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Bert Kreischer, o humorista que construiu um império na Netflix com uma só história de faculdade

Penelope H. Fritz

O mais estranho em Bert Kreischer não é que se apresente em tronco nu, nem que tenha construído toda a carreira sobre uma única história de um comboio nocturno na Rússia, nem que essa história tenha acabado por se transformar num filme com Mark Hamill. O estranho é que nada disso se gastou. O sexto especial dele para a Netflix entrou entre os stand-up mais vistos da plataforma no ano em que estreou. A sitcom guionizada foi renovada para a segunda temporada antes de a primeira fechar o ciclo. A digressão em arenas continua a esgotar bilhetes nos dois lados do Atlântico. O stand-up tornou-se literário, observacional, de prestígio; Kreischer continua plantado num quintal a contar daquela vez em que, e a sala não pára de crescer.

Albert Charles Kreischer Jr. cresceu em Tampa, na Florida, frequentou o Jesuit High School e matriculou-se na Florida State University. Ficou sete anos a estudar literatura inglesa em FSU, uma estadia universitária tão prolongada que produziu o documento fundador da sua carreira. Em 1997, a Rolling Stone titulou o perfil dele como “The Undergraduate” e coroou-o o maior pândego da maior universidade pândega dos Estados Unidos. Nessa mesma peça já asomava a história russa hoje folclórica: o intercâmbio universitário em Moscovo, o comboio nocturno, os homens que ele entendeu serem da máfia russa, o absurdo e improvável assalto ao comboio. A versão que conta hoje foi polida por três décadas de palco. A versão que a Rolling Stone publicou abriu-lhe as portas.

Formado, mudou-se para Nova Iorque e fez a tropa nos clubes no fim dos anos noventa e início dos dois mil, apanhando televisão pelo caminho: convidado no Late Show with David Letterman, no Jimmy Kimmel Live, no Conan, uma rubrica regular em Rachael Ray no início da década passada, um programa do Travel Channel chamado Bert the Conqueror, a câmara oculta de Trip Flip. Nada disso o catapultou como a história russa o catapultaria quando finalmente a gravou. Bert Kreischer: The Machine, o especial Showtime de 2016 construído em torno daquela anedota, explodiu no YouTube — o clip soma hoje centenas de milhões de visualizações. A alcunha pegou. A camisola saiu e nunca mais voltou. Seguiu-se a corrida pela Netflix: Secret Time em 2018, Hey Big Boy em 2020, Razzle Dazzle em 2023, Lucky em 2025. A longa-metragem The Machine, realizada por Peter Atencio em 2023, com Hamill no papel do pai de Bert, foi a aposta improvável de transformar um número de cinco minutos numa comédia de acção Sony. O filme arrecadou perto de onze milhões na bilheteira mundial e recebeu as críticas previsíveis — irrelevantes, dado quem compra esses bilhetes.

Nada disto se parece com aquilo que a comédia contemporânea deveria ser. O momento premeia o meticuloso, o político, o literário: os ensaios cénicos de Hannah Gadsby, a ansiedade estruturalmente impecável de John Mulaney, a lenta combustão de Ali Wong. Kreischer fica fora dessa conversa de propósito. O material é autobiográfico até à confissão, a estrutura avança de história em história, o corpo em palco é o de um pândego envelhecido sem pedir desculpas. A crítica usa-o como o caso de que a comédia de arenas nada tem para ensinar; o público usa-o como prova de que o relato confessional, bem contado, em grande plano, em tronco nu, continua a ser o contrato mais fiável do stand-up. As duas leituras são verdadeiras. O interessante é que Kreischer se recusou a tornar-se no comediante que a crítica preferiria, e os números comerciais, para já, dão-lhe razão.

Lucky, gravado em sete noites esgotadas no Mahaffey Theater de São Petersburgo, na Florida, estreou na Netflix em Março de 2025. Foi o sexto especial dele para a plataforma e um dos stand-up mais vistos do ano no serviço. Foi também um reset físico deliberado: tinha perdido cerca de vinte quilos antes das filmagens e meteu a transformação dentro do número. Free Bert, a sitcom guionizada que criou com Jarrad Paul e Andy Mogel para a Netflix, estreou a 22 de Janeiro de 2026 e foi renovada para uma segunda temporada em menos de dez semanas. Coloca-o como um Bert ficcional a mudar a família para Beverly Hills, uma comédia de peixe fora de água construída sobre o mesmo personagem que o stand-up dele vem afinando há três décadas. A digressão mundial Permission to Party, a corrida actual pelas arenas, abriu em Janeiro de 2026 em Huntsville, no Alabama, e tem vindo a somar datas nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa ao longo da Primavera. A Berty Boy Productions, a empresa que gere com a mulher LeeAnn Kreischer — anfitriã do podcast Wife of the Party —, é dona do festival Fully Loaded Comedy Festival e produz os especiais em casa. O 2 Bears, 1 Cave, podcast a dois com Tom Segura, continua a ser um dos maiores do formato.

Kreischer casou com LeeAnn em 2003. As duas filhas, Georgia e Ila, cresceram dentro do espectáculo — personagens dos números, ocasionalmente em palco com ele, cada vez mais dentro do negócio à medida que a empresa se foi tornando produtora. A fronteira entre o homem e o personagem dissolveu-se quase por completo, e é em parte por isso que o público acredita nele.

Free Bert regressa a Atlanta este ano para gravar a segunda temporada. Permission to Party chega à Europa no Outono. Kreischer conta a história russa há mais tempo do que a maioria dos humoristas em actividade pisa um palco. A aposta — que o personagem envelheceria melhor do que parecia de fora — vingou, por agora. Nada na agenda imediata sugere o contrário.

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