Música

Madonna e Sabrina Carpenter abrem Confessions II com um sample de Detroit house

O primeiro single do primeiro álbum de Madonna em sete anos chega em dueto com Sabrina Carpenter e cita explicitamente Good Life, dos Inner City. Stuart Price regressa como produtor principal, ao lado de Arca e dos Parisi.
Alice Lange

Madonna e Sabrina Carpenter editaram Bring Your Love a 30 de Abril, primeiro single do décimo quarto álbum de estúdio de Madonna, Confessions on a Dance Floor II, com lançamento marcado para 3 de Julho pela Warner Records. É o primeiro álbum de Madonna desde Madame X (2019), e o maior intervalo entre dois álbuns de estúdio de toda a sua carreira. A escolha da parceira de dueto é a decisão mais legível da estratégia: Sabrina Carpenter é hoje uma das maiores estrelas pop do mundo, depois de um ciclo 2025 que a transformou em cabeça de cartaz de estádios. Cruzar a artista pop mais discutida do momento com a arquitecta do estrelato pop moderno não é um gesto subtil. Também não é inédito — Madonna já tinha feito esta calibração antes, com Britney Spears em 2003 e com Nicki Minaj em 2012 —, mas raramente a simetria foi tão limpa.

A canção samplea Good Life, de Kevin Saunderson, gravada sob o nome Inner City em 1988 e uma das faixas fundadoras da primeira vaga da techno de Detroit. Samplear Saunderson não é um gesto genérico de nostalgia dance. É uma citação histórica concreta, que coloca o disco dentro da linhagem house Detroit-Chicago da qual o primeiro Confessions on a Dance Floor (2005) já bebia explicitamente. O sample aparece no refrão, em loop sob o hook vocal de Carpenter, e Saunderson é creditado como co-autor. Se a citação será lida como homenagem ou como uma estrela veterana a pagar por uma marca de credibilidade depende de como soará o resto do disco — e isso ainda não foi ouvido.

Stuart Price está de regresso

Stuart Price produziu o Confessions on a Dance Floor original e regressa como produtor principal desta sequela, ao lado de Arca e do duo italiano Parisi. A dupla Price-Madonna em 2005 deu o álbum comercialmente mais bem-sucedido de toda a carreira pós-anos 1990 de Madonna, e um dos poucos discos pop mainstream tardios a envelhecer no sentido do reconhecimento crítico. A decisão de o convocar de novo em vez de constituir uma equipa sonora nova é o movimento mais conservador do lançamento e o que mais activa a leitura nostálgica. A presença de Arca complica essa leitura. A produtora venezuelana é uma das figuras mais singulares da electrónica contemporânea e a sua intervenção introduz uma textura a que o disco de 2005 não tinha acesso. Os gémeos Parisi trazem house italiano contemporâneo, um registo em que Madonna nunca tinha trabalhado.

O original de 2005 vendeu cerca de 12 milhões de cópias e mantém-se, segundo boa parte da crítica, o melhor disco da fase pré-streaming de Madonna. O seu desempenho comercial foi sustentado por Hung Up — o single com sample dos ABBA que se tornou o maior êxito internacional de Madonna desde os anos 1990. Bring Your Love está a ser posicionado para ocupar essa mesma função, com o sample de Saunderson a desempenhar o papel de citação histórica que coube ao sample dos ABBA em 2005. Se irá consegui-lo ou não dependerá do comportamento das rádios nas próximas quatro a seis semanas.

A passagem de testemunho em Coachella que não houve

Sabrina Carpenter actuou no Coachella 2026 no fim-de-semana anterior à edição do single. Madonna não subiu ao palco com ela. As duas partilharam, sim, um momento nos bastidores que circulou amplamente, e a alegada passagem de testemunho geracional — Madonna a reconhecer explicitamente Carpenter como uma espécie de herdeira — faz parte da arquitectura promocional do single. A leitura é incompleta. Madonna reconheceu dezenas de estrelas pop mais jovens ao longo dos últimos quinze anos: o gesto é um modo madonneano, não uma coroação. A trajectória de Carpenter é apenas dela. Mas a imagética do lançamento — o dueto, a capa, as trocas nas redes sociais — não deixa dúvidas quanto à geração pop que Madonna quer associada a Confessions II.

O cepticismo que vale a pena nomear

Desde 2008, os singles de abertura dos álbuns tardios de Madonna têm rendido sistematicamente acima dos discos que apresentaram. 4 Minutes com Justin Timberlake estreou forte, atingiu o pico e deu lugar a uma recepção de Hard Candy quanto muito morna. Living for Love, de Rebel Heart (2015), rendeu abaixo das expectativas. Medellín com Maluma levou Madame X a uma estreia em primeiro lugar na tabela de álbuns, mas com presença nos tops a esvaecer-se rapidamente. O rollout de Confessions II está mais bem armado do que qualquer um dos anteriores. Mas o problema estrutural da Madonna actual mantém-se: o ímpeto do single de apresentação não se traduz uniformemente no ciclo do álbum quando o público para os discos inteiros de Madonna encolheu e envelheceu. A presença de Sabrina Carpenter foi pensada precisamente para resolver essa equação. Se o público que chegou pelo dueto ficará para o que quer que seja o resto do álbum — com textura de Arca, inclinação house dos Parisi, sample de Detroit — é outra pergunta.

O álbum chega a 3 de Julho pela Warner Records. Um segundo single é esperado para finais de Maio ou inícios de Junho, antes da próxima inflexão promocional do ciclo.

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