Críticas

Não Vá é um drama de rutura sincero que faz a pergunta certa e responde com demasiada timidez

O romance turco de Ozan Açıktan (2022) assenta por inteiro na interpretação contida de Burak Deniz.
Martha O'Hara
Adicione-nos no Google

Semih é um homem a quem a namorada, de um dia para o outro, tira o chão debaixo dos pés. Não Vá (Don’t Leave, no título internacional), realizado por Ozan Açıktan, parte de uma situação que quase toda a gente já viveu ou temeu viver: a relação acaba sem aviso e quem fica só tem perguntas. É um drama romântico produzido para a Netflix, estreado em 2022, que prefere a conversa à catástrofe.

O filme vive de Burak Deniz. Semih está presente em praticamente todas as cenas, e o ator carrega sozinho o peso emocional de uma história que nunca levanta a voz. Deniz escolhe um registo contido, e a escolha faz sentido num filme que desconfia dos gritos. Nem sempre funciona. Quando o argumento pede mais, a interpretação parece pesar mais do que a história justifica, e a contenção que a sustentava deixa de soar a contenção e passa a soar a falta de matéria.

YouTube video

A estrutura é simples, quase a de um inquérito. Semih procura respostas sobre o que correu mal e, pelo caminho, é obrigado a olhar para aquilo que durante muito tempo preferiu ignorar. É aqui que o filme se torna mais interessante, porque a pergunta sobre a outra pessoa acaba por apontar para ele próprio. O que andou a evitar ver? A sinopse promete esse acerto de contas, e o filme tenta cumpri-lo com resultados desiguais.

Açıktan filma o quotidiano sem pressa e sem vontade de impressionar. O andamento é moderado, a narrativa não se impõe ao espectador, e há nisso uma certa honestidade: a de quem se contenta em observar. Essa discrição tem dois lados. Quem procura uma meditação serena sobre o fim de uma relação encontra-a. Quem espera que a tensão suba, cena a cena, fica diante de um traçado quase plano.

A previsibilidade instala-se cedo. Percebe-se depressa o caminho que Semih vai percorrer, e as tentativas de criar drama perdem força contra um ritmo que nunca acelera. O problema não é a lentidão, porque os dramas contemplativos têm os seus méritos. Falta descoberta. As cenas rodam à volta da mesma ferida sem a abrir mais.

O elenco secundário ajuda, mas não chega para compensar. Dilan Çiçek Deniz interpreta Defne e Berrak Tüzünataç interpreta Beril, e esta última traz uma naturalidade que escasseia noutros momentos. Ceyda Düvenci, Şükran Ovalı, Ersin Arıcı e Dolunay Soysert completam o círculo que rodeia o protagonista. Como o filme nos mantém quase sempre ao lado de Semih, as outras personagens aparecem sobretudo em função dele, e o que se adivinha nelas fica por explorar. É pena, porque um desgosto amoroso raramente se resolve só no interior de uma cabeça: precisa de outras vozes que o contrariem.

A receção foi dividida. A Decider destacou o trabalho de Deniz, que tem de segurar praticamente todas as cenas, e é difícil discordar. Outros elogiaram o retrato de uma separação aparentemente abrupta e sem fecho, em que o porquê demora a chegar e talvez nunca chegue por inteiro. Recusar as respostas fáceis é uma opção defensável, mas deixa o espectador com a sensação de ter esperado por algo que não veio.

O tema central, a busca de explicações depois de uma rutura repentina, fica a meio caminho porque o argumento não investe o suficiente na vida comum do casal. Dizer que havia algo para ver é diferente de o mostrar. Sem esse passado concreto, a dor de Semih é-nos descrita mais do que partilhada, e custa comover-nos com uma perda cujo contorno mal conhecemos. Os diálogos funcionam melhor quando deixam as personagens simplesmente falar e pior quando tentam fabricar emoção onde as palavras falham.

Há, ainda assim, um mérito que convém sublinhar: o filme não trata o abandono como espetáculo. Não há vilões nem grandes cenas de confronto, e o desconforto vem da aceitação lenta de que algumas relações terminam sem explicação satisfatória. É um gesto adulto, mesmo quando a realização hesita em aprofundá-lo.

No fim, Não Vá fica a dever mais do que entrega. Com um argumento mais exigente, ou uma realização mais disposta a incomodar, a pergunta que o move poderia ter deixado marca. Assim, vale pela presença de Deniz e pelo tom sóbrio, e pouco mais.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

Etiquetas: , , , , ,

Adicione-nos no Google

Discussão

Existem 0 comentários.