Actores

Colin Farrell, o galã que decidiu não ser galã

Como a sobriedade, a paternidade e um regresso às raízes transformaram uma das estrelas mais fascinantes do cinema, culminando num reinado premiado como o Pinguim de Gotham.
Penelope H. Fritz

Hollywood passou a primeira metade dos anos 2000 a tentar transformar o ator irlandês na próxima grande estrela, e por pouco não o partiu nessa tentativa. A carreira que tem hoje — ator de eleição de Martin McDonagh, presença constante em Yorgos Lanthimos, protagonista de Edward Berger, Pinguim com Globo de Ouro — é o que reconstruiu depois de a primeira versão se ter desfeito.

O mais útil que se pode saber sobre Colin Farrell é que deixou de tentar ser Colin Farrell algures por volta de 2008. Hollywood tinha passado seis anos a montar-lhe uma reclame — a perseguição de Spielberg, a cabina de Schumacher, a Macedónia de Oliver Stone, a Miami de Michael Mann — e a reclame não chegava a aguentar. O sotaque irlandês escapava por debaixo dos americanos emprestados. As superproduções ficavam aquém da bilheteira. Quando terminou as filmagens de Miami Vice estava, segundo viria a contar, tão deteriorado pelo álcool e pelas drogas que mal se lembrava de ter rodado o filme. Foi então que McDonagh lhe escreveu o papel de um pistoleiro principiante consumido pela culpa e exilado em Bruges, e o ator que vivia por baixo do galã finalmente pôde falar.

Vinha de uma família de futebol em Castleknock, no extremo oeste de Dublin. O pai, Eamon, jogou no Shamrock Rovers; também o tio tinha sido futebolista profissional. Durante algum tempo tudo apontava para o mesmo caminho: guarda-redes do Castleknock Celtic, a sonhar com o relvado em vez do palco. Não foi por aí. Fez audição para os Boyzone, não entrou, deslizou para a representação, inscreveu-se na Gaiety School of Acting de Dublin e abandonou antes de se licenciar quando a BBC lhe ofereceu um cachet fixo em Ballykissangel. Tim Roth escalou-o para The War Zone, e poucos meses depois Joel Schumacher levava-o para a Luisiana com um sotaque texano emprestado para Tigerland.

O que se seguiu foram cinco anos de corrida no posto de galã. Steven Spielberg pô-lo a perseguir Tom Cruise em Relatório Minoritário. Schumacher fechou-o numa cabina contra a voz invisível de Kiefer Sutherland em A Cabine. Deu réplica a Al Pacino num gabinete da CIA. Foi Bullseye em Demolidor, Jesse James em American Outlaws, o papel-título em Alexandre, o Grande. Estava na capa de qualquer revista que fizesse capas. Bebia e consumia cada vez mais. A imprensa americana esmagou Alexandre, o Grande. Miami Vice, em 2006, marcou a ruptura: uma produção de Michael Mann da qual disse não se lembrar de ter feito. Entrou em desintoxicação no dia em que as rodagens acabaram.

A versão de Farrell que ficou começa no ano seguinte. Na Cidade dos Bárbaros, o argumento de McDonagh que recusou inicialmente por medo de prejudicar ainda mais a sua imagem, deu-lhe o primeiro Globo de Ouro e apresentou outro ator: mais solto, mais cómico, capaz de segurar luto e palhaçada na mesma cena. A partir daí a carreira deixou de tentar ser uma carreira. Trabalhou duas vezes com Yorgos Lanthimos — em A Lagosta e A Morte de um Cervo Sagrado — entregando-se a um registo plano e vazio que nenhum protagonista de Hollywood assinaria. Aceitou o pequeno mas decisivo papel de um empresário imobiliário alcoólico em As Viúvas, de Steve McQueen. E desapareceu por completo sob próteses para uma aparição memorável de Pinguim sem CGI em The Batman, de Matt Reeves.

É tentador ler a última década como um arco de redenção limpo — fora o miúdo problemático, dentro o ator sério —, mas a obra desfaz essa limpeza. Farrell não abandonou o papel de galã: subverteu-o por dentro. O Pinguim dele é uma figura principal enterrada sob trinta quilos de látex. O Pádraic dele em Os Espíritos de Inisherin é o ator com mais carisma do plano a interpretar um homem a quem estão a explicar, devagar, que ele é maçador. O Lord Doyle dele em A Balada de um Pequeno Jogador é uma interpretação de protagonista sustentada inteiramente em assistir a um homem encantador a desfazer-se. A regra não é “Farrell deixou de ser uma estrela”. É: “Farrell usa o estrelato como matéria-prima contra a qual um ator de composição trabalha”. Isso é mais raro do que a história de redenção, e mais difícil.

Colin Farrell
Colin Farrell in The Penguin (2024)

O ponto mais alto deste método chegou em 2022 e 2024. O reencontro com McDonagh e Brendan Gleeson em Os Espíritos de Inisherin valeu-lhe a Copa Volpi no Festival de Veneza e um segundo Globo de Ouro; depois veio a nomeação para o Óscar. Dois anos mais tarde, a minissérie The Penguin da HBO permitiu-lhe sustentar a transformação prostética ao longo de uma temporada inteira, e as cerimónias trataram o resultado como uma grande interpretação, não como um truque: outro Globo de Ouro, um SAG, uma nomeação para os Emmy. Quando Edward Berger o escalou em 2025 como um jogador em fuga pelos casinos de Macau em A Balada de um Pequeno Jogador, para a Netflix, já era questão fechada: um ator, não uma estrela.

É pai de dois filhos. Ao mais velho, James, foi diagnosticada a síndrome de Angelman, uma doença neurogenética rara; Farrell fala disso publicamente há anos, apoia as organizações que trabalham na patologia e é embaixador dos Special Olympics. Está sóbrio desde 2006 e nunca o escondeu. Não voltou a casar.

O próximo capítulo já está assinado. Volta a vestir o látex do Pinguim diante do Bruce Wayne de Robert Pattinson em The Batman Part II, de Matt Reeves, cujas rodagens arrancam em maio de 2026, e retoma o detetive John Sugar na segunda temporada da série Apple TV+. Luca Guadagnino entregou-lhe a voz do protagonista de um projeto animado da DC, Sgt. Rock. Fernando Meirelles acaba de o incorporar, ao lado de Ralph Fiennes e Wagner Moura, na adaptação ao cinema de Art, a peça de Yasmina Reza premiada com o Tony. O ator que decidiu não ser galã continua a ser chamado para fazer de galã.

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