Críticas

Ring – A Maldição que transformou o horror moderno continua inigualável

O filme de Hideo Nakata (1998) impôs a sua lógica fria a toda uma geração de cinema de terror.
Martha O'Hara
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O ecrã do televisor emite um estalido seco. O eco de um poço abandonado reverbera na escuridão da sala vazia. É assim que Hideo Nakata abre Ring – A Maldição, um filme que não precisa de sustos baratos para penetrar nos poros do espectador.

Baseado no romance de Koji Suzuki e adaptado ao cinema em 1998, Ring segue Reiko Asakawa (Nanako Matsushima), uma jornalista divorciada cuja investigação sobre a morte misteriosa da sobrinha Tomoko (Yuko Takeuchi) a leva até uma fita VHS amaldiçoada. Quem a vê morre exatamente sete dias depois. O tempo é essencial aqui: não há pressa visível, apenas um tique-taque implacável que se instala no crânio do espectador e não sai.

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Nakata constrói o horror por acumulação, com uma contenção quase clínica. A fotografia recorre a sombras e luzes contrastantes para criar uma atmosfera sufocante, onde o perigo está sempre à espreita nas margens do quadro. A sequência da fita é um exercício de tensão controlada: imagens granuladas, um poço, o silêncio. Nada de sangue ou violência explícita — apenas uma ameaça difusa que se alimenta do desconhecido e que Nakata deixa sem resolução visual até ao momento exato em que o espectador já não aguenta.

O maior trunfo do filme é a sua economia narrativa. Não há digressões desnecessárias nem personagens supérfluas. Cada elemento serve o propósito central: explorar o medo da morte e da inevitabilidade. A relação entre Reiko e o filho Yoichi (Rikiya Ôtaka) acrescenta uma camada de urgência emocional, mas mesmo aqui Nakata evita o sentimentalismo fácil. A cena em que mãe e filho veem a fita juntos é um ponto alto, não pelo que acontece no ecrã, mas pelo que fica implícito — o terror de perder o que mais se ama sem poder protegê-lo.

Onde Ring falha é na sua própria fórmula. O conceito da fita amaldiçoada, ainda que inovador para a época, começa a desgastar-se no terceiro ato. A revelação sobre Sadako e as suas motivações parece precipitada, como se o filme estivesse a correr contra o relógio que ele próprio estabeleceu. E embora Nanako Matsushima entregue uma performance contida e eficaz, o mesmo não pode ser dito de Hiroyuki Sanada como Ryuji Takayama, cuja personagem parece existir apenas para fornecer explicações lógicas onde elas não são necessárias.

A banda sonora merece atenção. O tratamento musical estabelece uma sensação de inevitabilidade sombria, reforçando a ideia de que o destino é inescapável — algo que Nakata sustenta também através do silêncio e de uma dissonância subtil que atravessa o filme de ponta a ponta. É um elemento aparentemente discreto, mas fulcral para a construção da tensão.

Ring – A Maldição não surgiu num vazio. Em 1998, o género horror estava estagnado, à procura de algo que o revitalizasse. Nakata e o seu elenco — incluindo Miki Nakatani como Mai Takano e Yutaka Matsushige como Yoshino — trouxeram uma abordagem ancorada na cultura japonesa e nas suas lendas urbanas. O filme não se limitou a assustar; criou um diálogo sobre o medo da morte e a fragilidade humana que encontrou eco em audiências de países e culturas muito distantes do Japão.

A recepção foi imediata e entusiástica, com Ring a tornar-se um fenómeno cultural que ultrapassou fronteiras e inspirou remakes e sequências. As imagens granuladas da fita ainda provocam calafrios vinte e cinco anos depois — prova suficiente de que o filme não envelheceu, apenas ganhou distância. O poço abandonado continua a ser um símbolo poderoso de isolamento e desespero. E a pergunta que o filme coloca — será possível escapar ao destino? — mantém-se sem resposta.

Ring – A Maldição sustenta-se pela sua simplicidade e pela coragem de não explicar mais do que o necessário — embora não resista inteiramente à tentação de o fazer no desenlace. Mas é nessa contenção anterior, nessa economia que o filme levou quase até ao limite, que reside o seu verdadeiro peso. Sadako não sai do ecrã. Décadas depois, continua a não sair da memória.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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