Música

Udio admite em tribunal ter raspado áudio para treinar a sua IA musical

Alice Lange

A startup negou as acusações de violação de direitos de autor apresentadas pela Sony Music mas reconheceu que os seus dados de treino vieram de “fontes publicamente disponíveis” — linguagem que as editoras leem como YouTube. UMG e Warner já fecharam acordo. A Sony é a última grande editora ainda em tribunal, e a decisão sobre uso justo que se aproxima pode definir as regras para todas as ferramentas de IA musical do mercado.

Numa resposta apresentada no Distrito Sul de Nova Iorque, a startup de IA musical Udio admitiu formalmente o facto central no centro de um dos maiores litígios da indústria discográfica: os seus modelos foram treinados com áudio que raspou, não com áudio que licenciou. O articulado nega que isto constitua violação de direitos de autor e pede ao tribunal que rejeite com prejuízo os pedidos da Sony Music. Mas reconhece a atividade. A Sony, juntamente com a Arista Music e a Arista Records, é agora a única grande editora ainda em juízo contra um gerador de música por IA, depois de a Universal Music Group e a Warner Music Group terem ambas fechado acordo em silêncio e assinado contratos de licenciamento.

Em concreto, o articulado da Udio reconhece que o sistema foi construído alimentando-o com “uma vasta quantidade de diferentes tipos de gravações sonoras” obtidas a partir de “fontes publicamente disponíveis”. A partir dessas gravações, defendem os advogados da empresa, o modelo derivou “uma coleção complexa de aprendizagens estatísticas sobre as características sonoras” — linguagem desenhada para enquadrar o uso como transformador e não como derivativo. A posição das editoras, expressa na ação emendada que apresentaram no outono passado, é a de que a Udio raspou especificamente música protegida por direitos de autor do YouTube usando ferramentas como o yt-dlp, e que ao fazê-lo violou tanto o Copyright Act como as cláusulas antielisão do Digital Millennium Copyright Act. O articulado da Udio não nomeia o YouTube. Os advogados da Sony irão argumentar que a distância entre “fontes publicamente disponíveis” e YouTube é retórica, não factual.

A decisão sobre uso justo da Sony, esperada para este verão

Os acordos já alcançados são parte da razão pela qual o caso Sony importa. A Universal trocou no outono passado a sua ação por um arranjo equity-licenciamento numa futura plataforma conjunta de IA musical com a Udio, com remuneração opt-in para artistas. A Warner fez o mesmo com a Suno — principal rival da Udio — um mês depois. Os dois acordos transformam as editoras participantes em coproprietárias de jardins murados de IA licenciada, em vez de litigantes contra os não licenciados. A Sony escolheu de forma diferente. Ao permanecer em tribunal, a Sony aposta que uma decisão federal a seu favor se torne o precedente que define se as ferramentas de IA musical não licenciadas podem legalmente existir. Esse precedente importa menos hoje à Universal e à Warner do que há um ano, porque o futuro comercial das duas está na alternativa licenciada que ajudaram a construir.

A questão jurídica gira em torno do precedente Anthropic. Um tribunal federal decidiu no ano passado, num caso paralelo, que o treino não autorizado da empresa de IA com livros protegidos por direitos de autor se enquadrava em uso justo ao abrigo da lei norte-americana, mas que o descarregamento desses livros de bibliotecas piratas online não se enquadrava. Essa distinção, entre treinar e adquirir, é precisamente aquela que os advogados da Sony irão pressionar. Se o YouTube contar como “publicamente disponível” da mesma forma que uma biblioteca pública, a defesa da Udio reforça-se. Se extrair áudio do YouTube contar como elisão das proteções técnicas da plataforma, o argumento DMCA das editoras ganha. O juiz tem de decidir qual das duas coisas se aplica.

A camada cética

Isto não é exatamente a pistola fumegante que os títulos sugeriram. A admissão da Udio já estava implícita na própria existência do produto. Não se treina um modelo musical capaz de produzir imitações convincentes dos Temptations e de Mariah Carey, como as editoras demonstraram repetidamente, sem os ter ouvido sob alguma forma. O que o articulado muda é a posição jurídica. Antes, a Udio podia manter em zona ambígua a pergunta sobre como obteve os dados de treino. Agora já não pode. Mas a decisão que aí vem não desfaz o que já aconteceu com a UMG e a Warner. Duas das três grandes editoras já escolheram monetizar a IA em vez de tentarem matá-la. O caso Sony vai determinar o que os geradores de IA musical não licenciados podem fazer no futuro, mas a resposta comercial da indústria já está em grande parte escrita. O jardim murado licenciado é o futuro. O processo decide o que sobrevive lá fora.

As indemnizações, se a Sony vencer, podem ser punitivas. As editoras pedem até 150 000 dólares por obra mais 2 500 dólares por cada elisão. Multiplicado pelo número de faixas alegadamente presentes nos dados de treino da Udio, o valor cresce depressa. Na prática, uma vitória da Sony leva provavelmente a um acordo antes da fase de cálculo de danos, em termos mais próximos dos da UMG e da Warner do que de uma sentença de morte para a Udio. O desfecho mais provável, independentemente de como o juiz decida, é que a Udio acabe com uma licença. A pergunta é quem lhe escreve os termos.

A Udio apresentou a sua resposta à ação emendada da Sony a 29 de abril de 2026. A decisão sobre uso justo que se espera dos casos paralelos da Sony contra a Udio e a Suno está amplamente projetada para o verão de 2026 — o evento jurídico mais seguido do ano em IA musical. A Sony não se pronunciou publicamente sobre o articulado da Udio. A Udio não anunciou novos acordos de licenciamento desde a parceria com a Universal.

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