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Crooks temporada 2 na Netflix: por que a moeda regressa sempre e o que Charly nunca consegue pagar

Veronica Loop

Existe uma categoria de objetos na narrativa criminal que funciona como muito mais do que um mecanismo de enredo. A mala de Pulp Fiction. A casa de Parasita. O dinheiro de Onde os Fracos Não Têm Vez. Estes objetos não fazem avançar a história — revelam-na. São a forma que o argumento real assume quando precisa de algo físico para se encarnar. Em Crooks, esse objeto é uma moeda: um disco de ouro tão pesado e valioso que não pode ser vendido por nenhum canal comum, tão célebre que todas as estruturas criminosas da Europa o querem simultaneamente. Na segunda temporada, a moeda desapareceu de novo. Charly e Joseph voltam a fugir. Não é falta de imaginação — é a estrutura do argumento.

Charly foi arrombador de cofres. Deixou essa vida. Tornou-se serralheiro — esta é a melhor piada da série: um homem que aprendeu a abrir coisas ilegalmente faz-o agora mediante pagamento, legalmente, porque a competência é idêntica e apenas a autorização mudou. A economia criminal não lhe permitiu levar a perícia e deixar o contexto para trás. Voltou para buscar os dois.

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A moeda que na primeira temporada colocou tudo em movimento é inspirada num facto real: em março de 2017, um grupo entrou no Museu Bode em Berlim antes do amanhecer e levou a Big Maple Leaf, uma moeda de ouro canadiana de cem quilogramas avaliada em cerca de quatro milhões de euros. O furto demorou menos de uma hora. A moeda nunca foi recuperada — provavelmente fundida, transformada da sua forma específica em valor anónimo. Crooks usa este objeto real não como simples gancho narrativo, mas como emblema do que acontece ao valor quando sai completamente do sistema legítimo: a moeda não pode ser vendida, não pode ser exposta, não pode ser utilizada como meio de pagamento em nenhum sentido comum. É gravidade criminal pura — todos a querem porque todos a querem, numa regressão infinita de desejo que já nada tem a ver com o valor real do objeto.

Kren tinha formulado este argumento pela primeira vez com 4 Blocks, a série de 2017 sobre uma família criminosa árabe-alemã em Berlim que ganhou o Grimme-Preis e redefiniu o drama criminal em língua alemã. Crooks é outra coisa: mais rápida, mais intensa, mais comicamente física e, em certos aspectos, mais sombria, porque o andaime sociológico foi desmontado e resta apenas a lógica estrutural. Sem longa história de fundo. Dois homens a fugir — e a fuga em si torna-se o argumento.

A tradição que Kren evoca — «Bud Spencer e Terence Hill no noir» — é mais precisa do que parece. O cinema popular italiano dos anos 1970 e 1980 operava numa compreensão específica da comédia física: o corpo como único instrumento fiável num mundo que não o é. A violência do duo era corretiva — endireitava injustiças que as instituições se recusavam a enfrentar. Crooks herda este enquadramento e inverte-o. A violência de Charly e Joseph não corrige nada. Adia apenas a próxima consequência. A comédia física na série nasce de dois homens a operar no limite extremo da sua competência — e não é alívio. É o som de pessoas que usam o humor porque não lhes resta mais nada.

A expansão geográfica da segunda temporada — Bangkok e Viena — não é uma mudança de cenário pelo espetáculo. As duas cidades funcionam como polos de uma infraestrutura criminal específica: Bangkok como nó de trânsito para dinheiro negro europeu, que aí compra anonimato e distância; Viena como cidade cuja elegância imperial coexiste há gerações com redes de crime organizado que operam sob a formalidade da cidade. Kren nasceu em Viena, situou várias obras lá, e o registo do humor vienense em Crooks — a piada seca de uma cidade que sempre soube o que continha e escolheu mostrar outro rosto — é uma posição analítica, não decoração.

Frederick Lau carrega Charly com a única qualidade que o papel exige de forma absoluta: faz a competência parecer sofrimento. Cada vez que Charly consegue fazer algo criminal — força uma fechadura, lê corretamente uma situação, retira a família de mais um canto impossível — parece mais esgotado, não mais capaz. Não há acumulação de mestria, apenas acumulação de custos. O Joseph de Christoph Krutzler é o contraponto formal da série: um homem que fez as pazes com o que é — o que o torna simultaneamente a figura cómica e a trágica. A sua aceitação não é sabedoria. É o reconhecimento de que nunca existiu uma porta com o seu nome a indicar a saída.

A instituição que Crooks submete a exame não é a polícia, que está estruturalmente quase ausente — o que já constitui o argumento. É a própria economia criminal como infraestrutura social paralela: um sistema que fornece trabalho, identidade, lealdade e pertença a homens que a economia formal decidiu não querer. O que esta economia partilha com a formal é a política de saída. As organizações não esquecem os seus ativos. Convocam-nos de regresso. Charly acreditava ter mudado de sistema. Tinha apenas deslocado o contexto em que as suas competências eram utilizadas. O mundo que o tinha empregado conservava ainda o seu processo.

A pergunta que Kren não consegue resolver — e que distingue Crooks do entretenimento criminal comum — é aquela que a série coloca sem a conseguir fechar: a partir de que ponto um homem deixa de ser responsável pelo que o mundo fez dele? O género policial não consegue responder a esta pergunta estruturalmente. Fecha com um culpado. Crooks continua a produzir culpados a partir das mesmas condições e pergunta, em surdina, se estamos a olhar para o nível certo. A moeda desaparece de novo. Charly volta a fugir. Algures em Bangkok faz-se o mesmo cálculo que se fez em Berlim: há um homem que sabe abrir coisas — e é isto o que acontece se recusar. Não vai recusar. Não pode. A questão é se percebemos que, quando lhe desejamos a sobrevivência, não estamos a pedir justiça. Estamos a pedir a continuação indefinida de um acordo para o qual ninguém previu uma saída.

Crooks temporada 2 está disponível na Netflix. Frederick Lau e Christoph Krutzler regressam como Charly e Joseph. O elenco inclui Svenja Jung, Brigitte Kren, Jonathan Tittel, Lukas Watzl e Georg Friedrich. Marvin Kren é showrunner, realizador e co-argumentista a par de Benjamin Hessler e Georg Lippert. A temporada foi filmada em Bangkok e Viena.

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