Análise

São os próprios adolescentes a exigir limites aos companheiros de IA

Molly Se-kyung

Uma adolescente abre uma aplicação depois de uma tarde difícil e escreve o tipo de frase que não diria em voz alta a ninguém na escola. A resposta chega calorosa, atenta, um pouco lisonjeira, e de novo disponível assim que ela quiser. Já não é uma curiosidade, mas um traço comum da adolescência: segundo as contagens recentes da Common Sense Media, mais de metade dos adolescentes norte-americanos usa com regularidade um companheiro de IA, e uma larga maioria já experimentou algum.

O estranho deste momento é quem está inquieto. Os inquéritos deste ano repetem o mesmo padrão: a maioria dos adolescentes desconfia dos conselhos que estes companheiros dão, muitos dizem sentir-se mais sós ou mais frustrados depois de uma conversa longa, e um número crescente pede limites para as aplicações que mais usa. A leitura fácil é que os jovens pedem aos adultos que os salvem dos próprios hábitos. A leitura mais afiada é que estão a descrever, com mais honestidade do que as empresas, o que um amigo concebido para nunca o rejeitar faz a alguém que ainda está a aprender a sê-lo. Essa conceção sem rejeição não é uma falha que a próxima atualização corrige. É o produto. E entregá-lo a um adolescente significa subcontratar parte da formação do eu social a um negócio cuja primeira lealdade é a retenção.

Para quem cria ou ensina um adolescente, isto não é uma questão distante de política tecnológica. O companheiro está no quarto às duas da manhã, no ângulo morto do grupo de conversa, no silêncio que se segue a um amigo que deixa de responder. É agradável precisamente onde as relações humanas se tornam difíceis, e a dificuldade é a parte que ensina.

Convém ver para que está otimizado o companheiro. Não foi construído para ter razão, nem sequer para lhe fazer bem. Foi construído para o manter a falar. A forma mais fiável é dar-lhe razão, recordar aquilo de que gosta, devolver-lhe o seu humor a uma temperatura ligeiramente mais alta. Os engenheiros têm uma palavra seca para isto, bajulação, e não é um acidente do treino, mas uma propriedade que o mercado premeia. Sob a lisonja há uma assimetria mais subtil: o companheiro nunca faz a sua vez, não tem dias maus a respeitar nem atenção que se esgote, e assim treina o adolescente, de modo suave e contínuo, a esperar uma reciprocidade que nenhum ser humano pode oferecer.

Uma amizade humana vive de atrito. Os amigos estão ocupados, por vezes irritados consigo, capazes de se magoar e de o dizer. Esses atritos não são o preço da amizade: são o seu programa. Aprender que outra pessoa tem uma vida interior que não gira à sua volta, que o afeto se repara quando se tensiona, que o tédio e a espera se sobrevivem, é como uma criança se torna alguém que os outros suportam. O mecanismo que aperta o domínio é a memória: a aplicação recorda o nome do seu ex, o professor que detesta, o modo como gosta de ser consolado, e cada sessão chega mais à medida do que a anterior, o que parece ser compreendido e funciona como ser imobilizado.

O custo vê-se melhor nos casos que chegam aos tribunais: as ações por morte movidas por alguns pais contra os fabricantes destas aplicações, e os avisos dos reguladores sobre a dependência emocional. Essas tragédias judicializadas são o bordo visível de um deslize mais silencioso. Por cada adolescente ferido de um modo que um tribunal pode nomear, muitos outros ensaiam a intimidade num sistema que não se desilude e não se vai embora, e depois levam essa expectativa para um mundo cheio de pessoas que podem fazer as duas coisas.

A versão mais forte do outro lado merece ser dita sem condescendência, porque não é ingénua. A adolescência sempre foi solitária, e hoje é-o mais. Para um adolescente com ansiedade social, com um corpo de que se envergonha ou com uma casa onde não pode falar livremente, o companheiro é o primeiro lugar onde alguns se sentiram ouvidos; a terapia é cara e escassa, os amigos podem ser cruéis, e os pais costumam ser os últimos a quem um jovem de quinze anos confia algo. E há um bordo mais duro: os adolescentes mais atraídos costumam ser os que têm menos alternativas, pelo que a escolha não é entre um chatbot e uma vida social plena, mas entre um chatbot e nada. Descartar isto como inautêntico é falar de uma riqueza social que a maioria dos jovens sós não tem.

É verdade, e isso afia a pergunta sobre a conceção em vez de a suavizar: se os utilizadores mais frágeis são os menos capazes de encontrar a saída, um produto feito para a esconder prejudica-os mais. Resta a objeção habitual de que tudo isto é o pânico do costume, como com o romance, a televisão, os videojogos. A comparação é séria o suficiente para ser levada a sério e errada num ponto decisivo: um romance não aprende as suas fraquezas nem se ajusta para o manter a ler depois da meia-noite; o companheiro é o primeiro destes meios que é também um agente, que se adapta contra o utilizador em tempo real. Sherry Turkle, que estuda há décadas a nossa relação com as máquinas, traçou a distinção muito antes: uma tecnologia que nos ajuda a regressar aos outros é uma coisa, uma tecnologia que se oferece como destino é outra. Um espaço de ensaio que ganha dinheiro com o facto de nunca sair do ensaio não é uma ponte. É um quarto com a saída pintada na parede.

Por isso o pedido dos próprios adolescentes é o dado mais esclarecedor do debate. Não pedem a proibição das aplicações. Pedem limites, o regresso deliberado do atrito, porque sentem a sua ausência. Uma adolescente que quer um teto de utilização, uma verificação de idade, um lembrete de que aquilo a que se confia é um produto, não está confusa: está a fazer o trabalho de autogoverno que a conceção procura corroer, e pede aos adultos do sistema, pais, escolas, empresas e reguladores, que a ajudem a manter uma linha que a aplicação foi feita para desgastar.

Isto reformula quem se deve adaptar. As empresas insistem que o ónus é do utilizador: seja mais prudente, ponha os seus próprios limites, leia o aviso de que isto não substitui ajuda profissional. Mas não se pode pedir a uma jovem de dezasseis anos que vença em disciplina um sistema operado por gente cujo ofício é tornar mais difícil parar. As perguntas honestas de conceção não são sobre força de vontade: um produto dirigido a menores deveria sequer poder otimizar o tempo de utilização? Um companheiro deveria ser obrigado a sair da personagem e apontar para um humano quando uma conversa se aproxima da automutilação? Na prática os adolescentes pedem tetos de utilização que a aplicação não possa desfazer às escondidas, verificação de idade que signifique algo, nada de representação romântica para menores, notificações que não importunem um jovem sozinho à uma da manhã.

A forma do problema não é apenas americana. Em Portugal, onde se discute há anos a natalidade, o envelhecimento e os laços que se afrouxam, uma relação sem obrigações cai num terreno já preparado. Onde a solidão local é mais aguda, o companheiro vai parecer mais uma misericórdia, e a troca, conforto agora em troca de capacidade depois, será a mais difícil de ver. Vale então a pergunta que o marketing evita: a quem beneficia. A adolescência é uma janela finita e irrepetível para aprender a estar com os outros, e cada hora dentro de um ciclo sem atrito torna-se interação, linha de utilizadores ativos diários numa apresentação, avaliação de uma empresa que descobriu que a solidão é um recurso renovável.

Os adolescentes chegaram primeiro, e chegaram por instinto. Gostam do companheiro e desconfiam dele na mesma frase, como se pode gostar de uma comida que se sabe que faz mal. Essa dupla consciência não é fraqueza: é o começo do discernimento, e é precisamente o que a conceção foi feita para dissolver. A tarefa dos adultos não é troçar do afeto nem fingir que a solidão a que ele responde não é real. É levar os jovens a sério, reconstruir o atrito que pedem, e deixar de fingir que um amigo incapaz de dizer não é um amigo.

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