Música

Miley Cyrus e a artista que existia antes de a Disney a inventar

Penelope H. Fritz

Quando ‘Flowers’ partiu recordes de streaming em 2023 e lhe valeu os primeiros Grammy a 31 anos, os comentadores falaram de regresso. O que a carreira sugere é diferente: a musicista que convenceu o mundo em 2024 nunca tinha deixado de trabalhar — faltava apenas que alguém prestasse atenção.

O percurso de Miley Cyrus na indústria musical é, entre outras coisas, uma história sobre o tempo que as instituições levam a reconhecer o que já tinham diante dos olhos. Começou como uma propriedade da Disney. Tornou-se numa das artistas pop mais sérias da sua geração. Entre as duas versões existem vinte anos de álbuns que a maioria do público ouviu sem ouvir de verdade.

Nascida Destiny Hope Cyrus a 23 de novembro de 1992 em Franklin, Tennessee, filha do cantor de country Billy Ray Cyrus e da sua esposa Tish, cresceu numa quinta familiar nos arredores de Nashville. O apelido de infância «Smiley», contraído em Miley, acabaria por se tornar o seu nome legal em 2008. Aos nove anos tinha já uma pequena participação numa produção de Tim Burton. Aos onze anos audicionou para Hannah Montana perante um produtor que a considerou demasiado jovem e demasiado pequena para o papel principal. Ficou com o papel na mesma.

Hannah Montana estreou em 2006 no Disney Channel e foi um êxito imediato. A premissa da série era de uma eficácia narrativa quase mecânica: uma adolescente que leva uma vida normal enquanto, em segredo, é uma estrela da pop — identidade protegida apenas por uma peruca loira. A franchise vendeu dezenas de milhões de discos, gerou merchandising incalculável e impôs a Cyrus jornadas de doze horas quando ainda tinha treze anos. A série durou até 2011. A propriedade sobreviveu muito mais tempo.

O que se seguiu foi menos uma carreira do que uma negociação prolongada. Cada álbum rejeitava a persona anterior e propunha outra. Breakout (2008) e ‘Party in the U.S.A.’ (2009) suavizaram a transição enquanto o contrato com a Disney esfriava. Bangerz (2013) foi a ruptura mais audível: produção de hip-hop, o videoclipe de ‘Wrecking Ball’ a oscilar entre autoparodia e pathos autêntico, três vezes platina, nomeação aos Grammy. A atuação nos VMA de 2013 gerou mais cobertura moralista do que qualquer outro momento musical daquela década. Segundo a própria, era uma tentativa de ser percebida como artista adulta por um público decidido a ver apenas uma atriz-miúda a portar-se mal.

O argumento recorrente contra Miley Cyrus foi o da incoerência: demasiados giros estilísticos para constituir uma verdadeira biografia artística. O fio que atravessa Bangerz, Plastic Hearts (2020) e Something Beautiful (2025) não é, porém, o género — é o grau de controlo. Em cada etapa, afastou-se um pouco mais da imagem que outros construíram ao seu redor e aproximou-se um pouco mais de uma música em que ela própria tinha mão. Este processo era menos visível do que as mudanças de look, mas mais substancial.

Plastic Hearts, gravado em parte na sequência de um incêndio que destruiu a sua casa em Malibu e do fim do casamento com o ator Liam Hemsworth, obteve a atenção crítica mais séria da carreira até então, graças à colaboração com Joan Jett e Billy Idol. ‘Flowers’ (2023), o primeiro single de Endless Summer Vacation, partiu o recorde semanal de streams no Spotify. Na 66.ª edição dos Grammy, em fevereiro de 2024, ganhou o Disco do Ano e a Melhor Performance Pop a Solo — os seus dois primeiros prémios Grammy aos 31 anos.

Something Beautiful (2025), o seu nono álbum de estúdio, foi lançado com um filme conceptual que co-realizou. Descreveu-o como «uma tentativa de medicar uma cultura de algum modo doente através da música». Uma edição de luxo com Lindsey Buckingham, Mick Fleetwood e David Byrne saiu em setembro de 2025.

Em maio de 2026 recebeu a sua estrela na Hollywood Walk of Fame — a 2845.ª — na presença da mãe e do seu noivo, o baterista de rock Maxx Morando. Três semanas depois, o Attention Tour abriu no Dodger Stadium. A miúda que a Disney havia transformado em propriedade percorre agora estádios com música que nunca precisou de peruca nenhuma.

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