Desporto

David Beckham, o homem que a Inglaterra humilhou e por fim armou cavaleiro

Penelope H. Fritz

Nos meses que se seguiram ao Mundial de França de 1998, o que menos se esperava em Inglaterra era que David Beckham viesse a tornar-se Sir David Beckham. O país havia queimado efígies suas à porta de pubs. Deputados denunciaram-no na televisão. A imprensa sensacionalista conduziu durante semanas uma campanha que tinha pouco a ver com análise futebolística e muito com a necessidade colectiva de encontrar um culpado. Tinha dado um pontapé a Diego Simeone — que caiu com a teatralidade que quem viu o vídeo conhece bem — e o cartão vermelho que se seguiu custou a Inglaterra o jogo frente à Argentina nos penáltis. Tinha vinte e três anos.

Beckham reconheceu o erro. Afirmou anos depois estar na fase mais sombria da sua vida. O que aconteceu a seguir é a parte da história que continua a ser subestimada.

Cresceu em Leytonstone, no leste de Londres, filho de um canalizador e de uma cabeleireira, ambos adeptos fervorosos do Manchester United. O seu pai Ted adorava o clube ao ponto de dar ao filho o segundo nome Robert, em homenagem à lenda do United Bobby Charlton. Aos onze anos assinou pela academia do United. No início dos anos noventa treinava com Ryan Giggs, Gary Neville e Paul Scholes — o grupo que ganharia a FA Youth Cup em 1992 e ficaria para a história como a Classe de 92.

A carreira que emergiu dessa academia assentava na qualidade de entrega da bola. Não apenas as livres — embora sejam essas que a memória cultural retém: o golo desde o meio-campo contra o Wimbledon em 1996, o remate contra a Grécia em outubro de 2001 que qualificou Inglaterra para o Mundial de 2002 —. Os cruzamentos, as bolas paradas, o passe com o pé direito que fechava as jogadas: era nisso que Ferguson confiava em seis campanhas da Premier League. Beckham disputou 265 jogos na Premier League, marcando 62 golos. Estava na final da Liga dos Campeões de 1999 contra o Bayern de Munique, onde os seus dois cantos produziram os dois golos no prolongamento que entregaram o Triplete.

A saída do United em 2003 é a charneira da sua história. Ferguson vendeu-o ao Real Madrid por 25 milhões de libras após uma ruptura cujo episódio mais visível foi uma bota projectada que atingiu Beckham acima do olho no balneário. No Bernabéu, rodeado de Zidane, Ronaldo, Roberto Carlos e Figo, ganhou La Liga na última época. A transferência para o LA Galaxy em Janeiro de 2007 foi tratada pela imprensa inglesa como uma viagem de despedida.

Essa leitura ignorava a estrutura do acordo. Enterrada no contrato da MLS havia uma cláusula que dava a Beckham o direito de adquirir uma franquia de expansão por 25 milhões de dólares. Exerceu-a. O Inter Miami CF entrou na MLS em 2020. Após contratar Lionel Messi em 2023, o clube ganhou o Supporters’ Shield em 2024 e a MLS Cup em 2025. O Inter Miami vale hoje 1,4 mil milhões de dólares. O Nu Stadium no Miami Freedom Park abriu em 2026.

Ferguson, no documentário da Netflix Beckham de 2023, afirmou: «Nunca esteve entre os nossos um ou dois melhores jogadores. Nunca.» A declaração pretendia ser uma clarificação histórica. Ficou como a entrada mais recente numa longa série de avaliações que não resistiram ao tempo. Beckham é o único jogador inglês a ter conquistado títulos de campeonato em quatro países diferentes: Inglaterra, Espanha, França e Estados Unidos.

A distinção de cavaleiro chegou em Novembro de 2025. As Birthday Honours do rei Carlos III citaram os serviços prestados ao desporto e à caridade; a sua embaixada junto da UNICEF está activa desde 2005. A IM8, empresa de saúde e longevidade que co-fundou com cientistas da Mayo Clinic, projecta receitas entre 180 e 200 milhões de dólares para 2026. A Rich List do Sunday Times de 2026 estimou o património conjunto de Beckham e Victoria — casados em 4 de Julho de 1999, quatro filhos: Brooklyn, Romeo, Cruz e Harper — em 1,185 mil milhões de libras. Os primeiros desportistas britânicos a cruzar o limiar do milhar de milhões.

O documentário da Netflix — Beckham, quatro episódios, realizado por Fisher Stevens, estreado em Outubro de 2023 — recebeu cinco nomeações para os Emmy. Cobriu tudo: o cartão vermelho, as efígies, a bota e o que se seguiu. O que se seguiu é onde estava a verdadeira história.

Discussão

Existem 0 comentários.