Críticas

Mundos Solitários (Netflix): Laura Dern e um homem mais novo num retiro literário em Marrocos

Martin Cid
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A segunda longa-metragem de Susannah Grant como realizadora leva uma romancista bloqueada e um homem mais novo vindo do mundo das finanças numa viagem por estrada através de Marrocos, num ano cheio de histórias sobre mulheres mais velhas e homens mais novos.

Mundos Solitários (Lonely Planet, no original) é um drama romântico norte-americano de 2024, escrito e realizado por Susannah Grant, que chegou à Netflix a 11 de outubro de 2024. Laura Dern interpreta Katherine Loewe, uma romancista de enorme sucesso, e Liam Hemsworth dá vida a Owen Brophy, um homem muito mais novo que trabalha no setor financeiro. Conhecem-se num retiro de escritores nas montanhas de Marrocos, onde ela foi para trabalhar e ele apenas para acompanhar a namorada. O filme tem 96 minutos e foi produzido para a plataforma pela 3dot Productions.

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A premissa: um romance encalhado e um forasteiro

Katherine chega ao retiro para terminar o seu livro mais recente. Costuma ser prolífica, mas a escrita parou desde o fim da relação com um escultor com quem viveu durante catorze anos e que lhe pediu que saísse da casa de campo dele. O que procura em Marrocos é um quarto sossegado e distância suficiente para conseguir trabalhar.

Owen está lá por outro motivo. Veio como namorado de Lily Kemp, interpretada por Diana Silvers, uma jovem romancista cujo livro de estreia foi aclamado e se tornou um êxito de vendas. Lily aprecia a companhia e a atenção dos outros escritores, sobretudo de Rafih Abdo, um admirador da sua obra interpretado por Younès Boucif. Owen, por seu lado, tem dificuldade em integrar-se entre os convidados literários e passa grande parte do tempo em chamadas telefónicas de alta pressão sobre um negócio imobiliário nos Estados Unidos.

Os dois protagonistas cruzam-se pela primeira vez por acaso. Quando as torneiras do quarto dela deixam de funcionar, Katherine perde-se à procura de água potável e Owen acompanha-a de volta. No dia seguinte, enquanto Lily e os outros ficam para falar com um jornalista, Katherine e Owen fazem uma excursão já planeada a uma vila da região. O táxi avaria no regresso e uma família local acolhe-os para um jantar caseiro.

A partir daí, a história segue o caminho que o género promete: a distância entre Owen e Lily aumenta, a diferença de idade entre ele e Katherine torna-se um assunto de que as personagens têm de falar, e o filme troca o retiro pela estrada e pela costa. O desfecho não é revelado aqui.

O segundo filme de Susannah Grant como realizadora

Susannah Grant, nascida em Nova Iorque em 1963, estudou no Amherst College e no AFI Conservatory e venceu uma Nicholl Fellowship de argumento. Aprendeu o ofício na televisão, como produtora e uma das principais argumentistas de Party of Five, entre 1994 e 1997, ao mesmo tempo que construía uma carreira de argumentista em longas-metragens de estúdio: Pocahontas (1995), Ever After (1998), 28 Days (2000) e Erin Brockovich (2000), que lhe valeu uma nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original.

Seguiram-se as adaptações In Her Shoes (2005) e Charlotte’s Web (2006) e, em 2006, realizou pela primeira vez um argumento seu com Catch and Release, protagonizado por Jennifer Garner e Timothy Olyphant. Entre os argumentos seguintes contam-se The Soloist (2009) e The 5th Wave (2016). Na televisão, criou para a CBS o drama médico A Gifted Man (2011) e, em 2019, foi cocriadora, argumentista e realizadora da minissérie da Netflix Inacreditável, com Toni Collette, Merritt Wever e Kaitlyn Dever, distinguida com um Peabody Award.

Mundos Solitários é, portanto, apenas a sua segunda longa-metragem como realizadora, dezoito anos depois de Catch and Release, e um regresso à Netflix depois de Inacreditável. Numa declaração de realizadora publicada pela Netflix, Grant descreveu o projeto como uma tentativa de fazer um filme sobre «o poder transformador da viagem» e sobre a forma como pôr milhares de quilómetros entre nós e a nossa rotina pode levar-nos a ver a própria vida a uma luz diferente. Na mesma declaração, enquadrou a história num encontro casual que junta os dois protagonistas num carro poeirento, numa viagem acidentada pelo interior do Norte de África.

De um anúncio em 2022 a uma rodagem em Marrocos

A Netflix anunciou o projeto em abril de 2022, descrevendo-o apenas como uma história de amor passada em Marrocos e mantendo o enredo em segredo. Grant produzia ao lado de Sarah Timberman, a sua parceira de produção em Inacreditável, e de Liza Chasin, pela 3dot Productions, com Kira Goldberg como responsável criativa por parte da Netflix. Brendan Ferguson, Corinne Weber e Margaret Chernin foram produtores executivos.

A 3dot é a produtora que Liza Chasin fundou em 2018, depois de 26 anos na Working Title Films, onde tinha entrado em 1991 e de que foi presidente a partir de 1996. Em 2019 assinou com a Netflix um acordo plurianual de primeira opção (first-look) para cinema e, antes de Mundos Solitários, já tinha produzido para a plataforma a série de suspense Anatomy of a Scandal.

O elenco secundário foi anunciado em maio de 2022, com o filme já em produção. Diana Silvers era conhecida por interpretar Erin Naird na comédia da Netflix Space Force e por Booksmart, enquanto Younès Boucif, ator francês, tinha participado na série da Netflix Standing Up e na longa-metragem Magnetic Beats. O elenco inclui ainda Adriano Giannini, ator romano e filho de Giancarlo Giannini, no papel de Ugo Jaconelli, e Rachida Brakni, antiga integrante da Comédie-Française e vencedora do César para a Atriz Mais Promissora (César du meilleur espoir féminin), como Fatema Benzakour.

Segundo o site marroquino Yabiladi, as filmagens decorreram em Marraquexe e em Santa Clarita, na Califórnia. Durante a rodagem, a imprensa marroquina fotografou também Laura Dern e Liam Hemsworth numa pausa em Chefchaouen, a cidade pintada de azul no norte do país.

A equipa por trás da câmara

Grant rodeou-se de técnicos experientes. A direção de fotografia é de Ben Smithard, o diretor de fotografia britânico de The Damned United, My Week with Marilyn, Goodbye Christopher Robin e do filme Downton Abbey, que venceu um Emmy por Return to Cranford. A montagem é de Kevin Tent, que montou todas as longas-metragens realizadas por Alexander Payne, de Election e Sideways a The Descendants e The Holdovers, estes dois últimos com nomeações para o Óscar. A banda sonora é de Pinar Toprak, a compositora nascida em Istambul que se tornou a primeira mulher a compor a música de um grande filme de super-heróis, com Captain Marvel, e cujo currículo inclui também The Lost City.

Laura Dern e Liam Hemsworth, quase 23 anos de diferença

Laura Dern, nascida em Los Angeles em 1967, filha dos atores Bruce Dern e Diane Ladd, destacou-se nos anos 1980 com Mask e Veludo Azul, de David Lynch, a que se seguiu Coração Selvagem, também de Lynch. Jurassic Park tornou-a famosa internacionalmente em 1993, Big Little Lies trouxe-lhe um novo público televisivo e, em 2020, venceu o Óscar de Melhor Atriz Secundária por História de um Casamento, de Noah Baumbach. Mundos Solitários foi anunciado na mesma temporada do seu regresso como Ellie Sattler em Jurassic World Dominion (2022).

Liam Hemsworth, nascido em 1990 na Austrália, começou na telenovela Neighbours antes de passar ao cinema norte-americano com The Last Song (2010) e com o papel de Gale Hawthorne nos quatro filmes de The Hunger Games. Já tinha experimentado a comédia romântica por dentro com a paródia do género Isn’t It Romantic (2019), e entre os seus trabalhos recentes contam-se Poker Face (2022) e Land of Bad (2024). Seis meses depois do anúncio de Mundos Solitários, em outubro de 2022, foi escolhido para interpretar Geralt de Rivia em The Witcher a partir da quarta temporada, substituindo Henry Cavill.

Os dois protagonistas falaram do projeto no material de lançamento da própria Netflix. Dern afirmou que Katherine «está num ponto de viragem da sua vida em que procura uma suavização e uma compreensão mais profunda, e encontra-as numa história de amor». Hemsworth considerou que partilhar cenas com Dern foi «um privilégio absoluto». Com Dern nascida em fevereiro de 1967 e Hemsworth em janeiro de 1990, quase 23 anos separam os dois atores, e a diferença de idade faz parte da premissa, em vez de ser algo que o filme tente esconder.

Um ano cheio de romances com diferença de idade

O filme chegou em plena vaga. Quando a Netflix fixou a data de estreia, em agosto de 2024, a imprensa especializada colocou Mundos Solitários ao lado de May December, de Todd Haynes, que a Netflix lançou em 2023 depois da estreia em Cannes, e de Babygirl, de Halina Reijn, com Nicole Kidman e Harris Dickinson, que se estreou em Veneza e chegou às salas no Dia de Natal de 2024. No início de 2024, The Idea of You, com Anne Hathaway, tinha chegado à Prime Video, e a Netflix tinha lançado A Family Affair, com Nicole Kidman e Zac Efron.

O romance no estrangeiro é ainda mais antigo. Férias em Roma (1953), de William Wyler, fixou o modelo de duas pessoas de mundos diferentes lançadas uma para a outra num país estrangeiro durante um período curto e intenso, e a fórmula tem sido revisitada desde então. Mundos Solitários, cujo título original, Lonely Planet, partilha o nome da coleção de guias de viagem, acrescenta a essa estrutura o retiro de escritores e o mundo editorial, e faz da mulher a mais velha e a mais consagrada do par.

Como foi recebido na Netflix

O público encontrou-o depressa. Segundo os dados do Top 10 da própria Netflix, Mundos Solitários somou 11 milhões de visualizações nos primeiros três dias na plataforma, o suficiente para o terceiro lugar entre os filmes em língua inglesa na semana de estreia. Na semana seguinte, de 14 a 20 de outubro de 2024, subiu ao primeiro lugar com 13,7 milhões de visualizações e manteve-se no Top 10 durante quatro semanas no total, somando cerca de 33,4 milhões de visualizações. Noutros quadrantes, a receção foi dividida.

O lugar de Mundos Solitários dois anos depois

Dois anos após a estreia, Mundos Solitários lê-se como um capítulo modesto em duas carreiras que entretanto seguiram em frente: Liam Hemsworth assumiu desde então um dos principais papéis de fantasia da Netflix, e Laura Dern voltou a trabalhar com Noah Baumbach em Jay Kelly (2025), também para a Netflix, e protagonizou Is This Thing On? (2025), de Bradley Cooper. Para Susannah Grant, continua a ser um dos raros argumentos originais que também realizou, construído sobre uma das estruturas mais familiares do cinema romântico. Os números do Top 10 sugerem que o público para romances adultos em lugares distantes não desapareceu, independentemente do que o filme acrescente à fórmula.

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