Documentários

«The Root Of The Game» na Netflix mostra a várzea de São Paulo onde se forja o carácter muito antes de surgir um olheiro

A série documental de Alec Cutter segue a Super Copa Pioneer, a competição amadora onde o Brasil molda o temperamento que as suas estrelas levam para fora
Jack T. Taylor

O campo é de terra, por vezes de lama, e devolve os golpes. Um ressalto mau estraga uma jogada que um relvado cuidado teria premiado, e na várzea de São Paulo o jogador aprende cedo que a superfície nada lhe deve. É a primeira coisa que «The Root Of The Game» acerta: não trata o futebol amador como um prólogo simpático do verdadeiro. Trata a terra como a prova.

Sob a premissa de dois futebolistas célebres que regressam a casa, a série procura algo mais difícil do que a nostalgia. A várzea não é onde se descobre talento; é onde se forma o temperamento. Descobrir é palavra de observador e acontece depois, num gabinete, sobre um jogador já feito. Na terra nasce o resto: a entrada aguentada sem pestanejar, o penálti assumido diante de cinquenta pessoas e do orgulho do bairro. A raiz que o título nomeia não é um drible. É o sangue-frio que sobrevive à subida quando a técnica é apenas o bilhete de entrada.

YouTube video

Alec Cutter ergue a série sobre uma competição, e não sobre uma memória, e só essa escolha sustenta toda a tese. A Super Copa Pioneer, o maior torneio amador de São Paulo, decorre com princípio, meio e fim. Equipas de bairro disputam um título que não enriquece ninguém, mas decide, durante um ano, em quem a zona acredita. Como há algo em jogo, um penálti falhado por um homem a quem nenhum clube europeu telefonará pesa tanto como o de uma estrela. A estrutura diz o que as entrevistas não precisam de dizer: os protagonistas são os amadores.

A câmara sabe-o. Fica baixa e perto, dentro das substituições, das discussões e da chuva, e recusa cortar para um rosto famoso sempre que a intensidade desce. Quando Cafu e Raphinha surgem, chegam como quem regressa, não como narradores. Cafu, capitão campeão do mundo, fala destes campos como um pugilista de um velho ginásio: com um respeito onde há algum receio. Não são o tema. Certificam uma ideia que a série prefere provar com desconhecidos: a periferia produz futebolistas porque produz gente que já esteve sob pressão.

Uma sequência resume todo o argumento. Um defesa, com lama até às canelas, vê uma bola longa cair por cima do ombro com o avançado já lançado; não se atira nem se precipita, toma o meio segundo que o piso não garante e alivia limpo num terreno onde o ressalto podia ir para qualquer lado. Nenhum comentário o sublinha, nenhum grafismo o nomeia. Na televisão seria um corte de rotina; aqui, onde cada gesto comum é uma aposta, explica porque uns sobrevivem ao salto e outros, mais dotados, não.

A estreia cai num ano de Mundial, ao lado dos outros títulos brasileiros da Netflix, num país que exporta mais talento de elite do que qualquer outro e quase não conserva as condições que o produzem. A várzea encolhe. O terreno vende-se. Campos livres há décadas cedem a tudo o que uma cidade em crescimento quer fazer do solo. Um documentário sobre a raiz revela-se, sem levantar a voz, um documentário sobre o que sucede quando a raiz é asfaltada.

O que a série não resolve, e é suficientemente honesta para não o tentar, é a dívida. Um miúdo deixa a terra, assina, vence, e o lugar que o formou fica com um mural e uma memória. Cafu e Raphinha podem voltar um fim de semana com uma câmara; a estrutura que os fez não sai com eles. Fica a pergunta a que o troféu nunca responde: o que deve o jogo ao solo de onde cresce?

«The Root Of The Game», realizada por Alec Cutter e produzida pela Ginga Pictures com a R21, é uma série documental que estreia na Netflix a 20 de junho. Ambientada na Super Copa Pioneer de São Paulo, reúne Cafu e Raphinha ao lado dos jogadores e treinadores amadores do torneio. O áudio original é em português do Brasil.

Etiquetas: , , , , ,

Discussão

Existem 0 comentários.