Ciência

Webb mediu um buraco negro de 13 mil milhões de anos — formou-se antes da sua própria galáxia

Peter Finch

O buraco negro na galáxia Abell2744-QSO1 tem uma massa de 50 milhões de sóis. A galáxia que o alberga contém o restante. Esse rácio contradiz todos os modelos que os astrónomos possuem: em qualquer galáxia observável hoje, o buraco negro central representa uma ínfima fracção da massa estelar total. Aqui, o buraco negro é dois terços de tudo.

Este desequilíbrio tem uma explicação precisa, e essa explicação subverte a forma como os astrónomos têm pensado sobre a coevolução entre galáxias e buracos negros. A equipa mediu a metalicidade da galáxia — a concentração de elementos mais pesados do que hidrogénio e hélio, produzidos pelas estrelas ao longo da sua vida — e encontrou-a abaixo de meio ponto percentual em relação à do Sol. Esse valor quasi nulo indica que muito poucas estrelas tinham vivido e terminado a sua existência nesta galáxia quando o Webb a observou. O buraco negro era já enorme numa galáxia que era, na sua essência, virgem e recém-formada.

O resultado foi tornado possível por uma técnica que o Webb permite utilizar pela primeira vez. Ao cartografar o movimento e a composição do gás em órbita nas proximidades do buraco negro — um plasma aquecido atraído para o interior a velocidades mensuráveis —, a equipa liderada por Roberto Maiolino, da Universidade de Cambridge, calculou a massa de forma directa, sem recorrer a aproximações teóricas. É a primeira medição directa da massa de qualquer buraco negro no primeiro milhar de milhões de anos da existência do universo.

O modelo cosmológico padrão sustenta que as galáxias e os seus buracos negros centrais crescem em conjunto ao longo de milhares de milhões de anos, alimentando-se mutuamente por fusões, fluxos de gás e ciclos de retroacção estelar. Abell2744-QSO1 rompe com esse esquema. A galáxia é primitiva demais e pequena demais em relação ao seu buraco negro para que os dois tenham evoluído em paralelo. Algo semeou este buraco negro muito cedo — possivelmente o colapso directo de uma enorme nuvem de gás primordial, ou um buraco negro nascido da primeira geração de estrelas gigantes — e a galáxia cresceu à sua volta posteriormente.

O resultado não é definitivo. Um único objecto a distância extrema, medido em condições observacionais excepcionais, não chega para reescrever a teoria da formação galáctica. A equipa de Cambridge assinala que a medição depende de pressupostos sobre a geometria do disco de gás que envolve o buraco negro, e que as observações do Webb não conseguem resolver completamente as escalas mais pequenas junto ao horizonte de eventos. São necessários objectos adicionais a distâncias semelhantes para confirmação independente.

Esses objectos estão a chegar. Os programas do Webb centrados em sobredensidades galácticas conhecidas como o enxame Abell2744 fornecerão a amostra necessária. A equipa de Maiolino está já a analisar candidatos adicionais no mesmo campo. O primeiro recenseamento directo de massas de buracos negros no primeiro milhar de milhões de anos após o Big Bang está agora em curso.

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