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O Mapa dos Desejos na Netflix: o jogo que Lucy deixa para Greta atravessar o luto

Molly Se-kyung

Greta diz que nasceu para salvar a irmã. Não é maneira de falar. Foi concebida como dadora compatível, um corpo pensado para que as suas células mantivessem Lucy viva perante a leucemia. Durante quase toda a vida foi essa a tarefa inteira, e desempenhou-a bem. Depois Lucy morre à mesma, e Greta fica com um eu que só existiu em função da sobrevivência de outra.

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O Mapa dos Desejos é uma minissérie espanhola a partir do romance best-seller de Alice Kellen, e chega à Netflix com a roupa de um primeiro amor: uma jovem de luto, um desconhecido reservado, um verão que a reorganiza. O disfarce não é mentira, mas não é o quadro todo. Sob o romance está uma pergunta mais fria. Para que serve uma pessoa quando já não existe aquela para quem foi feita? Antes de morrer, Lucy responde com um jogo. Deixa a Greta um mapa, uma sequência de pistas e pequenas missões que a tiram do quarto de hospital e a empurram para lugares onde nunca teria ido sozinha.

Esse mapa é o dispositivo central da série, e o mais engenhoso. No ecrã, o luto costuma parar a narrativa: uma personagem senta-se num quarto às escuras e a trama espera que melhore. Aqui o luto é o motor. Cada missão de Lucy é uma instrução de uma morta, e cada uma afasta Greta um passo da única identidade que teve, a de cuidadora que existe para que outra respire. A série transforma o luto em movimento.

É uma aposta de estrutura, e a realização tem de a sustentar. Laura M. Campos e Gemma Ferraté filmam o mapa menos como caça ao tesouro do que como uma série de pequenos desafios, cada um a pedir a Greta que deseje aquilo que a uma cuidadora nunca foi permitido desejar. O tom mantém-se próximo e sem pressa. Há calor e humor, mas a série recusa embelezar a perda.

Esse peso recai sobre Alícia Falcó, num papel quase sem descanso: Greta aprende, tarde e a contragosto, a ter desejos. Georgina Amorós faz de Lucy a irmã que viu a armadilha da própria sobrevivência. Percebeu que uma rapariga construída para a manter viva nada teria de seu quando ela partisse, e concebeu o mapa para obrigar esse algo a existir. Pablo Álvarez é Will, o forasteiro reservado que Greta encontra pelo caminho, menos um prémio do que um espelho.

Sob tudo isto está um debate que a Espanha não encerrou. O bebé-medicamento, uma criança concebida, por vezes através de seleção genética pré-implantação, para que as suas células estaminais tratem um irmão mais velho doente, discute-se em clínicas e tribunais há quase vinte anos. A série não o encena como mesa-redonda. Aloja-o num só corpo. Deram a Greta um propósito antes de um eu, e quando o tratamento falha esse eu é o único problema que resta.

É o que a distingue da prateleira onde assenta. Há anos a Netflix converte romances juvenis espanhóis em histórias de amor polidas, o apelo de vizinho e janela de Pela Minha Janela, o calor ferido de Culpa mía. O Mapa dos Desejos partilha esse público, o leitor de BookTok que fixou Alice Kellen nos tops de vendas. A diferença é uma morte ao centro em vez de um jogo de sedução. Uma história fechada, com fim, uma minissérie e não uma marca à espera de renovação.

A aposta é que o espectador siga o luto como seguiria um mistério, porque o mapa lhe dá a forma de um enigma com pistas e destino. E a série é honesta quanto ao que o mapa não pode dar. Pode levar Greta pelas etapas, apresentar-lhe Will, devolver-lhe uma vida com o próprio nome. Não pode responder à pergunta que a premissa abre: quando alguém foi feito para salvar outra pessoa, e essa pessoa morre à mesma, o que lhe resta ser?

O Mapa dos Desejos estreia na Netflix a 17 de julho de 2026, minissérie a partir do romance de Alice Kellen para a Editorial Planeta. Alícia Falcó, Pablo Álvarez e Georgina Amorós encabeçam um elenco que inclui Laia Marull, Mario de la Rosa e Ramón Barea. Argumento de Isa Sánchez, realização de Laura M. Campos e Gemma Ferraté, produção da Brutal Media.

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