Música

Ben Howard: cinco álbuns de folk, o último dos quais não é bem folk

O músico de Devon construiu em quinze anos um dos públicos mais fiéis da música britânica. Quando dois ataques isquémicos transitórios lhe retiraram brevemente a fala, o que se seguiu não foi um disco de recuperação mas uma ruptura com a identidade que o tornara conhecido.
Penelope H. Fritz

Há uma tensão produtiva na carreira de Ben Howard que a etiqueta de cantautor folk britânico nunca chegou a resolver: à medida que a sua reputação se consolidava à volta de uma certa quietude pastoral, a sua música movia-se noutras direcções. Dois ataques isquémicos transitórios em março de 2022 tornaram essa tensão impossível de ignorar, tanto para o artista como para quem o tinha categorizado.

Howard nasceu em Richmond, no sudoeste de Londres, e mudou-se para Totnes, em Devon, com cerca de oito anos. Os pais ouviam John Martyn, Van Morrison, Joni Mitchell e Simon and Garfunkel; a cultura do surf da costa atlântica entrou rapidamente na sua formação. Começou a escrever canções aos onze anos, inscreveu-se num curso de jornalismo em Falmouth e abandonou-o aos seis meses, tendo já percebido que as respostas da comunidade de surf à sua música eram mais eloquentes do que qualquer plano de estudos.

Os primeiros EPs foram autopublicados — Games in the Dark, These Waters, Old Pine — vendidos em concertos no Devon. A Island Records assinou-o em 2011, uma editora que escolheu em parte pela sua história com artistas folk ingleses. O álbum de estreia Every Kingdom chegou ao quarto lugar das tabelas britânicas e foi certificado triplo platina. A esta carreira inicial seguiram-se dois BRIT Awards em 2013 e uma nomeação para o Mercury Prize. O sucesso trouxe-lhe uma identidade pública — o cantautor folk contemplativo do interior inglês — que passaria a década seguinte a contradizer discretamente.

I Forget Where We Were estreou em primeiro lugar no Reino Unido em 2014. Noonday Dream, em 2018, afastou-se mais do centro acústico. Collections from the Whiteout, produzido por Aaron Dessner ao longo de dezoito meses entre estúdios em Nova Iorque e Paris, chegou em 2021 com um som que devia tanto ao vocabulário de produção dos The National quanto à tradição folk do Devon. A crítica absorveu cada mudança no enquadramento anterior em vez de reconhecer a ruptura que efectivamente ocorria.

A questão central era esta: a etiqueta folk pastoral tendia a absorver tudo, incluindo o que claramente não lhe pertencia. A capacidade de Howard para criar uma forma específica de intimidade — a guitarra muito perto do ouvido, a voz ainda mais perto, a sensação de estar a ouvir algo privado — tornou-se o único filtro através do qual toda a sua obra era interpretada. O que isso revelava sobre os mecanismos da crítica musical dizia mais do que revelava sobre a sua trajectória real.

Is It?, gravado em dez dias num estúdio no sudoeste de França após os dois ataques isquémicos de março de 2022, é a ruptura mais clara. O álbum abre com uma caixa de ritmos, prossegue por sessões processadas em echoplex, flauta de Mick McGoldrick, violino de Raven Bush e beats sampleados. Os AIT tinham privado Howard temporariamente da capacidade de pensar com clareza e falar; o que regressou com essa capacidade não era o som anterior à crise, mas algo que havia atravessado a dificuldade e emergido ainda a questionar.

Pratica surf desde a infância — detalhe presente na sua biografia e em várias capas de álbuns. Casou-se com a empresária de moda Agatha Lintott em maio de 2025, depois de mais de uma década juntos. Deixou de fumar após os AIT. O silêncio do Devon — o surf, a distância de Londres, o Atlântico — mantém-se como pano de fundo e método de trabalho.

O décimo aniversário de I Forget Where We Were trouxe, em 2024, uma reedição de luxo com quatro faixas inéditas da época e uma digressão britânica esgotada que terminou no Eventim Apollo em Londres. Howard está em digressão até ao final de 2026, com datas no Reino Unido, na Europa e na América do Norte, incluindo o Shaky Knees Music Festival em Atlanta e o Sea.Hear.Now Festival em Asbury Park em setembro. A pergunta que Is It? coloca — três palavras que se recusam a fechar-se — continua sem resposta.

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