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Maridos em Ação na Netflix põe o ex-marido e o marido atual a salvar a mesma mulher

Veronica Loop

Um detetive da brigada de narcóticos que entregou o casamento ao trabalho consegue por fim algemar o traficante mais escorregadio do país. O triunfo dura o tempo de o telefone tocar. A mulher de quem foi marido foi raptada, e o único que o pode ajudar a trazê-la de volta é o homem com quem ela casou a seguir.

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É este o motor de Maridos em Ação, e a montagem é de uma crueldade precisa. Choong-sik passou anos atrás de traficantes e perdeu uma família pelo caminho. Min-seok, um veterinário sereno, herdou essa família: a ex-mulher, Si-nae, e uma enteada que Choong-sik continua a considerar sua. Quando uma organização criminosa leva Si-nae, os dois homens são obrigados à única coisa que não conseguem há anos: chegar a acordo sobre o que ela precisa e avançar na mesma direção.

O rapto é apenas o pretexto. O que o filme põe verdadeiramente em cena é uma conversa que o cinema comercial coreano raramente transforma em comédia: o que um ex-marido ainda deve e o que o novo assumiu de facto. Cada perseguição e cada luta são também uma discussão sobre quem conhece melhor Si-nae, quem tem o direito de recear por ela e quem vai ser o salvador. A ação é a superfície; a negociação que corre por baixo é a verdadeira piada.

O realizador Park Gyu-tae sabe erguer uma máquina de bilheteira sobre uma premissa absurda. O seu filme anterior transformou um único bilhete de lotaria que atravessou a fronteira numa das comédias mais vistas do país, e o método passa intacto para este: pegar numa premissa que o espectador resume numa frase, reunir atores capazes de jogar a intensidade e o ridículo ao mesmo tempo, e subir de tom sem nunca largar o fio.

Essa disciplina nota-se primeiro no elenco. Jin Seon-kyu e Gong Myung como os dois maridos reúnem a dupla de uma celebrada comédia de polícias infiltrados, e a cumplicidade que já têm lê-se no ecrã como anos de ressentimento entre estranhos. Jin enche Choong-sik daquela entrega tensa e meio desequilibrada que fez dele um dos atores de carácter mais fiáveis da Coreia; Gong, mais leve, dá corpo a um Min-seok decente a quem a decência nunca chega para sair dos sarilhos. A Si-nae de Kang Han-na não é um troféu a reconquistar, mas o centro à volta do qual ambos gravitam. Kim Ji-seok é o chefe da nova organização que dominou o mercado com tecnologia de ponta; Lee Da-hee, a sua mulher Hye-ran, a verdadeira estratega do negócio; Yoon Kyung-ho, outro chefe que luta para recuperar o seu território.

A premissa resulta porque a forma de família que tem por baixo é das mais comuns. Famílias recompostas, guarda partilhada, um ex que nunca sai por completo do plano: é a textura de boa parte da vida familiar coreana de hoje, e costuma ser despachada como melodrama. Maridos em Ação vira-a em farsa, e a farsa é aqui o registo mais difícil e mais honesto, porque admite o que o melodrama esconde: dois homens a querer o mesmo desfecho para a mesma mulher são, ao mesmo tempo, comoventes e ridículos.

Husbands in Action - Netflix
Husbands in Action / Yoon Kyung-ho as Yong-gang in Husbands in Action Cr. Cho Wonjin/Netflix © 2026

Para a Netflix, a conta é conhecida. A comédia de ação coreana viaja: faz rir com o corpo, as suas piadas sobrevivem mesmo quando a tradução as gasta, e chega a um público mundial treinado por uma década de êxitos do género. Lançá-la em todo o mundo ao mesmo tempo, em vez de passar primeiro pelas salas, é apostar que a premissa é o seu próprio trailer.

Maridos em Ação estreia na Netflix a 19 de junho de 2026, dura 107 minutos e é realizado por Park Gyu-tae, com Jin Seon-kyu, Gong Myung, Kim Ji-seok, Kang Han-na, Lee Da-hee e Yoon Kyung-ho. O resgate tem uma meta clara: trazer Si-nae de volta. A verdadeira pergunta do filme não se fecha com a mesma limpeza. Volte o que voltar, fica por decidir de quem é ela agora, e a comédia carrega precisamente nessa fenda até à última cena.

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