Televisão

Porque é que Mating Season, na Netflix, leva o cansaço das apps de encontros para a floresta

Martha O'Hara

Muita gente deixou em silêncio de tentar nos anos das apps de encontros, e a indústria da comédia ainda não tomou nota. Os humoristas escrevem as apps como piada de 2017; as ficções continuam a contar o namoro como se funcionasse igual a 2005. A próxima grande animação para adultos chega assinada por gente que já registou que a pergunta deixou de ser como conhecer alguém para passar a ser se vale a pena, e o único registo honesto que conseguiram encontrar para esse argumento foi uma floresta cheia de animais que não podem ficar em casa.

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O mundo animal não é um disfarce. Tira-se a um humano o protocolo do namoro — a pausa do segundo encontro, as fotografias combinadas, a regra dos três dias — e a cena vai logo para a pornografia ou para a coacção. Mete-se a mesma pressão biológica dentro de um guaxinim e de uma corça e o protocolo cai com honestidade: o namoro mostra-se como negociação sob um prazo que ninguém aceitou, como performance para um público que talvez não esteja a ver, como o medo concreto de não ser escolhido por alguém com mais opções do que tu. A floresta é o único registo em que esta equipa consegue dizer o que de facto quer dizer sobre acasalamento adulto na América do Norte de 2026. Os animais não são uma licença para grosseria. São uma licença para rigor.

Por trás do projecto está a mesma equipa de Big Mouth — Mark Levin, Jennifer Flackett, Andrew Goldberg, Nick Kroll — e a Titmouse outra vez na animação. A linguagem visual é o mesmo 2D dialogado: bocas e rotações de cabeça ficam com o orçamento do plano, as sequências de acção ficam apenas sugeridas. A direcção de vozes inclina-se para o stand-up — Kroll como o guaxinim Ray, Sarah Silverman, Jason Mantzoukas, Aidy Bryant, Abbi Jacobson, Andrew Rannells distribuídos pelo coro — e o ritmo dos diálogos segue por aí. Cada cena lê-se primeiro como um número confessional, depois como uma fala escrita. Quando um monólogo animal aterra, a cadência aproxima-se mais de um especial da HBO do que de uma sitcom padrão da plataforma. A marca de ofício está na disciplina vocal: a frase permanece no idioleto do actor, mas suficientemente ancorada para a animação jogar o tempo facial contra a linha em vez de à sua volta.

O mercado em que aterra é específico. Os utilizadores activos diários do Tinder caem há dois anos; o Pew Research move desde 2019 na mesma direcção a fatia de adultos solteiros abaixo dos trinta nos Estados Unidos; a geração Z reporta a frequência sexual mais baixa de qualquer geração do pós-guerra; a conversa pública sobre encontros endureceu, deixou de ser como se faz para ser se compensa fazer. Mating Season coloca exactamente essa pressão na boca de uma corça cuja biologia não lhe dá cláusula de saída. A corça não pode apagar a app. O público pode. Toda a máquina da série vive nessa diferença, e a equipa sabe-o o suficiente para não fazer sermões.

Dentro do género, a série está na segunda vaga da animação adulta americana, a que começa por volta de 2014 com BoJack Horseman e continua com Tuca & Bertie, Big Mouth, Inside Job e Human Resources. A primeira vaga servia para parodiar a sitcom familiar; a segunda usa o antropomorfismo para entrar em territórios interiores que a imagem real não alcança — depressão, puberdade, política do corpo feminino, vícios. O parente mais próximo em tom não é Big Mouth, apesar da equipa partilhada: é Tuca & Bertie, pela mesma disposição para pôr o corporal e o sexual ao ritmo de um número de stand-up e pela recusa em amortecer a aterragem com resoluções amorosas.

Beck Bennett as Arnold and June Diane Raphael as Fawn in Mating Season Season 1

O que o riso está a proteger do espectador não é o sexo. É o reconhecimento de que toda a economia dos encontros — as apps, a espera, as fotografias, a regra dos três dias, a manada de balcão que já funciona mais como manada do que como balcão — é um verniz civilizatório fino sobre um relógio biológico que não negocia. Os animais fazem rir porque a versão deles de acasalamento é honesta. O acasalamento honesto é aquilo que o espectador já não consegue permitir-se querer. Se o acasalamento é o impulso evolutivo universal e somos a primeira geração com capacidade técnica para sair em massa, a comédia tem de decidir se celebra a liberdade ou se lamenta o custo. Mating Season insiste nas duas metades sem tomar partido. Não resolve. Também não tenta.

Mating Season estreia na Netflix a 22 de Maio de 2026, classificação TV-MA. Nick Kroll dá voz ao guaxinim Ray; June Diane Raphael à corça Fawn; Zach Woods ao urso Josh; Sabrina Jalees à raposa Penelope. O elenco convidado inclui Sarah Silverman, Jason Mantzoukas, Andrew Rannells, Abbi Jacobson, Jason Alexander, Aidy Bryant, Vanessa Bayer, Lena Waithe, David Duchovny, Timothy Olyphant, Maria Bamford, Mark Duplass, Pam Adlon, Nasim Pedrad e Carlos Alazraqui, entre outros. Criada por Mark Levin, Jennifer Flackett, Andrew Goldberg e Nick Kroll para a Brutus Pink; animação da Titmouse.

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