Actores

Sigourney Weaver, a atriz que transformou Ripley numa pergunta em vez de numa resposta

Aos 76 anos, depois de uma adolescente na'vi em Avatar, um Próspero masculino no West End e uma coronel da Nova República em The Mandalorian and Grogu, a mulher que inventou a protagonista moderna da ficção científica continua a recusar a versão confortável de si própria.
Penelope H. Fritz
Sigourney Weaver
Sigourney Weaver
Photo via The Movie Database (TMDB)
Nascimento8 de outubro de 1949
New York City, United States
OcupaçãoAtriz
Conhecido porWall-E, Alien – O 8.º Passageiro, Avatar
Prémios3 Globo de Ouro · BAFTA · Saturn · Hollywood Walk of Fame (1999) · Goya · Leão de Ouro

A personagem é tão densa de sentido que há quarenta e sete anos a crítica a usa como nome comum. Ripley — a oficial de quarto que sai viva dos destroços da Nostromo e se recusa a morrer pela conveniência de outrem — tornou-se a unidade de medida de uma certa presença feminina no ecrã. A atriz que a construiu passou as décadas seguintes a garantir que essa unidade não petrificasse. Sigourney Weaver não tem um museu dedicado a Ellen Ripley. Tem uma série de pequenos desvios deliberados que se afastam dela.

O mais recente é o mais improvável. Em The Mandalorian and Grogu, nas salas a partir de 22 de maio, Weaver interpreta a coronel Ward dos Adelphi Rangers da Nova República, antiga piloto da Aliança Rebelde que envia o mandaloriano de Pedro Pascal numa missão à Orla Exterior. Nunca tinha aparecido num filme de Star Wars. Tem 76 anos. A única condição que pôs para aceitar o papel, contou à BBC, foi uma cena com Grogu: ou partilhava o plano com Baby Yoda, ou não fazia sentido estar ali. Jon Favreau escreveu uma em que o pequeno lhe tenta roubar a comida.

Susan Alexandra Weaver nasceu em Manhattan, filha de Pat Weaver — o executivo da NBC que inventou o The Today Show e dirigiu a estação a meio dos anos cinquenta — e da atriz inglesa Elizabeth Inglis. Aos catorze anos, já com o seu metro e oitenta definitivo, decidiu que Susan era um nome demasiado curto para o corpo que tinha e foi buscar Sigourney a uma personagem secundária do Grande Gatsby. Licenciou-se em letras inglesas em Stanford e passou pela Yale School of Drama, onde teve como colegas Meryl Streep e Christopher Durang, e onde em 1974 entrou em The Frogs, o musical de Stephen Sondheim. Dois anos depois, uma fala em Annie Hall: é a rapariga que Alvy Singer encontra à porta de um cinema, três segundos escassos em cena.

Quando Ridley Scott a chamou para a oficial do Nostromo, o resto dos anos setenta deixou de importar. O que Alien, o Oitavo Passageiro e, sete anos depois, Aliens — O Recontro Final, de James Cameron, sustentaram foi que uma mulher podia carregar um filme de terror e um de ação sem se tornar a final girl nem o interesse romântico do protagonista. Ripley empunhava sozinha o lança-granadas. Weaver conseguiu uma nomeação para o Óscar pela sequela: décadas depois, é ainda a única nomeação para melhor atriz por um filme de género de que a crítica se lembra sem ter de a procurar.

E recusou-se a ficar por ali. Os Caça-Fantasmas, em 1984, encaixou-a como contraponto cómico de Bill Murray. Em 1988 acumulou duas nomeações para o Óscar na mesma gala: melhor atriz por Gorilas na Bruma, de Michael Apted, e melhor atriz secundária por Uma Secretária de Futuro, de Mike Nichols, a comédia de escritório em que faz a chefe que rouba a ideia à própria secretária. Perdeu as duas estatuetas na mesma noite e levou os dois Globos de Ouro correspondentes. A década seguinte foi de cinema de autor: Roman Polanski em A Morte e a Donzela em 1994, Ang Lee em Tempestade de Gelo em 1997 — o BAFTA veio desse filme —, Jean-Pierre Jeunet em Alien: A Ressurreição e Dean Parisot em Galaxy Quest, que defende em silêncio que ela também é uma grande atriz de comédia.

O Óscar nunca recebido é a conversa fácil sobre a carreira dela. Não é a interessante. A interessante é o que fez com a certeza de não o levar. A seguir a 1988 deixou de competir pelos papéis de prestígio e começou a aceitar partituras que nenhuma outra atriz do seu escalão tocaria: a mãe de Galaxy Quest cuja única piada é ter o vestido digerido por um alienígena; a narradora moralmente ambígua do Avatar de James Cameron; a atriz de meia-idade que aceitou, catorze anos depois, interpretar em captura de movimento uma adolescente na’vi de catorze anos em Avatar: O Caminho da Água e voltar a fazê-lo em Avatar: Fogo e Cinzas. A tese de Cameron — que a tecnologia hoje permite que o rosto atue independentemente do corpo que o suporta — precisava de um caso de teste; Weaver aceitou ser esse caso. A crítica entreteve-se com a cena do beijo com Jack Champion. Não reparou que a experiência resulta.

Sigourney Weaver
Sigourney Weaver. Photo: Harald Krichel / CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons (source)

A outra viragem tardia foi o teatro. Em dezembro de 2024 estreou no Theatre Royal Drury Lane de Londres a versão de A Tempestade encenada por Jamie Lloyd, no papel de Próspero — tradicionalmente reservado a um ator veterano do sexo masculino. Foi a sua estreia no West End. Foi também o primeiro Shakespeare programado no Drury Lane desde que Peter Brook ali encenara John Gielgud na mesma peça, em 1957. Recebeu o Goya Internacional de 2024 e o Leão de Ouro de carreira da 81.ª Mostra de Veneza, no mesmo ano. Os prémios honoríficos costumam funcionar como placa de saída. O dela chegou no meio de uma agenda que incluía um thriller para o Apple TV+, uma estreia em Star Wars, uma sequela de Avatar e o regresso confirmado como narradora de Avatar 4, com estreia prevista para 2029.

Weaver casou em 1984 com o encenador Jim Simpson e o casal tem um filho, que dá aulas na Columbia University School of the Arts. É presidente honorária do Explorers Club e há décadas patrona do Dian Fossey Gorilla Fund, o trabalho que a levou ao Ruanda em 1987 e que sobreviveu ao filme que a mandara para lá. Fala da própria carreira com a leve perplexidade de quem continua surpreendida por poder viver disto.

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O que vem a seguir não é, como sempre nela, um remate arrumado. Phoebe Waller-Bridge anunciou em janeiro que Weaver assumiu um papel-chave na adaptação de Tomb Raider para a Amazon, ao lado de Jason Isaacs. Avatar 4, previsto para 2029, vai ser narrado por Kiri, a personagem que já interpretou em três filmes e a que voltará em mais dois. A atriz que inventou Ellen Ripley em 1979 leva meio século a recusar a versão de si mesma que o sistema lhe foi oferecendo. À luz dos factos, não tenciona parar de recusar.

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