Desporto

Lionel Messi, o número dez já em estátua que ainda não disse quando pára

Penelope H. Fritz

Há uma versão de Lionel Messi que já foi transformada em estátua e outra que, neste momento, treina duas vezes por dia em Miami porque o Campeonato do Mundo está a um mês e ainda não disse a ninguém se vai jogar. A estátua pertence ao público. A agenda pertence-lhe a ele. Entre as duas sobrevive o único Messi sobre quem vale a pena escrever: capitão de um clube campeão, dono de cada troféu que o futebol pode entregar, a medir se o corpo que assinou o Catar pode assinar mais um verão norte-americano. Não disse que sim. Não disse que não. O silêncio é a notícia.

Cresceu suficientemente pequeno para que o futuro que toda a gente lhe via quase não tivesse acontecido. Em Rosario, filho de uma família operária de origem italiana — o pai na siderurgia, a mãe a limpar casas em horário partido —, foi-lhe diagnosticada aos dez anos uma deficiência de hormona do crescimento, o tipo de dado clínico que termina carreiras antes de começarem. O seguro de saúde da família cobria dois anos de tratamento. O Newell’s Old Boys, clube de que era e continua a ser adepto, não podia cobrir o resto. Um teste no FC Barcelona, organizado por familiares catalães, terminou com o diretor desportivo Carles Rexach a comprometer-se com ele num guardanapo de papel num restaurante de Barcelona, porque não havia outro papel à mão. Tinha treze anos. O guardanapo está hoje emoldurado na história do clube. Também foi uma emergência.

O que La Masia recebeu foi um avançado canhoto que via linhas que os outros jogadores não viam e se recusava a ser fisicamente moldado como o futebol pretendia exigir-lhe. A estreia na equipa principal chegou em 2004, o primeiro golo em LaLiga uns meses depois, e a era começou a sério com Pep Guardiola a partir de 2008: quatro Bolas de Ouro consecutivas (de 2009 a 2012), os 91 golos num ano civil que continuam no livro dos recordes e duas Ligas dos Campeões da UEFA dentro da catedral do tiki-taka. Depois o tridente com Luis Suárez e Neymar, a tripla 2014-15, outra taça europeia. No fecho do ciclo Barça em 2021 tinha marcado 672 golos pelo clube, ganho dez títulos de LaLiga e quatro Ligas dos Campeões, e tornara-se aquele tipo de jogador sobre o qual já não se discute o quão bom é, mas se a categoria de que dispomos para ele chega.

Durante mais de uma década, a resposta que a Argentina lhe devolvia era: ainda não. Três finais de Copa América perdidas, a final do Mundial de 2014 contra a Alemanha no Maracanã, a final da Copa 2016 nas grandes penalidades — Messi falhou a sua marcação — e em seguida a despedida da seleção que durou dois meses porque a geração argentina seguinte lhe pediu para não sair. Voltou. A suspeita de que não entregava ao país o que entregava ao clube, de que a equipa de infância pesava mais que a pátria, viveu-lhe no processo durante boa parte de uma década. Não desapareceu quando vieram os troféus. Foi reescrita por eles: Copa América no Maracanã em 2021, Campeonato do Mundo no Catar em 2022 — Bola de Ouro do torneio, dois golos à França na final, decisão por penáltis — e outra Copa América em 2024. O palmarés lê-se hoje como redenção. Os anos que custou lá chegar, não.

A saída de Barcelona em 2021 foi menos uma transferência do que um despejo. O tecto salarial de LaLiga não comportava a renovação que o clube já tinha acertado em princípio; Messi chorou em conferência de imprensa; a relação que tinha definido um quarto de século de futebol europeu acabou por uma folha de cálculo. Os dois anos seguintes no Paris Saint-Germain entregaram dois títulos de Ligue 1 e uma época individual ao nível de MVP — 16 assistências em liga, 21 contribuições para golo em todas as provas em 2022-23 — e quase nenhuma alegria. Ele próprio disse depois à imprensa que a família ‘passou por um período duro’ em Paris. Os dados e a sensação nunca se reconciliaram. Foi para Miami em julho de 2023 com a cara de quem escolhe a própria casa pela primeira vez desde os treze.

A mudança para Miami foi lida como decisão de liga de pré-reforma embrulhada num acordo de partilha de receitas com a Apple TV+. Dois anos e meio depois, essa leitura sustenta-se mal. O Inter Miami venceu a Leagues Cup no primeiro mês após a sua chegada, o Supporters’ Shield em 2024, a Copa América com a Argentina nesse mesmo verão e, em dezembro de 2025, a MLS Cup, um 3-1 ao Vancouver Whitecaps em que Messi assistiu os dois golos decisivos da segunda parte e foi eleito MVP da final. A fase de playoffs deixou quinze contribuições para golo, recorde absoluto numa única pós-época, e a transmissão reuniu 4,6 milhões de espectadores, número que a liga nunca tinha visto. Foi o seu 47.º troféu entre clube e seleção, recorde mundial. O rótulo ‘liga de pré-reforma’ aguentou exactamente o mesmo que aquela folha de cálculo que o empurrou para fora do Barça.

Em outubro de 2025 renovou até 2028, duplicando o salário base na MLS para 28,3 milhões de dólares garantidos em 2026, o ano em que o Inter Miami estreia o Miami Freedom Park, primeiro estádio próprio do clube. Lidera agora a MLS em contribuições para golo nos primeiros doze jogos de 2026. Figura também — e esta parte ninguém pode escrever por ele — na lista provisória de 55 jogadores da Argentina para o Campeonato do Mundo 2026, organizado entre Estados Unidos, México e Canadá, sem ter confirmado que vai estar. A decisão, disse o seleccionador Lionel Scaloni, é apenas dele. Os dados de treino sugerem que se prepara como se a resposta fosse sim. O silêncio público sugere que prefere tomar a decisão sobre um corpo que já ganhou o direito de não ser apressado.

É casado com Antonela Roccuzzo, amiga de infância em Rosario, desde 2017; os três filhos — Thiago, Mateo e Ciro — fazem parte da academia do Inter Miami CF. As docusséries da Apple TV+ Messi’s World Cup: The Rise of a Legend (2024) e Messi Meets America (2023) já entregaram os primeiros rascunhos da versão oficial da história dele. O próximo capítulo é o que ninguém escreveu por ele: se o GOAT assina o próprio fim num décimo estádio norte-americano no próximo verão, ou num julho da Florida com o troféu já na sala. Qualquer um dos dois finais encerra o mesmo debate.

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