Críticas

A Teia: no thriller de Russell Crowe, a memória do detetive é suspeita

Um thriller lento que falha em concretizar as suas boas intenções nas reviravoltas do enredo e que acaba sendo inócuo.
Martha Lucas
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A estreia de Adam Cooper na realização adapta The Book of Mirrors, de E.O. Chirovici, e pede a um detetive de homicídios reformado, com Alzheimer, que reabra um caso que já não se lembra de ter encerrado.

A Teia (Sleeping Dogs) entrega a Russell Crowe um detetive que não pode confiar na única ferramenta de que qualquer detetive precisa: a sua própria memória. Roy Freeman, investigador de homicídios reformado e com a doença de Alzheimer, é convidado a rever um caso de homicídio que encerrou anos antes, e os processos que ele próprio redigiu leem-se agora como o trabalho de um desconhecido. O thriller policial de Adam Cooper, adaptado de um romance de um escritor romeno traduzido em muitas línguas, assenta todo o seu mistério nesse fosso entre o que Roy fez e aquilo de que Roy se consegue lembrar.

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Lançado nos Estados Unidos em março de 2024, A Teia é uma produção norte-americana e australiana com 112 minutos que assinala a estreia na realização de longas-metragens de Adam Cooper, argumentista com duas décadas de créditos em grandes estúdios. Karen Gillan, Marton Csokas, Tommy Flanagan, Harry Greenwood e Thomas M. Wright completam o elenco principal, e o argumento, escrito por Cooper e pelo seu parceiro de escrita de longa data, Bill Collage, adapta The Book of Mirrors, o romance de 2017 de E.O. Chirovici.

Um caso antigo reaberto por quem já o esqueceu

Roy Freeman está a fazer um tratamento experimental destinado a ajudá-lo a recuperar parte daquilo que a doença lhe levou. Certo dia, recebe um telefonema de Emily Dietz (Kelly Greyson), defensora dos direitos dos reclusos, que lhe pede que visite Isaac Samuel (Pacharo Mzembe). Samuel está prestes a ser executado pelo homicídio do Dr. Joseph Wieder (Marton Csokas), professor universitário que estudava a mente e a memória, e garante a Roy que a sua confissão lhe foi arrancada sob pressão pelo antigo parceiro de Roy, o detetive Jimmy Remis (Tommy Flanagan).

Roy regressa às suas antigas notas e encontra uma ponta solta: um segundo suspeito, Richard Finn (Harry Greenwood), cujas impressões digitais estavam espalhadas por toda a casa de Wieder e cujos registos ninguém parece ter verificado. Antes que Roy o possa interrogar, Finn morre. No funeral, entregam a Roy um manuscrito que Finn andava a escrever sobre o tempo que passou com Wieder e com Laura Baines (Karen Gillan), a estudante que trabalhava com o professor na sua tese e que desapareceu de cena depois do crime. A partir daí, a investigação torna-se um exercício de leitura, com um detetive a confrontar o relato de outra pessoa com um passado que só consegue recuperar aos lampejos.

A Teia
A Teia

De um romance a três vozes a uma investigação de um só homem

E.O. Chirovici, nascido na Roménia em 1964, publicou dez romances policiais no seu país antes de se mudar para o Reino Unido e passar a escrever em inglês. The Book of Mirrors foi o seu primeiro romance em língua inglesa e, de acordo com a editora, foi traduzido para 37 línguas, um percurso internacional raro para um policial que se apoia mais na psicologia do que no procedimento.

O romance está construído como uma estafeta. Um agente literário de Nova Iorque, Peter Katz, recebe um manuscrito parcial de um antigo estudante de Princeton, Richard Flynn, sobre o seu amor por Laura Baines e a sua suspeita de que ela mantinha uma relação com um professor célebre, Joseph Wieder, mais tarde assassinado. Um repórter freelance, John Keller, tenta depois reconstituir o caso para um livro de crime real e acaba por desistir. Só na terceira parte é que o detetive reformado Roy Freeman, nas fases iniciais da doença de Alzheimer, retoma a investigação, ajudado por um condenado que aguarda a execução no Missouri.

O filme inverte essa ordem. Roy é o protagonista desde a primeira cena, o manuscrito passa a ser um documento que lhe chega às mãos em vez de constituir a espinha dorsal da história, Flynn transforma-se em Finn e o prisioneiro condenado passa a chamar-se Isaac Samuel. Em teoria, a mudança troca um livro sobre narradores em competição por um filme sobre um único narrador pouco fiável, e desloca a premissa para um recanto do género onde já habitam Memento, de Christopher Nolan, e Análise Final, de Phil Joanou: a memória como prova e o consultório de um psiquiatra como cena do crime.

Dois argumentistas de grandes produções fazem um filme mais pequeno

Adam Cooper e Bill Collage trabalham em equipa desde meados da década de 2000. Os seus nomes constam da comédia universitária Accepted (2006), de Êxodo: Deuses e Reis (2014), de Ridley Scott, que coescreveram com Jeffrey Caine e Steven Zaillian, de The Transporter Refueled (2015) e de The Divergent Series: Allegiant (2016), e em 2014 foram contratados para reformular o argumento de Assassin’s Creed. A maior parte desse trabalho esteve ao serviço de franchises e da pesada maquinaria dos grandes estúdios.

A Teia é de outra escala. Cooper realiza, a dupla coproduz ao lado de Mark Fasano, da Nickel City Pictures, e de Pouya Shabazian, e a Highland Film Group vendeu o filme a compradores internacionais antes de ser filmado um único plano, incluindo um acordo com a Signature Entertainment para o Reino Unido anunciado em novembro de 2022. A escolha de Crowe para o papel tinha sido anunciada em agosto desse ano; Gillan, Csokas, Greenwood e Wright juntaram-se ao elenco em fevereiro de 2023, o mesmo mês em que arrancou a rodagem principal em Victoria, na Austrália. A rodagem decorreu sobretudo na zona de Melbourne e terminou em maio.

A equipa técnica é maioritariamente australiana e traz créditos de peso. A direção de fotografia é de Ben Nott. A banda sonora é de David Hirschfelder, nomeado para o Óscar por Shine (1996) e por Elizabeth (1998) e autor da música de Strictly Ballroom, de Baz Luhrmann. O montador, Matt Villa, partilhou uma nomeação para o Óscar por Elvis (2022), de Luhrmann, e um prémio AACTA por O Grande Gatsby. Para um thriller de orçamento médio, trata-se de uma equipa experiente.

Russell Crowe regressa à pele de detetive

O papel devolve Russell Crowe a dois territórios da sua carreira. Interpretou o polícia impulsivo Bud White em L.A. Confidencial (1997) e, em Uma Mente Brilhante (2001), deu vida ao matemático John Nash, um homem cuja própria mente se virou contra ele. Roy Freeman situa-se entre esses dois papéis: um polícia e um homem cujo cérebro é a testemunha menos fiável do caso. A personagem encaixa-se também na série de filmes de género assentes na estrela que Crowe tem escolhido nos últimos anos, de Unhinged (2020) a O Exorcista do Papa (2023) e Land of Bad (2024).

Há também um reencontro no elenco. Tommy Flanagan, mais conhecido como Chibs em Sons of Anarchy, interpretou Cicero, o servo leal do Maximus de Crowe, em Gladiador (2000); aqui é o parceiro cuja lealdade é precisamente aquilo que o caso põe em causa. Karen Gillan, a Amy Pond de Doctor Who e a Nebula de Guardiões da Galáxia, interpreta a investigadora em torno de cujo desaparecimento se organiza todo o enredo. Marton Csokas, o executor russo de The Equalizer, dá corpo ao professor assassinado, e Thomas M. Wright, cujo filme enquanto realizador, The Stranger, se estreou em Cannes em 2022, surge à frente da câmara como um dos antigos pacientes de Wieder.

Um thriller de memória que respeita as regras do jogo

A aposta de A Teia não está na novidade. Trata-se de um clássico mistério psicológico de homicídio que pede para ser avaliado pela forma como esconde a resposta: um círculo fechado de suspeitos, um manuscrito que pode ou não ser honesto, a versão dos acontecimentos de um morto e um investigador que tem de tratar as suas próprias recordações como mais um depoimento a verificar. É terreno conhecido, e o filme chega até ele com um romance de origem que já está nas mãos dos leitores em 37 línguas.

Em termos comerciais, o filme teve uma vida discreta. A The Avenue estreou-o nas salas norte-americanas a 22 de março de 2024, a Rialto Distribution lançou-o na Austrália em agosto desse ano, e a sua receita de bilheteira mundial ronda os 2,1 milhões de dólares, um valor modesto para uma estreia em sala. É esse, hoje, o destino habitual de um thriller adulto de orçamento médio sem uma franchise por trás, e uma das razões pelas quais tantos deles passam despercebidos.

O título original vem do provérbio que aconselha a não acordar os cães que dormem. Roy Freeman faz o contrário, e a verdadeira pergunta do filme não é quem matou Joseph Wieder, mas o que deve fazer um homem cuja memória falha quando o passado que desperta se revela marcado pelas suas próprias impressões digitais.

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