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Ken Jeong abre a Shark Week, mas o verdadeiro engodo da Discovery é “KPop Demon Hunters”

Jun Satō

Todo o verão, uma rede de tubarões precisa de um rosto. Este ano, o rosto pertence, contra todas as probabilidades, a uma girl group animada. A Discovery entregou a abertura da Shark Week a Ken Jeong e Rei Ami, e esta dupla diz menos sobre tubarões do que sobre onde mora agora o calor cultural — dentro de um desenho animado da Netflix sobre ídolos do K-pop que, à noite, trabalham como caçadores de demónios.

O especial chama-se “KPop Shark Heroes”, e o título faz o trabalho que as imagens de mergulho não conseguem fazer sozinhas. Jeong dá voz a uma personagem em “KPop Demon Hunters”. Rei Ami canta noutra. Nenhum dos dois é biólogo marinho. O que levam para a água — ou, no caso de Jeong, até à beira dela — é a autenticidade emprestada de um fenómeno.

Esse fenómeno é o ponto central. “KPop Demon Hunters” tornou-se o filme mais visto da Netflix, conquistou dois Óscares e arrecadou o primeiro Grammy de sempre atribuído a um tema de K-pop. A Discovery não está a contratar celebridades tanto quanto está a licenciar um estado de espírito — a superfície brilhante e envernizada de algo que toda a cultura já adora — na esperança de que ele se transfira para uma marca que entra na sua quarta década. Os tubarões são a constante. O brilho é importado.

O casting também revela, de forma subtil, a sua própria maquinaria. Rei Ami, a música de verdade, fez os mergulhos: descidas em jaula e apneias entre tubarões-martelo, tubarões-de-recife e tubarões-touro ao largo da península coreana. Jeong, o nome muito mais conhecido, ficou fora de água e descreveu a sua função como de supervisão. A estrela que vende o especial nunca se molha; o intérprete com menos cartaz faz o trabalho a sério. É um diagrama eficiente de como estes truques são montados.

Nada disto torna o exercício cínico. A moldura de conservação é genuína, ancorada em encontros reais com tubarões perto da Coreia, e Rei Ami vende o maravilhamento melhor do que qualquer narrador. “Embora a Shark Week seja muito divertida e eletrizante”, disse ela à Associated Press, “no fundo, é muito educativa.” Tem razão, e ela diz isso com toda a convicção — fala dos mergulhos como algo que as palavras não conseguem conter.

Mas o aparelho à sua volta é indiferente a quem ocupa o lugar. A Shark Week já foi apresentada por Dwayne Johnson, Jason Momoa, John Cena — músculo, quando o músculo era a moeda de troca. Este ano a moeda é uma girl group animada, por isso a celebridade é trocada para corresponder. Um apresentador principal para a semana nem sequer foi nomeado; a noite de abertura limita-se a ligar-se ao que quer que esteja no pico do streaming, e neste verão isso é um grupo de ídolos de desenho animado.

O resultado, esteticamente, é coerente da forma como uma boa campanha é coerente: verniz pop sobre medo primordial, uma paleta pastel animada colocada sobre a imagem mais antiga de dentes em águas escuras. Parece atual. Parece desenhado. Se ensina alguma coisa a alguém sobre tubarões é uma questão separada de saber se funciona, e a Discovery decidiu claramente que a segunda questão é a única que importa esta semana.

KPop Shark Heroes abre uma 38.ª edição que dura sete noites no Discovery Channel, Discovery+ e HBO Max, juntamente com os habituais espetáculos de mergulhos de recorde e forense de grandes-brancos. O sinal não é que Ken Jeong esteja à frente de um programa de tubarões. É que o programa precisava de um desenho animado para se sentir atual — e que, quando as câmaras finalmente rodaram, mandou a cantora para a água e manteve a estrela em segurança no barco.

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