Cineastas

Lawrence Kasdan, o argumentista que aprendeu a realizar para que ninguém lhe mexesse numa réplica

Penelope H. Fritz
Lawrence Kasdan
Lawrence Kasdan
Photo via The Movie Database (TMDB)
Nascimento14 de janeiro de 1949
Miami Beach, Florida, United States
OcupaçãoCineasta
Conhecido porMelhor É Impossível, Wyatt Earp, Império dos Sonhos: A História da Trilogia Star Wars
Prémios4 Oscar · Writers Guild of America · Saturn · Hugo

A filmografia de Lawrence Kasdan é, na verdade, duas filmografias a puxar uma pela outra. Há o argumentista, o que ofereceu a George Lucas e a Steven Spielberg algumas das frases mais citadas dos respetivos universos e depois se retirou quando o segundo lhe pediu para repetir a façanha. E há o realizador, mais pequeno e mais teimoso, que filmou os próprios argumentos porque decidiu cedo que não suportava ver outro parafrasear-lhe os diálogos. Os dois passam a carreira inteira a puxar em sentidos contrários, e qual deles terá a última palavra é a parte da história que continua em aberto.

Cresceu em Morgantown, na Virgínia Ocidental, segundo filho de um empregado judeu de uma loja de departamentos que tinha mudado a família de Miami quando Larry ainda era bebé. Foi para a Universidade do Michigan estudar literatura inglesa, ficou para o mestrado em educação e descobriu pelo caminho que preferia escrever filmes a ensiná-los. O desvio pela publicidade, cinco anos a redigir copy na agência W.B. Doner de Detroit e depois de Los Angeles, é o local onde o argumento ganhou músculo de gabinete e explica uma fluência clássica para erguer tensão que nunca o abandonou.

Spielberg leu uma versão inicial de Continental Divide e contratou-o para escrever Os Salteadores da Arca Perdida; Lucas, poucos dias depois de Leigh Brackett ter entregado uma versão final de O Império Contra-Ataca e ter morrido de cancro, pediu-lhe que a terminasse. Quando esses dois filmes estavam em sala, Kasdan já filmava o seu, Fogo no Corpo, uma homenagem deliberada e quase arqueológica a Pagos a Dobrar, transposta para um Verão pegajoso da Flórida com uma Kathleen Turner então desconhecida. O percurso de copywriter anónimo a argumentista-realizador num único ano civil continua a ser uma das acelerações mais estranhas do Hollywood moderno.

O que veio a seguir é a faixa que a versão canónica de Kasdan congelou em quatro títulos. O Reencontro, o retrato coral da geração baby-boom que se tornou modelo de todos os filmes de reunião posteriores. Silverado, o western clássico que se obstinou em fazer com o irmão Mark Kasdan quando o género estava praticamente encerrado. Um Reencontro Casual, a adaptação discreta de Anne Tyler que lhe rendeu quatro nomeações para os Óscares, incluindo Melhor Filme. Grand Canyon, o mosaico de Los Angeles que assinou com a mulher Meg e lhe valeu a segunda nomeação para Argumento Original. Era, nessa altura, um realizador a quem um estúdio podia entregar histórias adultas com orçamentos adultos, e um argumentista capaz de dar a um veículo de estrela o ritmo de um programa duplo dos anos quarenta.

Essa reputação tem resistido de forma desigual desde então. Wyatt Earp, o western de três horas com Kevin Costner estreado em 1994, chegou seis meses depois de Tombstone ter já comido o público, e a comparação nunca lhe foi favorável. Han Solo: Uma História de Star Wars, que coescreveu com o filho Jonathan em 2018, era a entrada da saga que a Disney precisava que resultasse e foi exatamente a que não resultou; Kasdan disse depois que a Lucasfilm tinha falhado e afastou-se em grande medida da franquia. A linha de fratura é a mesma nos dois casos. É um escritor que recusa que outros realizem o que ele escreve, salvo raríssimas exceções, e uma indústria que quis, vezes sem conta, separar os seus argumentos da sua sensibilidade. A gaveta de projetos Kasdan por filmar é invulgarmente funda para um autor da sua estatura, e a decisão de os manter lá é tanto editorial como comercial.

Lawrence Kasdan
Lawrence Kasdan. Photo: Gage Skidmore from Peoria, AZ, United States of America / CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons (source)

Esta semana volta a realizar pela primeira vez em anos. Marty, Life Is Short, o documentário em longa-metragem sobre o comediante Martin Short que estreia hoje na Netflix, foi rodado e montado por Kasdan quase como um perfil de revista: acesso de amigo, arquivo acumulado ao longo de décadas, uma longa discussão sobre o que custa viver de fazer rir. Na próxima semana a Criterion lança a sua restauração 4K de Fogo no Corpo, supervisionada pela sua montadora histórica Carol Littleton e validada por ele pessoalmente, que chega como uma retrospetiva involuntária. E em dezembro passado a Universidade do Michigan, a sua alma mater, recebeu as mais de cento e cinquenta caixas do seu arquivo, incluindo as cassetes áudio das sessões de história originais de Raiders com Spielberg e Lucas, que terminam de ser tratadas até ao final deste ano.

A mulher Meg Kasdan, com quem casou quando ambos ainda viviam em Ann Arbor, coescreveu vários dos seus filmes e continua a ser a sua colaboradora mais frequente. Os filhos Jake e Jonathan já levam as próprias carreiras de estúdio (Jake com a saga Jumanji, Jonathan como coargumentista de Solo), o que transforma uma conversa de família num seminário contínuo sobre como deve ser um filme Kasdan no século XXI.

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Qual será o próximo, ninguém fora dessa conversa parece saber. O arquivo regressa a Ann Arbor, o documentário está na Netflix, a estreia inicial volta a ver-se como se via na primeira vez. A carreira não se fechou, mas pela primeira vez há muito tempo está a ser lida toda de uma só vez.

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