Série

Aníkúlápó: Rise of the Spectre — a profundidade mítica ensombrada por problemas de ritmo

Alice Lange
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A cena de abertura de Aníkúlápó: Rise of the Spectre compõe um quadro impressionante: Saro, com o rosto marcado pela determinação e pelo temor, encontra-se no limiar entre a vida e a morte, enquanto o mundo espectral cintila atrás de si. É uma imagem que promete um universo rico de mitos e mortalidade, mas a série depressa tropeça sob o peso da própria ambição.

A sequela de Kunle Afolayan do filme Anikulapo, de 2022, retoma a história onde o original a deixou: Saro (Kunle Remi) é agora um mensageiro da morte, encarregado de recuperar as almas que outrora ressuscitou. A premissa está cheia de potencial, ao cruzar o folclore africano com o drama existencial. Os melhores momentos da série surgem quando esta se apoia nas suas raízes míticas, em particular na representação do além — um espaço liminar onde as regras do mundo dos vivos não se aplicam. A cenografia é aqui particularmente sugestiva, com cenários dramáticos e trajes tradicionais africanos a conferir uma realidade palpável aos elementos sobrenaturais.

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A série aprofunda temas como a obrigação espiritual e a liminaridade, recorrendo à teoria da liminaridade de V.W. Turner para explorar a jornada de Saro entre a vida e a morte. Esta profundidade temática é um dos seus pontos fortes, oferecendo uma reflexão rica sobre questões culturais e existenciais que a distingue dos dramas mais convencionais.

No entanto, Aníkúlápó: Rise of the Spectre perde o rumo quando tenta abarcar demasiadas coisas ao mesmo tempo. O primeiro episódio dá continuidade ao piloto sem sobressaltos, mas, à medida que a série avança, surgem tramas a mais e subtramas pouco desenvolvidas, que diluem o foco narrativo. A jornada de Saro é cativante, mas o seu percurso fica muitas vezes em segundo plano com a introdução de novas personagens e de linhas narrativas laterais que parecem forçadas, em vez de orgânicas. A série também tem dificuldades com o ritmo: os momentos de tensão são quebrados por cenas que se arrastam sem um propósito claro.

As interpretações são irregulares. Kunle Remi, no papel de Saro, carrega o peso emocional da série; a sua composição de um homem oprimido pela culpa e pelo dever é subtil e envolvente. A expressividade física de Remi — os ombros curvados, o olhar desconfiado — transmite todo o peso da missão de Saro sem que seja preciso dizer muito. O regresso de Bimbo Ademoye como Arolake dá mais profundidade à história: a sua interpretação confere à personagem uma mistura de vulnerabilidade e determinação que faz dela uma contraparte cativante de Saro.

Já outras personagens, como as interpretadas por Sola Sobowale e Taiwo Hassan, parecem unidimensionais. O papel de Sobowale reduz-se a uma sucessão de explosões emocionais, em vez de dar forma a um percurso de personagem plenamente desenvolvido. Hassan também é pouco aproveitado, com o seu potencial desperdiçado em subtramas sem profundidade suficiente para se sustentarem. As personagens secundárias acabam muitas vezes por funcionar como peças ao serviço da trama, em vez de serem indivíduos plenamente construídos, o que enfraquece o impacto emocional da série.

É na música que Aníkúlápó: Rise of the Spectre mais se destaca. A voz sugestiva de Teledalase cria uma banda sonora cativante, que reforça os temas da resiliência e da descoberta de si. A música eleva cenas importantes, acrescentando uma ressonância emocional que por vezes falta à narrativa. Funciona como uma força orientadora, conduzindo o espectador pelos momentos de tensão e reflexão e unindo os diferentes elementos da história.

A série beneficia também da sua estética visual, que combina elementos tradicionais africanos com cenários dramáticos para criar um mundo visualmente marcante. Este cuidado com a cenografia ajuda a tornar palpáveis os elementos sobrenaturais, fazendo com que os aspetos míticos da história pareçam mais próximos e reconhecíveis.

A realização, porém, nem sempre é consistente. A visão de Afolayan é clara nos momentos mais fortes da série, mas há passagens em que o ritmo vacila e a narrativa perde o rumo. A série teria beneficiado de um foco mais apertado na jornada de Saro, permitindo que o seu percurso se desenvolvesse com maior naturalidade, sem a distração de subtramas pouco trabalhadas.

Em comparação com o filme original, Aníkúlápó: Rise of the Spectre desenvolve a base mítica do seu antecessor, mas não consegue escapar ao peso da própria ambição. A força do filme original residia numa narrativa concentrada e numa interpretação central cativante. Esta sequela expande esse universo, mas fá-lo à custa da coerência narrativa.

No fim de contas, Aníkúlápó: Rise of the Spectre é uma continuação imperfeita, mas intrigante, do filme original. Desenvolve a base mítica do seu antecessor, mas não consegue escapar ao peso da própria ambição. Os melhores momentos da série são também os mais míticos: quando mergulha na liminaridade da morte e no sobrenatural, sente-se verdadeiramente viva. Para quem aprecia o folclore africano e o drama existencial, há muito para descobrir, ainda que a execução nem sempre seja irrepreensível.

Esta série destina-se a espectadores que gostam de explorar em profundidade a mitologia cultural e estão dispostos a relevar algumas incoerências narrativas em nome da riqueza temática.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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