Críticas

Massacre no Texas fundou a linguagem do horror moderno e continua sem rival

Tobe Hooper, 1974: o pesadelo documental que reinventou o género e permanece inultrapassável.
Martha O'Hara
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Uma van sacudida por uma estrada rural. Dentro, cinco amigos tentam ignorar o calor abafado de agosto e a tensão que cresce com cada quilómetro. Sally olha pelo espelho retrovisor, como se pressentisse algo. É assim que Massacre no Texas começa: não com um susto barato, mas com uma atmosfera sufocante, filmada em planos longos que deixam o espectador tão desconfortável quanto as personagens.

Tobe Hooper, com um orçamento risível de menos de 140 mil dólares, cria um horror que se alimenta da simplicidade. A câmara segue os jovens como se fosse uma testemunha muda dos eventos, quase um documentário do apocalipse. O hitchhiker (Edwin Neal) não é apenas um vilão de conveniência; é uma força da natureza, violenta e imprevisível, que corta o próprio rosto com uma navalha sem motivação aparente. A cena em que ele ataca Franklin — a câmara fixa no pânico nas faces das personagens — é de uma crueldade íntima que poucos filmes ousam igualar.

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O verdadeiro trunfo do filme, porém, é Leatherface (Gunnar Hansen). Não é só o facto de empunhar uma motosserra, mas a forma como Hooper joga com a sua humanidade — ou falta dela. Quando ele dança com Sally na cozinha, há um momento perturbador em que parece quase terno, antes de reverter à violência. Hansen tem poucas falas, mas o seu desempenho é físico e visceral, uma presença assombrosa que domina cada cena.

Onde Massacre no Texas falha? Na estrutura. O ritmo é irregular, com momentos de tensão seguidos por lapsos em que a narrativa arrasta os pés. A transição entre a perseguição inicial e o confronto na casa dos canibais é abrupta, como se Hooper tivesse cortado cenas inteiras para poupar dinheiro. E, apesar do seu baixo orçamento, o filme tropeça nos mesmos vícios do horror barato que prometeu evitar: a violência é sugestiva, mas há momentos em que a motosserra parece mais um acessório do que uma arma verdadeira.

Hooper produziu Massacre no Texas com um elenco de atores relativamente desconhecidos, principalmente do Texas central. Marilyn Burns como Sally merece destaque — o seu desempenho é uma mistura de vulnerabilidade e resistência, tornando-a a «final girl» original que definiu o género. O filme foi inicialmente recebido com críticas mistas, mas tornou-se altamente lucrativo, arrecadando mais de 30 milhões de dólares nas bilheteiras americanas. A sua representação brutal da violência levou a dificuldades de distribuição e até a proibições em vários países.

Massacre no Texas estabeleceu elementos-chave do género slasher: o uso de ferramentas mecânicas como armas, o assassino como figura mascarada e imponente, a própria ideia da «final girl». Críticos têm discutido os seus temas ao longo das décadas — desde a desumanização da violência até à crítica social implícita na representação da família canibal. Roger Ebert comparou-o a um «Grand Guignol», enquanto outros elogiaram o estilo documental e o suspense contínuo.

Em 2024, o filme foi selecionado para preservação no National Film Registry dos Estados Unidos, reconhecendo o seu significado cultural, histórico ou estético. Apesar das suas falhas, Massacre no Texas mantém-se fresco graças à sua abordagem crua e despojada ao horror.

O filme foi produzido durante um período de grande tensão social nos EUA, e Hooper usou essa atmosfera para criar uma narrativa que ressoava com o público. A ideia de uma família de canibais a viver nas margens da sociedade pode ser vista como uma crítica à alienação e à violência institucionalizada. O uso de locações reais no Texas central adiciona uma camada de autenticidade ao filme, tornando-o ainda mais perturbador.

A recepção inicial do filme foi polarizante. Alguns críticos acusaram-no de ser excessivamente violento e gratuito, enquanto outros reconheceram a sua originalidade e o impacto no género de terror. Com o tempo, Massacre no Texas foi ganhando estatuto de culto, reconhecido como referência fundadora de um género que moldou décadas de cinema de horror.

A cena em que Leatherface irrompe sobre os jovens na casa abandonada é um exemplo claro da abordagem de Hooper ao horror. A câmara move-se de forma errática, quase como se estivesse a ser operada por alguém em pânico, o que amplifica a sensação de desespero e caos. Esta técnica, combinada com a música minimalista e os sons ambientais, produz uma tensão imersiva que não larga o espectador.

A representação da violência no filme é outro aspecto notável. Hooper optou por mostrar apenas sugestões de violência em vez de sangue explícito, obrigando o público a construir o horror que a câmara recusa mostrar. Esta contenção torna o filme ainda mais perturbador, pois confronta o espectador com os seus próprios medos.

Em suma, Massacre no Texas é um filme que nunca pede licença. As suas limitações técnicas e narrativas existem, mas integram-se naquilo que o filme é: uma obra que funciona pela ausência — de lógica, de polimento, de alívio.

Elenco

Fotos: The Movie Database (TMDB)

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