Críticas

Cry Macho – A Redenção: o Eastwood que trocou a violência pela paciência

Camille Lefèvre

Há um plano a meio de Cry Macho – A Redenção em que o Mike Milo de Clint Eastwood está sentado a uma mesa de cozinha no México rural, a comer tamales em silêncio com uma família que o acolheu. A câmara não se move. Eastwood não se move. A cena não tem qualquer função narrativa. Insiste simplesmente no facto de um homem velho, em repouso, num lugar onde não pertence, a encontrar pertença mesmo assim. É Eastwood aos noventa e um anos a dirigir-se a si próprio, e é, em miniatura, o que o filme inteiro faz.

Adaptado do romance de Richard Nash, Cry Macho – A Redenção segue Mike Milo — um ex-astro do rodeio falhado — contratado pelo seu antigo patrão para trazer o filho adolescente, Rafo (Eduardo Minett), de regresso ao Texas, longe da mãe instável no México. O road movie que se segue é despojado de incidentes quase por princípio. Não há tiroteios, nem antagonistas de ameaça real. O que há é uma ternura acumulada entre um velho e um rapaz que cada um acredita que o outro sabe algo que ele não sabe.

A gramática do Eastwood tardio

Neste ponto da filmografia de Eastwood, a sua obra tardia — The Mule, Richard Jewell, Cry Macho – A Redenção — constitui um ajuste de contas sustentado com a identidade masculina. Onde Os Imperdoáveis interrogava a mitologia da violência fronteiriça por dentro, e Gran Torino traçava o que acontece ao alfa quando o mundo deixa de falar a sua língua, Cry Macho vai um passo mais longe: toda a gramática do machismo foi sempre um vocabulário emprestado. O título não é apenas o nome do galo de Rafo — é a tese de Eastwood.

O Rafo de Eduardo Minett é o melhor do filme — uma interpretação de energia instintiva e desprotegida que questiona o velho sem o reverenciar. Natalia Traven, como a viúva Marta, traz calor às suas cenas. O que Cry Macho – A Redenção não resolve é o problema da sua própria leveza narrativa: as apostas são baixas, os antagonistas perfunctórios, o enredo largamente cerimonial. Eastwood pede paciência pela força da sua presença. É muito pedir. Mas o cinema tardio de Eastwood tornou-se um modo singular no panorama americano — formalmente conservador, tematicamente radicalizante. Cry Macho – A Redenção é, talvez, a sua entrada mais honesta. Em Portugal, o filme estreou-se a 16 de setembro de 2021.

Realização

Clint Eastwood
Photo via The Movie Database (TMDB)

Clint Eastwood

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