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O sorriso de Ronaldinho era real — mas também era uma exigência

Jack T. Taylor

Existe uma cena de arquivo em Ronaldinho Gaúcho: The One and Only que diz mais do que qualquer testemunho. Não é a ovação no Bernabéu, nem o golo contra a Inglaterra em 2002, nem as imagens da prisão no Paraguai. É uma cena posterior — o corpo ligeiramente mais pesado, o movimento imperceptivelmente mais lento — e o que a câmara regista é o momento exacto em que um estilo de jogo que parecia fisicamente impossível para qualquer outro ser humano deixou de ser natural para o próprio homem que o criou.

É esse o argumento real do documentário, mesmo que o filme não o reconheça inteiramente.

O que a série cumpre

A minissérie de três episódios realizada por Luis Ara e coproduzida pela Canal Azul e Trailer Films entrega o que promete. As imagens dos anos de Barcelona (2003–2008) dispensam interpretação. Um jogador a executar um elastico a meio de um jogo da Liga dos Campeões, com a marcação de um dos melhores clubes do mundo em cima dele, parecendo ter tempo para outra coisa inteiramente — esse material não precisa de análise. É autoevidente.

Os testemunhos têm peso genuíno. Messi, Neymar, Roberto Carlos, Carles Puyol, Gilberto Silva: quando estas pessoas falam sobre a qualidade de um jogador, não se trata de cortesia. Quando Messi afirma que Ronaldinho foi mais importante para ele do que ele foi para Ronaldinho, a frase não é protocolo de entrevista. É uma descrição rigorosa do que um argentino de vinte anos experimentou ao ver um brasileiro jogar futebol de uma forma que dissolvia a distinção entre preparação e improviso.

O documentário acerta ao enquadrar o jogo bonito como uma filosofia que necessitava de uma pessoa específica para continuar a ser credível. Pelé, Garrincha, Zico, Ronaldo, Ronaldinho — cada geração produziu um portador do mito. Ronaldinho foi o último em que o mundo inteiro acreditou simultaneamente.

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O que a série não diz

O documentário mais interessante existe nos silêncios.

Ronaldinho não jogou com esta liberdade no vazio. Jogou dentro de um sistema — o Barcelona de Frank Rijkaard — suficientemente sofisticado para sustentar a espontaneidade que ele introduzia. A mitologia do jogo bonito apaga essa estrutura porque depende da ideia de que o futebol belo existe em oposição ao futebol organizado. Na prática, o futebol mais criativo da história foi sempre produzido por sistemas precisos o suficiente para tornar a criatividade viável. Quando Ronaldinho saiu desse sistema, a criatividade não o acompanhou intacta.

Há também uma camada económica que o filme consistentemente evita. O jogo bonito não era apenas um estilo de jogo — era uma marca, e Ronaldinho era o seu principal activo comercial nos anos em que a indústria global do futebol descobriu que a personalidade podia valer mais do que a performance. A campanha Joga Bonito da Nike não vendeu um atleta. Vendeu a ideia de que o futebol ainda podia ser livre — enquanto o desporto profissional fazia sistematicamente o contrário. Ninguém no documentário pergunta o que essa contradição custou ao homem que lhe emprestava o rosto.

O corpo é a testemunha mais honesta dos três episódios. O jogo de Ronaldinho operava no limite do controlo físico — e esse tipo de jogo não declina gradualmente. Funciona na plenitude, e depois deixa de funcionar. As imagens do Milan, do Flamengo, do Atlético Mineiro não mostram um jogador sem vontade. Mostram um corpo que já não consegue sustentar as exigências físicas de um estilo que sempre funcionou na margem do possível.

A pergunta que fica

A selecção de entrevistados — exclusivamente pessoas que o admiraram ou beneficiaram da sua presença — fecha a porta ao atrito que teria tornado o retrato mais completo. A década entre Barcelona e a retirada, durante a qual Ronaldinho jogou em sete clubes em três continentes numa espécie de crepúsculo profissional prolongado, é comprimida até quase desaparecer.

O que o documentário levanta e não consegue responder — não por falta de informação, mas porque o formato não alcança — é o seguinte: o que significa ter sido, durante três anos, o futebolista mais celebrado do mundo, e depois assistir à transferência completa e permanente da função simbólica que se ocupava para outra pessoa, no mesmo balneário, enquanto ainda se estava presente?

A frase de Messi — ele foi mais importante para mim do que eu fui para ele — é a coisa mais precisa que alguém diz em três episódios. O documentário não entra na sala que essa frase abre.

A câmara regista o rosto. Não alcança o que está por trás do sorriso quando o sorriso se tornou, por tempo suficiente, aquilo que o mundo exigia — e não aquilo que o homem sentia.

Ronaldinho Gaúcho: The One and Only está disponível na Netflix. A minissérie de três episódios estreou globalmente a 16 de abril de 2026.

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