Série

Doce Amor — a série da Netflix em que só um dos dois sabe que a relação é uma mentira

Camille Lefèvre
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Go Eun-sae, uma procuradora de topo, acorda num hospital rural sem se lembrar do próprio nome. A primeira pessoa que vê debruça-se sobre a cama para lhe dizer que é o homem que ela ama. Chama-se Jang Tae-ha — um ex-boxeur que acabou na órbita de uma gang — e tem razões para a manter longe da cidade. Sem memória que o contradiga e sem outro sítio para ir, ela entra na vida dele e deixa a afirmação de pé.

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O recurso da relação falsa é um dos mais gastos do K-drama, mas Doce Amor remove o elemento que normalmente o faz funcionar: o consentimento mútuo. Na versão clássica, ambos partilham a ficção e a comicidade nasce de sustentar o papel perante os outros. Aqui o engano segue apenas numa direção. Eun-sae não está a fingir — confia plenamente. A cozinha partilhada, a roupa emprestada, os limites negociados entre dois estranhos funcionam como comédia à superfície e como problema moral por baixo, porque a pessoa enganada age com total sinceridade.

Esta assimetria é o motor da série. O espectador fica exatamente onde Tae-ha se encontra — de posse de algo que a protagonista não tem —, e cada cena terna chega ensombrecida por isso. Escrita por Mo Ji-hye e realizada por Kim Jang-han, responsável por My Demon e Do You Like Brahms?, a série trata o seu enredo policial e o seu romance como um único mecanismo. Heo Sung-tae interpreta o chefe da organização criminosa Baek Sang-gil, e a sua presença é a razão pela qual uma procuradora não perde a memória por acidente numa história como esta.

Jung Hae-in construiu a sua reputação com os protagonistas feridos e facilmente credíveis de Something in the Rain e One Spring Night — o namorado em quem certo tipo de drama ensina o público a acreditar de imediato. Colocá-lo no papel de alguém que mente a uma mulher sem defesas transforma esse capital de confiança em material dramático. Ha Young tem a tarefa mais difícil: construir uma identidade no ecrã em tempo real, sem o atalho de hábitos consolidados ou memórias, mantendo-se suficientemente perspicaz para ser credível como ex-procuradora e suficientemente aberta para se ter apaixonado por um homem cujos motivos não consegue ler.

Por baixo do cortejo corre uma pergunta mais silenciosa: quanto de uma pessoa é memória e quanto é o papel que a comunidade lhe atribui. Despojada das suas credenciais, processos e cargo, Go Eun-sae é, pela primeira vez, alguém cujo valor não é medido em condenações. A aldeia rural isola-os tempo suficiente para que a relação inventada comece a tornar-se real antes de a verdade os alcançar — e é aí que a série deixa a sua verdadeira pergunta em aberto.

Doce Amor estreou na Netflix a 7 de agosto de 2026, com doze episódios de aproximadamente uma hora disponíveis de uma só vez. Ao lado de Jung Hae-in e Ha Young, o elenco inclui Jeon Bae-soo e Seo Jeong-yeon em papéis secundários.

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