Ciência

Um grão de metal com 10 mil átomos foi mantido em dois sítios ao mesmo tempo

Peter Finch
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Físicos colocaram uma partícula de metal feita de até 10 mil átomos num estado em que ocupava simultaneamente duas posições ligeiramente separadas. O aglomerado mal é visível — tem cerca de oito nanómetros — mas é muito maior e muito mais pesado do que qualquer objecto antes mantido numa sobreposição quântica verificada. Pela primeira vez, a estranheza de manual habitualmente reservada a átomos isolados e pequenas moléculas é demonstrada num pedaço real de metal sólido.

Uma sobreposição quântica é a situação em que uma partícula se comporta, enquanto se mantiver isolada do meio, como se estivesse em mais de um sítio ao mesmo tempo. A imagem popular é o gato de Schrödinger, mas a versão de laboratório é mais sóbria e mais reveladora: faz-se passar a partícula por uma disposição precisa de obstáculos e observa-se o padrão onde aterra. Se interfere consigo mesma, esteve em dois sítios pelo caminho. Se não, comportou-se como um objecto clássico.

Os aglomerados de sódio usados pesam mais de 170 mil unidades de massa atómica, o que coloca a partícula cerca de uma ordem de grandeza acima do objecto mais pesado antes posto neste estado. A extensão da sobreposição foi dezenas de vezes mais larga do que as próprias partículas, um regime que os físicos descrevem com um índice chamado macroscopicidade, no qual o novo resultado atinge μ = 15,5.

A experiência foi conduzida por grupos da Universidade de Viena e da Universidade de Duisburg-Essen, com o doutorando Sebastian Pedalino como primeiro autor e Markus Arndt, Stefan Gerlich e Klaus Hornberger como responsáveis. A técnica chama-se interferometria de ondas de matéria em campo próximo. Três redes de difracção formadas por feixes laser ultravioleta funcionam como obstáculos. Os aglomerados atravessam-nas em sequência e a forma como se acumulam no detector diz à equipa se cada um viajou como onda — em dois sítios ao mesmo tempo — ou como uma partícula ordinária.

O propósito da experiência não é viabilizar uma nova tecnologia. O propósito é continuar a empurrar a fronteira onde a mecânica quântica foi verificada e onde poderá ceder. Todas as previsões da teoria têm aguentado, mas a teoria nada diz sobre porque é que os objectos clássicos do dia-a-dia nunca parecem estar em dois sítios ao mesmo tempo. Esticar o regime para objectos mais pesados e complexos afina essa pergunta, e uma eventual falha da interferência a uma determinada escala de massa seria evidência directa de física nova.

O resultado tem limites. O sinal de interferência só aparece a temperaturas ultrafrias e apenas durante cerca de um centésimo de segundo de voo livre pelo aparelho, antes de o gás residual, a radiação e o movimento térmico destruírem a coerência. Os aglomerados continuam microscópicos pelos padrões correntes. E a experiência assenta em hipóteses sobre as redes ópticas e sobre a fonte de aglomerados que a equipa tem de defender face a explicações alternativas, parte do que a revisão por pares testou.

Face ao ponto onde o campo estava há cerca de duas décadas, quando a interferência foi mostrada pela primeira vez na molécula de carbono de 60 átomos conhecida como buckyball, o resultado actual é categórico. O salto de massa é de cerca de duas ordens de grandeza acima dessas primeiras demonstrações e a macroscopicidade é comparativamente mais alta. Cada passo em direcção a objectos do tamanho e da complexidade de um vírus ou de uma célula viva é também um passo na direcção do ponto em que a intuição deixa de ser um guia útil.

O trabalho saiu em maio de 2026 na Nature. As equipas de Viena e de Duisburg-Essen indicaram que a próxima fase apontará a partículas ainda maiores e a composições materiais diferentes — o degrau natural nesta linha de experiências — e explorarão se a técnica de ondas de matéria pode servir como sensor de precisão para forças e propriedades à escala nanométrica.

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