Série

‘Chumbado’ da Netflix: quem vê a escola francesa é um criminoso

Martha Lucas

Um pequeno criminoso entra numa escola pública francesa, com identidade falsa, para dar aulas de matemática. Tem três semanas e uma missão: identificar, entre os alunos, o filho de um chefe do crime escondido na turma. Ao fim de poucos dias, o infiltrado está a ler aquela sala de aula melhor do que qualquer professor efectivo — e é nesse desvio que ‘Chumbado’, a nova comédia francesa da Netflix, deixa de ser apenas uma premissa engraçada e se torna outra coisa.

A premissa é directa. Eddy é um criminoso de pequeno calibre com uma mente matemática notável. Para evitar a prisão, aceita um acordo com a polícia — três semanas infiltrado como professor numa escola no norte de França, com o objectivo de identificar o filho de um mafioso escondido na turma.

Tem cérebro para resolver equações. Mas a sala de professores, a reunião de encarregados de educação, o adolescente do fundo da sala que percebe logo na primeira aula que aquele homem não é professor a sério — tudo isso escapa ao seu dom matemático. É desse descompasso que nasce a comédia. E, ao longo dos oito episódios, a série vai deixando claro o que nenhum curso de formação transmite: ser professor tem menos que ver com dominar a matéria e mais com suportar uma sala.

A fórmula de Uzan, aplicada a uma instituição que já não funciona

‘Chumbado’ é a quarta vez que François Uzan constrói uma série em torno de uma única ideia estrutural: um cérebro que não pertence à instituição por onde circula. Em Lupin, era o ladrão profissional dentro da memória aristocrática de França. Em HPI, a empregada de limpeza com um QI acima do comum dentro de uma brigada de homicídios. Em En Place, o educador social que decide candidatar-se à presidência da República.

Agora, em ‘Chumbado’, é um criminoso dentro de um sistema educativo que, segundo os próprios relatórios do governo francês, já não funciona como devia. Nas três séries anteriores, a instituição funcionava e o cérebro no lugar errado era o motor da comédia. Em ‘Chumbado’, pela primeira vez, é a instituição que está partida. E é essa diferença que leva a nova série a um território em que nenhuma das anteriores de Uzan tinha entrado.

A decisão criativa que sustenta tudo é invulgar numa comédia. A sala de aula é filmada em chave de realismo; a parte da infiltração, em chave de humor. Os dois registos partilham o mesmo plano, por vezes a mesma fala, e é no atrito entre ambos que a série acontece.

Antes de escrever, Uzan infiltrou-se ele próprio numa escola secundária francesa — passou semanas ao lado de professores reais — e declarou publicamente que a sua maior preocupação foi garantir que os professores no ecrã fossem reconhecíveis pelos professores da vida real. Durante esse apuramento, percebeu aquilo de que os docentes mais falam entre si: orçamento, greves, dificuldades com os alunos e, nas suas próprias palavras, “sobretudo, os pais”. Esta agenda nunca é anunciada pela série. Ela limita-se a construir a comédia sobre estes alicerces e confia que o espectador irá reconhecê-los.

Não é Paris — e isso, na televisão francesa, faz toda a diferença

A rodagem foi deliberadamente retirada de Paris e deslocada para Roubaix e Lille, no norte de França. A televisão francesa continua a mostrar, por defeito, uma sala de aula parisiense de classe média — ‘Chumbado’ recusa esse cenário. A escola que aparece no ecrã é uma escola pública do norte, com um clima próprio, um sotaque próprio e uma composição social própria.

A França de 2026 não atravessa um debate filosófico sobre educação — atravessa um debate muito concreto. Vagas de professor por preencher. Docentes jovens a pedir a saída do ensino nos primeiros cinco anos após a licenciatura. Greves sucessivas por causa do orçamento, a sombra longa do assassinato de Samuel Paty que alterou em definitivo o clima dentro das salas de professores, e — nas palavras de Uzan — os encarregados de educação, que se tornaram a frente mais difícil da profissão.

Uma comédia sobre um professor falso não é, por regra, o espaço onde esta conversa se faz. Talvez seja por isso que, em ‘Chumbado’, se faz. E é esta a pergunta que a série levanta sem responder: se o retrato mais honesto de uma sala de aula francesa, hoje, é aquele em que quem vê com mais clareza é um criminoso a fingir-se professor, onde foram parar os professores que tinham essa clareza — e a vocação? A série não indica como regressariam, nem sequer se é possível regressarem. Limita-se a deixar correr a comédia e confiar que o espectador há-de reparar em quem falta no plano.

A piada, no fim, não é sobre o criminoso. Funciona apenas porque a sala de professores está mais vazia do que devia estar. E toda a gente dentro do plano, incluindo o professor falso, sabe disso.


‘Chumbado’ (título original em francês: Recalé) é uma série original Netflix criada por François Uzan e produzida pela Itinéraire Productions — a mesma produtora responsável por HPI, o fenómeno da TF1. A minissérie tem oito episódios de cerca de 30 minutos cada, em francês. O papel principal é de Alexandre Kominek, acompanhado por Laurence Arné, Leslie Medina, Joséphine de Meaux, Bérangère McNeese, Yannik Landrein, Jean-Claude Muaka, Sabrina Ouazani, Fred Testot, Gustave Kervern e Mathilde Seigner. A estreia mundial decorreu no festival Séries Mania, em Lille, a 27 de Março de 2026, e a estreia global na Netflix está marcada para 23 de Abril de 2026.

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