Análise

KATSEYE copiou o método do K-pop. Deixou para trás o que dava sentido a esse método

Molly Se-kyung

A escolha mais reveladora de Pop Star Academy: KATSEYE — a série documental de oito episódios na Netflix sobre a criação do primeiro grupo feminino global da HYBE e da Geffen Records — não é o que mostra. É a aposta que fez ao mostrar. As câmaras entram nas salas de treino. Estão presentes quando executivos explicam a adolescentes o que os fãs esperam fisicamente de uma idol. Registam as eliminações. A série, realizada por Nadia Hallgren — autora do documentário Becoming sobre Michelle Obama —, usa a transparência total como defesa principal.

Essa transparência tem valor. Mas não na direcção que a editora esperava.

O debate que Pop Star Academy reabriu — a KATSEYE é fabricada ou autêntica? — é o debate errado. O K-pop sempre se apresentou como um sistema — rigoroso, visível, documentado. O problema não é o sistema. É que HYBE e Geffen exportaram o sistema enquanto descartavam a tradição cultural que lhe dava significado. Tomaram o método e deixaram a cultura. Depois chamaram ao resultado global.

A ambição declarada, documentada em entrevistas sectoriais, era «retirar o K do K-pop e torná-lo global». Seis membros foram seleccionadas entre 120.000 candidatas mundiais, submetidas a três meses de treino em Los Angeles com a intensidade do K-pop, e documentadas ao longo de todo o processo.

O treino em si é uma preparação séria para uma carreira no espectáculo. Os críticos deste sistema aplicam padrões que não aplicariam a um músico formado num conservatório. O que distingue o K-pop não é a exigência — é a visibilidade. Pop Star Academy mostra o que a indústria musical sempre fez em privado.

O argumento mais sólido a favor de KATSEYE, dito com honestidade: técnica e identidade não são opostos. A solidariedade feminina documentada na série é reconhecida até por críticos hostis ao projecto. A presença em palco de Lara Raj não é uma decisão corporativa. As próprias membros falaram em múltiplas entrevistas de querer escrever a sua própria música, de citar influências que as suas equipas de relações públicas não aprovaram. São as respostas de pessoas que atravessaram um processo industrial e saíram do outro lado com algo a dizer.

Contudo, a revelação mais incómoda de Pop Star Academy não é a avaliação física — embora essa cena seja suficientemente incómoda. É que as candidatas não sabiam que participavam num programa de eliminação. Foram informadas de que estavam em treino. Não foram informadas de que competiam simultaneamente por votos públicos que determinariam o seu futuro. Não é fabricação no sentido abstracto de que toda a música pop envolve produção. É a operação deliberada da assimetria de informação como ferramenta de gestão.

O K-pop, quando funciona, opera sobre um contrato cultural implícito entre artista e público. A figura da idol no pop coreano construiu-se ao longo de décadas através de uma negociação entre a cultura pop coreana e o público coreano. O sistema de treino existia dentro de uma tradição cultural que lhe dava sentido. O que a HYBE e a Geffen fizeram com KATSEYE foi exportar a infraestrutura deixando a tradição para trás.

O que se sabe e o que permanece em debate

O que Pop Star Academy estabelece claramente: KATSEYE formou-se através de um processo com 120.000 candidaturas e um investimento conjunto de duas empresas com visões muito diferentes. Essa tensão está documentada no filme. Não se resolveu.

O que permanece genuinamente em debate: se a metodologia de treino do K-pop produz os mesmos resultados quando privada do seu contexto cultural. Se o «pop global» é uma categoria coerente ou um enquadramento de marketing para o pop ocidental com os valores de produção de Seul.

O K nunca foi apenas uma letra. Era um endereço — uma posição cultural específica a partir da qual a música era feita e para a qual falava. A indústria musical obteve um formato. KATSEYE obteve uma identidade que não concebeu. O contrato cultural que fazia funcionar o sistema original não o obteve ninguém.

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