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23 000 Lives na Netflix: a tripulação que salvou milhares e foi parar a tribunal

Martha Lucas

Uns amigos em Berlim olharam para a contagem de afogados no Mediterrâneo e recusaram-se a guardá-la como uma emergência alheia. Não eram marinheiros, nem advogados, nem profissionais de ajuda humanitária. Tinham uma folha de cálculo, uma página de financiamento coletivo e a convicção teimosa de que um desconhecido a afundar-se ao largo da costa líbia era um problema seu, pessoal. O improvável não é terem conseguido comprar um barco e usá-lo. O improvável é o que o próprio continente decidiu fazer com eles a seguir.

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23 000 Lives, o novo filme da Netflix realizado por Markus Goller, parte dessa contradição e recusa-se a suavizá-la. É um drama baseado em factos reais, não um documentário, e assenta na história da Jugend Rettet, a organização alemã que juntou pequenos donativos, comprou um velho arrastão, batizou-o de Iuventa e o levou ao Mediterrâneo central para tirar da água quem viajava em embarcações que nunca deveriam ter cruzado o mar aberto. O número do título é a contagem mantida pela tripulação. A questão por baixo é o que faz um Estado quando cidadãos começam a fazer o resgate que os governos decidiram, em silêncio, não fazer.

A primeira parte tem a energia meio eufórica de quem não acredita que o plano resulta: discussões por dinheiro, enjoo, a euforia concreta de amadores que veem o seu barco em segunda mão manter o rumo. Goller deixa esse otimismo respirar, e faz bem, porque o espectador precisa de gostar destas pessoas antes de descobrir o que custa acreditar numa ideia. Os resgates, quando chegam, não são filmados como triunfo, mas como trabalho: extenuante, repetitivo, físico. As pessoas são contadas, embrulhadas em mantas térmicas, recebem água.

Depois o registo muda e o filme revela a estrutura que escondia. As autoridades atuam sobre o barco. É apreendido. Abrem-se investigações. O mesmo diário de bordo mantido por rigor torna-se um documento lido por procuradores; a mesma coordenação por rádio que salvou vidas é relida como prova de algo ilícito. Goller e o argumentista Oliver Ziegenbalg, que escreveu com Michele Cinque, fazem a escolha mais afiada: deixam que essa inversão de leitura faça o dano, sem discurso de tribunal a explicá-lo. Os factos não mudam. Muda apenas quem decide o que significam.

Louis Hofmann sustenta o elenco como o crente cuja certeza é, ao mesmo tempo, motor e fraqueza, e o papel pede-lhe um idealismo que envelhece em tempo real. À sua volta, Mala Emde e Maria Dragus trazem o atrito, duas intérpretes que deixam a dúvida viver por baixo do diálogo e não por cima. Katharina Stark e Frederick Lau completam uma tripulação tratada como grupo de trabalho e não como fila de símbolos. É talento do cinema de autor alemão — os rostos de Dark, de A Fita Branca, de E Amanhã o Mundo Inteiro — ao serviço de uma pergunta que o país ainda discute.

O que o filme toca é concreto e continua por resolver. A Iuventa real foi apreendida pelas autoridades italianas, e pessoas do mundo do resgate passaram anos sob a ameaça de serem processadas por favorecimento da imigração ilegal. A pergunta nunca foi se os resgates aconteceram, mas se quem os realizou deveria responder por eles perante um juiz. O filme encena o choque entre duas ideias de lei: a escrita nos códigos e a que uma pessoa sente no corpo quando outra se afunda a um braço de distância.

23 000 Lives
23,000 LIVES, Flute Film GmbH, NETFLIX, 2024

Quando os resgates terminam e o barco fica num porto de onde não pode sair, o que é que afinal se resolveu? Vinte e três mil pessoas estão vivas; a tripulação que as salvou tem de se explicar. 23 000 Lives não fecha essa distância, e é lúcido o suficiente para saber que a distância é o tema: quem a Europa decidiu ser nos anos em que viu a própria consciência ser levada a julgamento.

23 000 Lives estreia-se na secção Spotlight do Festival de Munique antes de chegar a todo o mundo na Netflix a 17 de julho de 2026. Markus Goller realiza a partir de um argumento de Oliver Ziegenbalg, com Louis Hofmann, Mala Emde, Katharina Stark, Frederick Lau e Maria Dragus a encabeçar o elenco.

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