Série

Um Agente do Além na Netflix: o deus rebelde de Taiwan e o pacto que não pode absolver ninguém

Um homem que serve porque deve. Um deus que já morreu uma vez e se reconstruiu do nada. E a questão que nenhum pacto sagrado consegue, por si só, resolver.
Molly Se-kyung

Na religião popular taiwanesa existe um deus chamado o Terceiro Príncipe Herdeiro — Nezha, San Tai Zi, o Marechal do Altar Central — cuja biografia mitológica se assemelha a um tratado sobre o custo de agir correctamente por razões que não são puramente virtuosas. Segundo a lenda, causou danos sem querer, desencadeou uma guerra entre deuses e dragões, e eviscerou-se a si próprio para que os seus pais não pagassem pelas consequências do que ele havia feito. Não foi um gesto de virtude pura — foi um cálculo. O seu mestre reconstruiu-o depois com lótus e fogo sagrado, devolvendo-lhe uma vida que já não devia nada às obrigações do seu nascimento original. É o deus patrono dos rebeldes, dos culpados que saldaram as suas dívidas, daqueles que regressaram depois de terem sido desfeitos. Hoje, em 2026, é ainda venerado em centenas de templos em Taiwan. Os seus médiuns entram ainda em transe. As suas procissões atravessam ainda ruas com semáforos e letreiros de néon. Não é mitologia arquivada. É uma cosmologia viva.

Um Agente do Além (乩身, Ji Shen, conhecido internacionalmente como Agent from Above) é a primeira produção taiwanesa a construir um drama de acção adulto em torno desta figura — não como cenário pitoresco ou empréstimo exótico, mas como arquitectura narrativa estrutural, com as suas próprias regras, os seus próprios custos e as suas próprias contradições internas, que a série se compromete a honrar até ao fim. A pergunta que coloca, sob os confrontos demoníacos e as armas talismânicas, tem uma ressonância particular na tradição cultural portuguesa: pode a obrigação, cumprida por tempo suficiente e com dor suficiente, tornar-se algo que se assemelha à virtude livremente escolhida? Ou o acto que nasce da dívida carrega sempre o sinal dessa dívida?

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Esta tensão não é estranha à sensibilidade portuguesa. Numa cultura moldada pela tradição católica da penitência e da redenção, pelo saudosismo como condição existencial de quem carrega o peso do passado sem o conseguir largar, e por uma literatura que explorou obsessivamente o território entre o destino imposto e a dignidade conquistada — de Eça de Queirós a Fernando Pessoa, de José Saramago a Lobo Antunes —, a questão de se a obrigação pode gerar vocação tem raízes profundas. O fado, enquanto forma cultural que mais fielmente exprime a condição portuguesa, é precisamente uma meditação sobre o serviço ao inevitável: canta-se o que se deve cantar, e a questão é se essa necessidade pode tornar-se, com o tempo, amor. Han Chieh está exactamente nessa fronteira.

Han Chieh é um antigo toxicodependente que o Terceiro Príncipe Herdeiro recrutou para expiar um erro de infância, encarregando-o de resolver perturbações sobrenaturais no mundo dos mortais. Cada arma que canaliza através das suas tampas de leite talismânicas — fichas de jogo infantil que explodem em chamas douradas, a invenção visual mais original da série — lhe custa fisicamente. O poder está disponível, mas nunca é gratuito. O serviço ao sagrado deixa marcas no corpo. A coerência interna deste sistema — uma cosmologia em que a força divina se exerce sempre à custa do corpo que a conduz — é o que distingue Um Agente do Além da fantasia de género que usa o sobrenatural como cenário para a acção, sem pretender que tenha consequências reais.

Kai Ko, que interpreta Han Chieh, traz a este papel uma biografia real que corresponde à do personagem com uma precisão incómoda. Tornou-se famoso aos vinte anos em Taiwan com o filme Tu És a Maçã dos Meus Olhos (2011) — que lhe valeu o Prémio do Cavalo de Ouro de melhor actor revelação —, e foi preso em Pequim em 2014 por posse de cannabis ao lado de Jaycee Chan, filho de Jackie Chan, durante uma vasta campanha antidroga das autoridades chinesas. A proibição que se seguiu afastou-o do mercado continental e deixou-o durante anos numa incerteza profissional que atravessou com projectos menores, mais sérios, mais honestos. A sua aparição em Cannes em 2021 na secção Un Certain Regard com Moneyboys de C.B. Yi marcou o momento em que a reconstrução se tornou visivelmente concluída. Depois, em Dezembro de 2022, durante as filmagens de Um Agente do Além, um drone cinematográfico falhou e a sua lâmina cortou-lhe o osso malar durante um grande plano. Trinta pontos de sutura. Uma operação. Um mês de produção suspensa. A cicatriz ficou.

Interpreta um homem que pagou pelo que errou, que foi recrutado para o serviço divino como condição do seu regresso, e que paga fisicamente cada vez que a força do deus o atravessa. A correspondência entre a vida do actor e a do personagem não é uma construção publicitária. Acumulou-se através da lógica de uma produção que demorou seis anos a chegar ao ecrã, através de um acidente que se tornou parte da história, através da pressão singular de um papel que exige de um actor que encarne alguém cujo relacionamento com a culpa e com a reparação espelha o seu próprio.

Wang Po-chieh encarna o Terceiro Príncipe Herdeiro com um casaco de peles, óculos de sol e um chupa-chupa seguro com a descontracção tranquila de um ser que já morreu uma vez, foi reconstruído de lótus e fogo sagrado, e desde então acha as ansiedades mortais ligeiramente abaixo do seu limiar de atenção. A equipa criativa visitou templos activos em Taipei antes das filmagens, observou as interacções rituais entre médiuns e divindades, e construiu a sua versão contemporânea do Terceiro Príncipe a partir desse trabalho de observação — não da convenção iconográfica. A representação tradicional do templo mostra Nezha como uma criança divina em armadura de chamas: juventude eterna, energia inesgotável. A escolha da série — um deus adulto, contemporâneo, esteticamente transgressor — é iconograficamente infiel e teologicamente coerente. O deus que se eviscerou para não implicar os seus pais, que foi reconstruído pelo seu mestre em algo que já não devia nada às obrigações do seu nascimento original, é exactamente o tipo de ser que em 2026 usaria óculos de sol.

Um Agente do Além chega num momento em que a mitologia de Nezha alcançou uma visibilidade global sem precedentes. Ne Zha 2, a continuação do filme de animação chinês de 2019, tornou-se no início de 2025 o filme de animação mais lucrativo da história do cinema, ultrapassando os dois mil milhões de dólares em bilheteira mundial. Essa franquia é uma produção da China continental, enraizada num contexto cultural e nacional específico, orientada para o público familiar com ambições de espectáculo popular. Um Agente do Além é outra coisa: um drama de acção adulto em imagem real, enraizado na prática religiosa viva do Taiwan contemporâneo, onde Nezha não é um personagem de um romance clássico do século XVI, mas uma divindade cujos templos foram visitados pessoalmente pelo realizador e pelo elenco principal antes de as filmagens começarem.

A comparação mais precisa não é com a fantasia anglófona — a analogia com Constantine ou Supernatural, frequentemente citada na imprensa internacional, descreve a estrutura de género mas subestima a especificidade do que a série realiza. É mais próxima do que o drama sobrenatural coreano realizou no seu melhor período: Hotel del Luna, que dramatizava a conversão de uma culpa antiga em serviço prolongado com uma seriedade emocional que o espectáculo nunca vinha diluir. A diferença é que o Terceiro Príncipe Herdeiro de Um Agente do Além não é uma figura de um panteão histórico encerrado — é um deus que recebe pedidos esta semana, no templo da esquina.

Hsueh Shih-ling interpreta o grande antagonista Wu Tien-chi, um herdeiro de uma dinastia de riqueza que manobra para a ressurreição do Rei Demónio do Sexto Céu — uma figura extraída da cosmologia taoísta onde o sexto céu está associado às forças que invertem a ordem natural. O seu instrumento humano é o líder de culto Chen Chi-sha (Chen Yi-wen), que funciona como espelho estrutural de Han Chieh: dois homens vinculados ao serviço de poderes sobrenaturais que não escolheram livremente, pagando em moedas diferentes pela força que os atravessa. A série confronta-os com a coerência de um argumento filosófico disfarçado de confronto de acção.

Agent from Above
Agent from Above

Um Agente do Além estará disponível na Netflix a partir de 2 de Abril de 2026, em seis episódios. A série é realizada por Kuan Wei-chieh e Lai Chun-yu, produzida por Rita Chuang sob o guarda-chuva de produção da mm2 Entertainment, CaiChang International e Good Films Workshop, com as principais equipas de efeitos visuais de Taiwan. O orçamento de NT$180 milhões — o maior da história do drama taiwanês — foi comprometido antes de a Netflix se tornar a plataforma distribuidora. A pós-produção estendeu-se por três anos após a conclusão das filmagens em Março de 2023, em parte devido às exigentes demandas das sequências sobrenaturais que a ambição do projecto requeria, em parte devido ao acidente no set que já havia adiado o calendário original.

O que o mundo de Um Agente do Além não pode dizer a Han Chieh — depois de todo o sangue, todos os demónios, todo o fogo dourado das tampas talismânicas — é se o homem que foi transformado em instrumento de um deus pode tornar-se, algum dia, o agente das suas próprias acções. O que pode oferecer-lhe, episódio após episódio, ferida após ferida, é a prova de que a pergunta vale a pena ser feita. E que um deus que passa os seus séculos divinos a fazer a mesma pergunta sobre si próprio é talvez o único verdadeiramente qualificado para testemunhar a tentativa.

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