Actores

Samuel L. Jackson, o actor que se livrou do crack aos quarenta e dois e nunca mais parou

Penelope H. Fritz

Aos setenta e sete anos, com um Óscar honorário na prateleira e uma agenda de projectos para 2026 e 2027 capaz de esgotar um actor com metade da idade, Samuel L. Jackson nunca fez o discurso de despedida que meia Hollywood lhe anuncia há anos. Não se reformou. Não abrandou. Continua a entrar em rodagens em que todos os outros veteranos da geração foram substituídos por um holograma ou um cameo, e continua a assinar como cabeça de cartaz.

A marca vocal — a consoante que tropeça, a detonação controlada de uma palavra só, a ameaça que se transforma em sermão — nasceu de uma gaguez de infância que ele aprendeu a contornar imitando pessoas que não gaguejavam. Cresceu em Chattanooga, Tennessee, criado pela mãe e pelos avós maternos, filho de um pai que mal conheceu. Chegou ao Morehouse College em Atlanta a querer estudar biologia marinha, mudou para arquitectura e só aterrou no teatro depois de uma aula de retórica e de uma produção universitária de A Ópera dos Três Vinténs.

A radicalização foi rápida. Em 1969 Jackson e um grupo pequeno de estudantes trancou o conselho do Morehouse — entre eles Martin Luther King pai — numa sala, e recusou-se a libertá-los enquanto a universidade não se comprometesse a reformar o plano de estudos. O protesto funcionou. A condenação por sequestro — crime grave de segundo grau — perseguiu-o durante anos. Deixou Atlanta com a licenciatura em teatro em 1972, acabou por casar com LaTanya Richardson, a colega de Spelman que conhecera nos anos das mobilizações, e mudou-se para Nova Iorque para tentar ser actor.

Os vinte anos seguintes são a parte da biografia que quase todas as crónicas saltam. Jackson trabalhou na Negro Ensemble Company ao lado de Morgan Freeman e do jovem Denzel Washington, fez papéis pequenos, viu os contemporâneos passarem-lhe à frente. Desenvolveu uma dependência da cocaína que se transformou em dependência do crack. A carreira não andava. Em 1990 a filha Zoe, ainda criança, encontrou-o desmaiado no chão da cozinha. Entrou em clínica. Saiu no ano anterior a Spike Lee escolhê-lo para fazer de Gator, o irmão viciado em crack de Febre da Selva.

No Festival de Cannes de 1991 o júri inventou um prémio especial — Melhor Actor Secundário — para lho dar. Tinha quarenta e dois anos. Três anos mais tarde era Jules Winnfield em Pulp Fiction, a recitar uma passagem semi-inventada de Ezequiel antes de carregar no gatilho, e a Hollywood que passara duas décadas sem saber o que fazer com ele teve de inventar uma categoria para o tipo de actor que era. Veio o BAFTA. Veio também uma nomeação para o Óscar que não ganhou. Tarantino continuou a chamá-lo: Jackie Brown, Kill Bill: Vol. 2, Django Libertado, Os Oito Odiados.

O que veio a seguir partiu todas as regras tácitas sobre o que um actor negro perto dos cinquenta podia sustentar. Encabeçou dramas de tribunal (Tempo de Matar), sequelas de acção (Die Hard – A Vingança), terror de autor (Eve’s Bayou), thrillers de estúdio (O Negociador). George Lucas levou-o para a trilogia prelúdio de Star Wars como Mace Windu depois de Jackson se ter oferecido para o papel em televisão nacional. M. Night Shyamalan construiu à volta dele dois dos seus filmes mais singulares — O Protegido e Glass, o segundo a chegar dezanove anos depois do primeiro. A meio dos cinquenta era já o actor cujo nome no topo do cartaz vendia bilhetes independentemente do género.

O acordo com a Marvel foi o que construiu o império e complicou o legado. Depois de a Marvel Comics ter modelado a sua versão Ultimate de Nick Fury sobre o rosto do actor sem o consultar, os agentes de Jackson ligaram e transformaram aquilo num contrato de nove filmes que silenciosamente passou para além dos quinze. O MCU empurrou a bilheteira acumulada da sua carreira para além dos vinte e sete mil milhões de dólares, o número mais alto da história do meio para um actor em imagem real. Os filmes pediram-lhe também cada vez menos à medida que a franquia crescia, até Invasão Secreta, a série Disney+ de 2023, que lhe deu um protagonismo que a crítica rejeitou em bloco. Falou disso em entrevistas. Continuou também a aparecer.

A aposta mais profunda da carreira foi sempre o cinema mais pequeno. Os Últimos Dias de Ptolemy Grey, a minissérie Apple TV+ de 2022 adaptada do romance de Walter Mosley e desenvolvida por ele durante dez anos, transformou-o num idoso com demência brevemente recuperado por um medicamento experimental; foi a defesa pública do seu alcance fora do sistema dos estúdios. Nesse mesmo ano a sua mulher, LaTanya Richardson Jackson, dirigiu-o no regresso a Broadway de The Piano Lesson, de August Wilson. Meses depois recebeu um Óscar honorário nos Governors Awards, entregue por Denzel Washington, o amigo que tinha cruzado em Nova Iorque três décadas antes, quando ambos esperavam o papel que não chegava.

A agenda de 2026 é a de um actor muito mais novo. The Great Beyond, a ficção-fantasia de J.J. Abrams prevista para Novembro, junta-o a Glen Powell e Jenna Ortega. Just Play Dead, o thriller de Martin Campbell com Eva Green, foi vendido em meio mundo a partir de Cannes em Maio. The Beast, de Renny Harlin, fecha o ano. Em Fevereiro voou para o norte do Texas para começar a rodagem de Frisco King, o derivado de Tulsa King produzido por Taylor Sheridan que lhe dá o papel-título aos setenta e sete. Quase todos os seus contemporâneos da era de Pulp Fiction morreram, reformaram-se ou passaram em definitivo a papéis secundários. Jackson continua a receber cachet de protagonista. A carreira que começou tarde recusa-se, quatro décadas depois, a admitir que um dia vai acabar.

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