Tecnologia

Decisão do Supremo Tribunal dos EUA sobre dados em massa ameaça 113.000 câmaras policiais

Adrian Kessler

As câmaras policiais nos Estados Unidos fotografam todas as matrículas que passam, 24 horas por dia, registando os movimentos de milhões de condutores que não são suspeitos de nada. Uma decisão do Supremo Tribunal sobre uma tecnologia diferente — os dados de localização de telemóveis — acaba de dar aos advogados o argumento legal para contestar todas elas.

A Flock Safety é o principal interveniente neste mercado. Mais de 113.000 leitores automáticos de matrículas operam em todo o país; a maioria provém da Flock, com a Axon e a Motorola Solutions a cobrir grande parte do restante. Em centenas de cidades, estas câmaras registam todos os carros que passam e guardam os dados em bases de dados pesquisáveis que as autoridades policiais podem consultar por matrícula, marca ou localização. A Flock Safety descreve o sistema como uma rede de segurança comunitária. Os críticos descrevem-no como uma infraestrutura de vigilância em massa.

A decisão Chatrie do Supremo Tribunal invalidou uma tática policial chamada mandado de geofence — exigir a empresas como a Google os dados de localização de todos os telemóveis numa área geográfica definida num momento específico, sem nomear nenhum suspeito. O Tribunal decidiu, por 6-3, que isto constitui uma busca em rede de pessoas inocentes de qualquer crime, violando a Quarta Emenda. O princípio legal é estrutural: o governo não pode recolher dados de localização de todos os que estavam num determinado local, sem individualizar primeiro a sua suspeita.

Os especialistas dizem que a mesma questão estrutural se aplica aos leitores automáticos de matrículas. Sempre que um carro passa por uma câmara da Flock, a matrícula é registada — quer o condutor esteja sob investigação ou simplesmente a fazer o seu trajeto. A escala reflete a de um geofence: recolha em massa de dados de movimentação de pessoas inocentes, sem suspeita individualizada, retidos para consulta posterior. O argumento atualmente em circulação jurídica é que, se o governo não pode fazer isto digitalmente com um telemóvel, também não o poderá fazer fisicamente com uma câmara montada num poste.

A Flock Safety tem a sua própria posição jurídica. A empresa citou uma decisão separada de um tribunal federal no início deste ano que afirmava que os leitores automáticos de matrículas são constitucionais — uma decisão anterior a Chatrie. A decisão do Supremo Tribunal abordou dados de localização digital armazenados na nuvem, não câmaras que captam imagens em espaço público, e a distinção pode ter relevância jurídica. As câmaras da Flock fotografam veículos em vias públicas onde não existe expectativa de privacidade, um princípio da Quarta Emenda há muito estabelecido que complica a aplicação direta de Chatrie.

As oitenta e duas jurisdições que cancelaram contratos de ALPR ou removeram câmaras fizeram-no nas semanas que se seguiram à decisão Chatrie. Outras estão à espera que os tribunais testem a lógica da decisão diretamente contra os dados dos leitores de matrículas. Esse litígio está em curso mas ainda não resolvido. O caso Chatrie foi decidido no final de junho; os tribunais que aplicarem a sua lógica aos ALPR levarão meses a anos a percorrer o sistema. O que a decisão fez imediatamente foi alterar o panorama jurídico: o argumento que agora existe no precedente do Supremo Tribunal não existia antes.

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