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«Elize: Sombras de uma Mulher» é baseado numa história verdadeira? O caso Matsunaga, explicado

Molly Se-kyung

Toda a dramatização de true crime chega com o final já conhecido. O público sabe o veredito antes dos créditos iniciais, por isso a única suspense que um filme como este pode criar é interior: não o que aconteceu, mas porquê. É essa a aposta de Elize: Sombras de uma Mulher, que transforma um dos casos mais dissecados do Brasil num estudo sobre um casamento em vez de uma reconstituição de um crime.

Então, é baseado numa história real? Totalmente. O filme dramatiza o homicídio de Marcos Kitano Matsunaga, herdeiro da fortuna alimentar Yoki, pela sua mulher Elize — um caso que saturou a televisão e os tabloides brasileiros e nunca saiu totalmente da memória nacional. A marca Yoki está nas cozinhas de todo o país, o que explica em parte porque é que um horror privado se tornou uma obsessão pública: os nomes são reais, o esboço é real e as linhas gerais seguem de perto o registo público.

O que realmente aconteceu é mais sombrio do que qualquer sinopse. Elize vinha de uma infância pobre e abusiva no Paraná e trabalhava como acompanhante executiva em São Paulo quando conheceu Marcos e, eventualmente, se casou com ele. O casamento proporcionou-lhe uma ascensão social dramática, e degradou-se de forma igualmente dramática — a infidelidade dele, o controlo financeiro e a ameaça de ficar com a custódia da filha pequena. Em maio de 2012, durante uma discussão, Elize disparou contra a cabeça de Marcos, desmembrou o corpo no apartamento e conduziu os restos mortais em malas até uma berma de estrada rural.

Ela confessou assim que o corpo foi encontrado. Condenada por homicídio doloso e ocultação de cadáver, foi sentenciada a quase duas décadas, viu a pena reduzida em recurso e obteve liberdade condicional em 2022, depois de cumprir cerca de dez anos. Os procuradores classificaram o crime como um assassinato calculado por dinheiro; a defesa argumentou que se tratava de uma mulher levada ao limite — a mesma ambiguidade que o novo filme se recusa deliberadamente a resolver.

Não é a primeira vez que a Netflix explora o caso. A série documental de 2021 Elize Matsunaga: Once Upon a Crime construiu o seu relato em torno das entrevistas de Elize na prisão. O filme faz o oposto de um procedimental: realizado por Felipe Vellas e escrito por Raphael Montes — um dos mais conhecidos romancistas de crime do Brasil — e Mariana Torres para a Boutique Filmes, entrega a história a Lorena Comparato ao longo de 93 minutos tensos que, como a nossa cobertura do filme referiu, entram no apartamento em vez do tribunal.

O resultado é um retrato que pede aos espectadores que se sentem dentro de um casamento que já sabem que termina com um corpo espalhado ao longo de uma autoestrada. A verdadeira Elize Matsunaga está livre desde 2022 — o que significa que a reconstituição mais íntima da sua pior noite está agora em streaming enquanto ela está algures no mundo, a ver, ou a recusar-se a ver.

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