Críticas

Dia da Redenção: Gary Dourdan num thriller militar que fica aquém do seu potencial

Martha Lucas

Dia da Redenção começa com um soldado que regressou, mas ainda não chegou. Brad Paxton — Gary Dourdan, económico e fisicamente convincente — transporta a guerra como memória corporal que o espírito não consegue resolver sozinho. Hicham Hajji, realizador franco-marroquino, pega num thriller de resgate e coloca-lhe uma questão mais precisa: o que resta de um homem treinado para obedecer quando as ordens se tornam o obstáculo?

O argumento — de Sam Chouia, Lemore Syvan e do próprio Hajji — estabelece os termos com eficiência: Kate Paxton (Serinda Swan), arqueóloga a trabalhar perto de Argel, é raptada por militantes. O embaixador Williams (Andy Garcia, conferindo autoridade a um papel pouco desenvolvido pelo texto) transmite a proibição: nenhuma operação oficial será possível. Paxton avança na mesma.

Filmado em Marrocos, o filme beneficia de exteriores que não precisam de artifícios: a paisagem árida funciona como argumento visual e Hajji usa-a sem a embelezar. O problema está na construção dramática interior — o contexto argelino, com a sua história colonial e as tensões regionais, é aflorado e depois abandonado.

O que os actores constroem

Dourdan, conhecido em Portugal principalmente por CSI: Crime Scene Investigation, revela aqui uma dimensão que o formato policial raramente lhe pediu. O seu trabalho físico é preciso; o silêncio nas cenas mais interiores sinaliza um actor que conhece a diferença entre conter e anular uma emoção. Ernie Hudson ancora as poucas cenas domésticas. Martin Donovan apresenta a sua ambiguidade habitual num papel secundário eficaz.

Andy Garcia é o elemento mais subaproveitado do filme. É suficientemente bom para tornar essa carência sensível — o esboço de um filme mais ambicioso atravessa brevemente as suas cenas e desaparece. Samy Naceri e Soumaya Akaaboune ficam funcionais sem se tornarem argumento real.

Um filme honesto sobre os seus limites

Dia da Redenção cumpre o contrato do género: mantém o ritmo, não desperdiça os seus cem minutos, e Gary Dourdan é o centro que sustenta o conjunto. O que não cumpre é a promessa implícita no ponto de partida. Um realizador com sensibilidade marroquino-europeia, exteriores norte-africanos autênticos e um elenco que inclui Andy Garcia mereciam um argumento mais corajoso.

Realização: Hicham Hajji. Elenco: Gary Dourdan, Serinda Swan, Andy Garcia, Ernie Hudson. Duração: 100 min.

Realização

Hicham Hajji
Photo via The Movie Database (TMDB)

Hicham Hajji

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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