Documentários

‘Devo Casar-me com um Assassino?’ na Netflix: 167 km até um pântano

Veronica Loop

A médica legista escocesa Caroline Muirhead conheceu no Tinder o homem com quem se ia casar. Três anos depois, ele confessou-lhe: juntamente com o seu irmão gémeo idêntico, tinha atropelado um ciclista na estrada A82 da Escócia e enterrado o corpo num pântano. Caroline não rompeu o noivado. Permaneceu ao seu lado durante meses, reuniu provas e acabou por levar a polícia ao local da sepultura.

O documentário britânico ‘Devo Casar-me com um Assassino?’ constrói-se sobre esta ironia: uma médica legista, cuja profissão é ler corpos, não viu o assassino que dormia ao seu lado. Caroline conheceu Alexander ‘Sandy’ McKellar no Tinder. Ele pediu-a em casamento; poucos meses antes da boda, fez-lhe a pergunta que se faz, meio a brincar, em noivados longos: havia algo que ela precisasse de saber? Ele respondeu com uma confissão. Caroline não o deixou nessa noite. Manteve o noivado, deixou-se conduzir por ele até à sepultura e, no chão, ao lado do local, depositou uma lata de Red Bull para que a polícia tivesse uma referência quando ligasse.

YouTube video

Trinta minutos na A82

Dois episódios — esse formato é o primeiro argumento estrutural do documentário. Recusa o alongamento típico do true crime de plataforma e dá apenas espaço ao que sustenta a história. A primeira hora é de Caroline. A segunda é de Tony Parsons. Sessenta e três anos. Sub-oficial reformado da Marinha Real Britânica. Marido, pai e avô.

Naquela manhã, Tony Parsons tinha partido para um passeio solidário de bicicleta de 104 milhas — pouco mais de 167 quilómetros — pela estrada A82, entre Bridge of Orchy e Tyndrum, no sul das Highlands escocesas. A reconstituição médico-legal viria a estabelecer que ele sobreviveu cerca de trinta minutos ao impacto. Sandy McKellar, que tinha bebido, regressou ao local com o irmão. Não chamaram socorro. Levaram o corpo para um bosque próximo e enterraram-no em Auch Estate, uma propriedade rural que os irmãos utilizavam habitualmente para se livrarem de animais mortos. A categoria em que o colocaram constitui, em si, uma prova.

Três anos e meio sob o nome ‘O Ciclista Desaparecido’

A polícia escocesa designou o caso como ‘O Ciclista Desaparecido’ durante os três anos e meio em que o corpo permaneceu desaparecido. Os agentes percorreram vastas zonas remotas das Highlands; também a família de Tony Parsons procurou. A sepultura ficava a uma curta caminhada da estrada. Foi a chamada de Caroline em dezembro de 2020 e a lata que ela tinha deixado junto ao local que puseram fim à busca em poucos dias; os restos mortais foram recuperados em janeiro de 2021.

Os irmãos McKellar declararam-se inicialmente inocentes do crime de homicídio doloso, mas, a um mês do julgamento, aceitaram um acordo no High Court of Justiciary, em Glasgow: Alexander declarou-se culpado de ‘culpable homicide’ — a figura do direito escocês mais próxima do homicídio negligente do direito português — e de obstrução da justiça; Robert apenas da obstrução. A aceitação, por parte do Ministério Público, de uma qualificação mais branda do que homicídio doloso assentou no exame médico-legal a que o documentário regressa repetidamente: os trinta minutos em que Tony Parsons ainda estava vivo e a decisão que os irmãos tomaram nessa janela. Sandy McKellar foi condenado a doze anos. O irmão, a cinco. Margaret Parsons, a viúva, declarou que não vai perdoar: a prisão perpétua, agora, é dela.

O preço de ter feito o que era certo

Ver este caso no início de 2026 implica vê-lo no interior de duas conversas que o Reino Unido vem mantendo há anos. A primeira abriu-se depois de Sarah Everard e Wayne Couzens: o reconhecimento de que homens capazes de violência se movem, com frequência, no interior de vidas perfeitamente comuns, e de que a intimidade quotidiana não é um instrumento fiável de deteção. A segunda é a longa tradição britânica de casos arquivados que voltam a ser abertos porque alguém próximo do autor decide, finalmente, falar. O que este documentário pergunta é quanto custa essa decisão à pessoa que a toma.

Caroline tem falado publicamente de um colapso de saúde mental que não cessou e da impossibilidade de regressar ao trabalho. A médica legista que sabia ler qualquer corpo, exceto aquele que dormia a seu lado, está, pelo menos no momento, incapaz de ler os corpos que lia anteriormente. O documentário é feito, em consequência, sob uma pressão editorial que o true crime de plataforma de há cinco anos não conhecia: a sua entrevistada principal continua a pagar o preço por ter sido entrevistada. Quase nada ali é extrativo. Quase tudo é protetor.

Should I Marry A Murderer? - Netflix
Should I Marry a Murderer? (L to R) Caroline Muirhead, Alexander McKellar, in Should I Marry a Murderer? Cr. Courtesy of Netflix © 2026

O que o documentário deixa em aberto não é se Caroline fez o que era correto. Fez. O que deixa em aberto é o que o correto lhe custou — e se esse custo tem fim. Saber que aquilo que mais se deixou de ver foi o homem com quem se partilhou a cama durante três anos é uma prova de natureza específica sobre si própria. Se alguém que amou um assassino durante todo esse tempo sem o ver consegue recuperar plenamente a confiança no próprio juízo — aquela que a sua profissão exige — não é uma pergunta a que a série possa responder, porque não é uma pergunta que Caroline Muirhead tenha terminado de viver.

‘Devo Casar-me com um Assassino?’ estreia na Netflix a 29 de abril de 2026 como série documental em dois episódios produzida no Reino Unido. A entrevistada principal é a doutora Caroline Muirhead. Alexander McKellar cumpre atualmente uma pena de doze anos de prisão; o irmão gémeo Robert, cinco. O caso já fora tratado em ecrã na produção ‘Murder Case: The Vanishing Cyclist’, exibida pela BBC Scotland em 2025, em relação à qual esta série constitui menos uma repetição do que um contracampo.

Discussão

Existem 0 comentários.