Críticas

Will: Um Olhar Cru e Sem Concessões na Vida Fora da Rede

Alice Lange
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A primeira cena de “Will”, dirigida por Elizabeth Miyaji, fixa-se em Masahiro Higashide enquanto escala uma encosta rochosa, a respiração ofegante, os movimentos precisos. Não há banda sonora a sublinhar o momento, apenas o estalido da gravilha sob os pés e o chamar distante de um pássaro. É assim que Miyaji nos apresenta o seu protagonista: não com declarações grandiosas ou paisagens deslumbrantes, mas com uma atenção íntima, quase claustrofóbica, à sobrevivência. O filme, que acompanha Higashide enquanto vive isolado nas montanhas remotas do Japão, interessa-se menos pelo espetáculo e mais pela luta silenciosa e implacável da existência reduzida ao essencial.

A direção de Miyaji caracteriza-se por uma contenção que define o tom e o ritmo do filme. Ela rejeita as técnicas documentais tradicionais — nenhuma entrevista com cabeças falantes, nenhum comentário em voz off — em favor de uma cinematografia imersiva e observacional. A câmara acompanha Higashide enquanto caça, recolhe alimentos e constrói abrigo, capturando a fisicalidade do seu trabalho com uma precisão clínica que beira o poético. Uma sequência notável mostra-o a esfolar um animal, as mãos firmes apesar do sangue e das vísceras que lhe cobrem os dedos. Não há hesitação perante a sujidade da sobrevivência; Miyaji obriga-nos a confrontar a realidade visceral das escolhas de Higashide.

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A banda sonora reforça esta abordagem imersiva. A natureza está cheia de sons — o farfalhar das folhas, o borbulhar de um riacho, o estalar de um ramo partido —, mas Miyaji não os utiliza para manipular as nossas emoções. Em vez disso, deixa-os existir como parte do ambiente, permitindo-nos experienciar o mundo tal como Higashide: através dos cinco sentidos. A ausência de uma banda sonora tradicional é notável; os únicos momentos musicais vêm de sons ambientais, como o zumbido distante de um veículo a passar ou o vento a assobiar entre as árvores.

O desempenho de Higashide é o eixo central do filme. Conhecido por interpretações subtis em dramas como “Confissões” (Kokuhaku) e “O Sangue dos Lobos”, traz a este papel uma profundidade que transcende a simples representação metodológica. A sua fisicalidade é impressionante — cada movimento, cada expressão, parece autêntico, mesmo quando deve ter sido meticulosamente planeado. Há uma cena em que Higashide se senta junto a uma fogueira, o rosto iluminado pelas chamas tremeluzentes, e o cansaço gravado nas suas feições diz tudo sobre o preço da sua solidão.

A estrutura do filme é deliberadamente episódica, com cada segmento a focar-se num aspeto diferente da rotina de sobrevivência de Higashide. Esta abordagem permite a Miyaji explorar temas como solidão, autossuficiência e a necessidade humana de conexão sem recorrer a simbolismo pesado ou explicações. No entanto, esta escolha estrutural leva também a alguns problemas de ritmo. A duração do filme pode parecer irregular, com longos períodos de silêncio pontuados por breves momentos de ação ou diálogo. Embora isto espelhe a monotonia da vida quotidiana de Higashide, pode testar a paciência dos espectadores habituados a narrativas mais dinâmicas.

Uma das sequências mais envolventes ocorre quando Higashide encontra outra pessoa — um sobrevivencialista chamado Tatsuya Mori. A sua interação é breve, mas carregada de tensão não dita e respeito mútuo. A cena sublinha um dos temas centrais do filme: a natureza paradoxal da conexão humana no isolamento. Mesmo enquanto Higashide busca solidão, há uma saudade inegável de companhia que surge nestes encontros fugazes.

“Will” não é um filme para todos. O seu realismo cru e o ritmo deliberado tornam-no uma experiência desafiante, mesmo para fãs de documentários sobre sobrevivência. Falta-lhe os floreados cinematográficos de filmes como “O Renascido”, que utiliza paisagens grandiosas e banda sonora dramática para intensificar a tensão narrativa. Em vez disso, a abordagem de Miyaji assemelha-se mais a um estudo minimalista de personagem, evocando obras como “Na Natureza Selvagem” ou “Ato de Coragem”. A força do filme reside na sua autenticidade, mas é precisamente esta qualidade que pode alienar espectadores em busca de uma experiência cinematográfica mais convencional.

As interpretações são outro destaque. Embora Higashide seja indiscutivelmente o ponto forte do filme, Mori oferece um desempenho memorável como o estranho enigmático. A sua dinâmica acrescenta uma camada de complexidade à narrativa, levantando questões sobre a natureza da confiança e os limites entre solidão e comunidade.

Tematicamente, “Will” explora a tensão entre liberdade e restrição. A escolha de Higashide de viver fora da rede é simultaneamente uma afirmação de autonomia e uma forma de prisão autoimposta. O filme não oferece respostas fáceis ou lições moralizantes; em vez disso, convida-nos a refletir sobre o nosso próprio relacionamento com a natureza, a tecnologia e o mundo moderno.

Em termos de género, “Will” situa-se entre o documentário e a arte cinematográfica. Não é um guia tradicional de sobrevivência nem uma exposição sobre a vida fora da rede; antes, é uma exploração profundamente pessoal da jornada de um homem. Isto faz dele uma entrada única no género, embora o seu apelo de nicho possa limitar o seu impacto mais alargado.

No fundo, “Will” é um filme que exige paciência e introspeção. Recompensa os espectadores dispostos a envolver-se com o seu ritmo meditativo e realismo cru, mas pode frustrar aqueles que procuram estruturas narrativas ou recompensas emocionais mais tradicionais.

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