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Junichi Yasuda apostou as suas poupanças em A Samurai in Time e arrasou nos prémios do Japão

Veronica Loop

A premissa é uma piada com uma lâmina lá dentro. Um samurai dos últimos dias do xogunato está a meio de um duelo quando um relâmpago o atinge, e acorda no plató de uma produção de época atual, confundido com um figurante. Não sabe ler uma folha de serviço nem usar uma máquina de venda automática, e a única coisa que sabe fazer, abater um homem com uma espada verdadeira, é precisamente o que nenhuma produção o deixará fazer a sério. Por isso aceita o único emprego para que a sua única competência o habilita. Veste o guarda-roupa e morre, de forma convincente, take após take.

Esse ofício tem um nome no meio. O kirare-yaku é o intérprete cuja arte inteira consiste em morrer bem para que a estrela fique bem ao vencer, e A Samurai in Time constrói a sua comédia sobre ele, ou seja, sobre as pessoas que um género nunca se dá ao trabalho de creditar. É um filme sobre o trabalho anónimo, e foi feito exatamente nas condições que retrata: quase sem dinheiro, quase sem equipa, um só homem a cobrir quase todas as funções atrás da câmara. O resultado pratica o que prega.

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Makiya Yamaguchi interpreta Kosaka Shinzaemon, e o elenco é o argumento. Yamaguchi passara uma longa carreira nas margens dos filmes dos outros antes de este se tornar, contra todas as probabilidades, o seu primeiro papel principal: um ator do fundo do plano a quem se entrega o primeiro plano. Encarna o espadachim fora do tempo sem nunca piscar o olho ao público, e essa recusa de exagerar é a razão pela qual a comédia se aguenta em vez de ruir em esquete. Norimasa Fuke, como ídolo do cinema atual, e Yuno Sakura, como a assistente de realização que acolhe o samurai perdido, dão-lhe um mundo moderno desconcertante para enfrentar.

Junichi Yasuda escreveu o filme, fotografou-o, montou-o e realizou-o, e financiou a maior parte do próprio bolso através da sua produtora, a Mirai Eiga-sha. Não é uma frase inventada por um departamento de marketing; é o modelo de produção, e explica a textura do ecrã: a paciência de quem gasta o próprio dinheiro e a disciplina de quem sabe que não há verba para repetir um take. É o oposto de como a indústria japonesa insiste que se fabrica um êxito popular.

O momento desse argumento conta. O jidaigeki, a tradição do filme de época que outrora encheu a televisão japonesa e os estúdios de Quioto onde a Toei ergueu o seu império, encolheu até virar nicho, com as suas equipas especializadas a envelhecer e os seus cenários permanentes a calar-se. Yasuda filma em grande parte num desses platós sobreviventes, e o motor do filme é a distância entre a ideia de honra de um samurai a sério e a morte descartável e repetível que a indústria moderna lhe exige. A piada vai-se adensando, com eficácia, até roçar a elegia.

A economia é a parte que os distribuidores ainda ruminam. Feito por cerca de 26 milhões de ienes, o filme estreou num único ecrã e cresceu para fora apenas pelo boca a boca até arrecadar perto de mil milhões de ienes, um múltiplo que qualquer estúdio a gastar cem vezes mais invejaria. Os prémios vieram atrás do público, não à frente. Venceu Melhor Filme no Japan Academy Film Prize, que premiou também a sua montagem; Melhor Filme e Melhor Ator nos Blue Ribbon; e Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Ator nos prémios de cinema do Nikkan Sports. Raramente os galardões se juntam assim sobre um filme que o próprio realizador levou às salas.

Nada disto prova que o modelo se repita. Uma fita feita por 26 milhões de ienes que devolve mil milhões é um bilhete de lotaria premiado, não uma planta-mestra, e o seu êxito deve mais a uma onda de afeto específica e irrepetível do que a qualquer fórmula que um produtor possa engarrafar. O seu carinho pelo jidaigeki não inverte o declínio comercial do género; quando muito, documenta-o. E há uma perda dobrada na produção que nenhum elogio resolve. Seizo Fukumoto, o ator abatido diante da câmara mais vezes do que quase toda a gente na história do ofício, estava escalado antes de morrer e foi substituído por Rantaro Mine, deixando um filme sobre o homem que morre para a lente sem o homem que era esse ofício. Quem não tem sensibilidade pelo jidaigeki talvez veja parte desse carinho passar ao lado.

Os principais nomes creditados são Yamaguchi, Fuke, Sakura e Mine, este último como o coreógrafo de combate que ensina o recém-chegado a cair. A Mirai Eiga-sha produziu e distribuiu o filme, que dura 131 minutos.

A Samurai in Time estreou no Japão a 17 de agosto de 2024 e chega às salas sul-coreanas a 24 de junho de 2026, enquanto a sua circulação internacional avança por parceiros como a Cineverse. Para já, não há estreia confirmada nas salas portuguesas. Fica a pergunta de saber se a aritmética do boca a boca que o construiu em casa sobrevive à travessia da fronteira. Mas atravessa-a tendo já feito o mais difícil para um independente: levar uma indústria inteira a desejar ter tido a ideia primeiro.

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