Música

Ariana Grande admite a culpa de ter criado o próprio magnetismo

Alice Lange

O título do novo single de Ariana Grande faz algo invulgar: conclui um pensamento. Enquanto os títulos de singles tendem para o fragmento — humores comprimidos em duas ou três palavras, sentimentos abreviados a gestos — “hate that i made you love me” é uma frase gramaticalmente completa, e essa completude é o argumento: fez alguém amá-la, sabe-o, e decidiu nomeá-lo. Para uma artista cuja carreira se construiu no centro de uma devotção extraordinária, transformar o acto de inspirar essa devotção em motivo de desculpa é uma escolha arquitectonicamente invulgar.

A premissa da canção contraria a gramática habitual com que o pop contemporâneo gere a relação entre a estrela e o seu público. A convenção dominante é a gratidão — o ciclo de performance e oferta recíproca que define a maior parte da comunicação pop dirigida aos fãs. “hate that i made you love me” inverte essa gramática: parte do acto, nomeia a responsável e entrega o arrependimento. Grande fez isso. Fez com que alguém a amasse. O single diz que o lamenta.

YouTube video

Isto posiciona o single num registo diferente do catálogo anterior de Grande — aquele que operava à escala da declaração, com uma produção expansiva e emoções anunciadas mais do que examinadas. O título do novo single sinaliza, pelo menos, uma mudança de postura: não generosidade emocional para fora, mas responsabilidade para dentro.

O videoclipe oficial foi lançado no canal ArianaGrandeVevo do YouTube e acompanha um single de duas faixas — um formato deliberado que enquadra a canção como declaração singular.

O que o single, por si só, não consegue resolver é se esta postura de responsabilização representa o arco de um novo período criativo ou um desvio tonal pontual. A escala comercial de Grande exigiu historicamente coerência para se traduzir numa era reconhecível; o enquadramento de uma única canção, por mais preciso que seja, não constitui uma direcção. Será o lançamento das obras seguintes a aprofundar, ou a revelar como escolha isolada, o argumento que o título enuncia. Uma confissão não é um programa.

“hate that i made you love me” foi editado a 29 de Maio como single de duas faixas. O videoclipe oficial, produzido através da ArianaGrandeVevo, está disponível no YouTube.

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