ortega, Laurie Metcalf, Abby Quinn, Boran Kuzum, Jack Innanen e Elizabeth Perkins. A realização dos dois primeiros episódios é de Dean Holland. As filmagens decorreram no New Jersey e em Porto Rico a partir de Agosto de 2025.

O que a série está realmente a rir — e que o riso protege toda a gente na sala de ter de dizer em voz alta — é o seguinte: Nicky não começou a mentir no dia em que a máfia apareceu. Já mentia antes, com mais elegância e com a cumplicidade silenciosa de todos os que o rodeavam. O crime organizado não é a origem do seu problema. É simplesmente a primeira instituição que deixou de fingir que não estava a ver.

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