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Hazar Ergüçlü, a atriz cipriota-turca que trocou o horário nobre por um bebé monstro

Penelope H. Fritz
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Hazar Ergüçlü
Hazar Ergüçlü
Photo: Everwest / CC BY 4.0, via Wikimedia Commons
Nascimento1 de janeiro de 1993
Nicósia, Chipre
OcupaçãoAtriz e produtora
Conhecido porA Pereira Brava, My World
PrémiosPrémio da Associação Turca de Críticos de Cinema (SİYAD) de melhor atriz, Kar · Melhor atriz no Festival de Cinema Golden Boll de Adana, Mutter: The Diary of a Mother · Jovem atriz mais promissora no Festival de Cinema Golden Boll de Adana, Kar · Melhor atriz no Festival de Cinema Turco de Frankfurt, Kar · Prémio Sadri Alışık de melhor atriz em filme de comédia, Heartsong · Prémio Golden Objektif de melhor atriz em série de plataforma digital, The Protector

Durante mais de dois anos, os telespectadores da televisão turca conheceram Hazar Ergüçlü como uma dançarina de discoteca numa série melodramática de horário nobre, contracenando com o homem que a escreveu. O papel que lhe está a valer prémios neste outono é o de uma jovem que dá à luz, no banco de trás de um automóvel, numa estrada deserta perto do Mar Negro, uma criatura que não é inteiramente humana. Foi coprodutora desse segundo filme, Mutter: The Diary of a Mother, e levou-o de Nova Iorque a Adana e a Sitges. A televisão turca tornou-a famosa. Os desafios que puseram as suas escolhas à prova vieram do cinema, e ela começou a produzir alguns desses filmes.

Ergüçlü cresceu na zona norte de Nicósia, do lado turco-cipriota da ilha dividida. Já contou que os avós maternos eram trabalhadores que labutavam em plantações de banana e minas de carvão, que o avô passou vários anos numa mina e que cresceu rodeada por esse tipo de trabalho. Descreveu a ilha, certa vez, como um lugar de «uma pressão social terrível, escondida por detrás de uma identidade europeia», onde uma jovem podia sair à noite de calções e com um top de biquíni, desde que aceitasse que as pessoas a insultassem assim que passasse por elas.

Fazia teatro juvenil na Câmara Municipal Turca de Nicósia quando o realizador Derviş Zaim a escolheu para o papel de Ruhsar em Gölgeler ve Suretler (Sombras e Rostos), o seu drama de 2010 sobre uma rapariga que foge dos confrontos de 1963 entre cipriotas turcos e gregos. Segundo a própria, tinha 17 anos quando começou. A interpretação valeu-lhe uma nomeação para Melhor Atriz pela Associação de Críticos de Cinema da Turquia (SİYAD). Estudou também teatro no conservatório da Universidade de Haliç, em Istambul. A televisão não tardou a chamá-la: interpretou Simay em Kuzey Güney, a série dramática da Kanal D sobre dois irmãos, com Kıvanç Tatlıtuğ, exibida entre 2011 e 2013; depois, foi Eylül Buluter em Medcezir, a adaptação da Star TV de The O.C., entre 2013 e 2015. Seguiram-se papéis principais em Yüksek Sosyete e Hayat Sırları.

A mudança de rumo surgiu com dois filmes estreados quase em simultâneo. Em Kar («Neve», 2017), de Emre Erdoğdu, interpretou Müzeyyen, papel que lhe valeu o prémio de atriz revelação no festival Adana Altın Koza e, na edição de 2019, o prémio de Melhor Atriz da SİYAD. «Também sou do tipo que diz muitos palavrões e acaba vista como a Müzeyyen, como uma marginalizada», disse ao Cumhuriyet em 2018, «apesar de não ser nada assim». Nuri Bilge Ceylan escolheu-a depois para interpretar Hatice em A Pereira Brava, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes, em 2018. Hatice é uma antiga conhecida de Sinan, um aspirante a escritor inquieto: beija-o debaixo de uma árvore e depois casa-se com outro homem, como se o casamento fosse a sua única saída. Ergüçlü filmou as suas cenas em quatro dias. Ceylan pediu-lhe que representasse cada momento de várias maneiras, uma delas a sorrir, e ela disse que saiu do estúdio sem deixar nenhuma possibilidade por explorar.

Em dezembro de 2018, a Netflix lançou O Último Guardião, a sua primeira série original turca, e Ergüçlü interpretou Zeynep Erman ao longo de quatro temporadas, ao lado de Çağatay Ulusoy, seu colega de elenco em Medcezir. O papel valeu-lhe um prémio Golden Objektif. Entre 2020 e 2021, protagonizou Chamas do Destino como Çiçek, uma mulher cuja aparência e visão do mundo são ambas transformadas por um incêndio. Em agosto de 2022, a Netflix estreou Na Sinfonia do Coração, na qual interpretou Sümbül; a comédia valeu-lhe um prémio Sadri Alışık. Também passou para trás das câmaras: foi uma das produtoras de Beni Sevenler Listesi, um filme posterior de Erdoğdu que venceu a Tulipa de Ouro de melhor filme na competição nacional do Festival de Cinema de Istambul, em 2021, e de Bomboş, realizado pelo então companheiro, Onur Ünlü, no qual também teve um pequeno papel. O casal, junto desde 2018, separou-se no final de 2022. «As separações também fazem parte do amor», disse na altura.

O percurso tem um lado menos lisonjeiro. Muitos dos trabalhos de horário nobre que sustentaram a sua carreira eram adaptações de formatos estrangeiros: Medcezir era The O.C., a série da BluTV Saklı era uma versão de The Affair, e Hayat Bugün era uma versão de New Amsterdam. Fora da Turquia, os seus papéis mais conhecidos no cinema até este ano eram secundários, começando por um punhado de cenas num épico de Ceylan. E o seu papel recente mais visto chegou envolto em polémica. Em İnci Taneleri, de Yılmaz Erdoğan, exibida pela Kanal D entre janeiro de 2024 e março de 2026, interpretou Dilber, uma dançarina de pavyon, os clubes de anfitriãs da vida noturna turca. A dança foi alvo de críticas antes mesmo de a série ir para o ar, com os detratores a descartá-la como uma dança de discoteca. Mustafa Erdoğan, diretor artístico da companhia de dança Anatolian Fire e irmão do argumentista, defendeu-a como uma dança tradicional da região de Ancara; uma das dançarinas da companhia tinha-a ensinado. O papel valeu-lhe uma nomeação para Melhor Atriz nos prémios Golden Butterfly. Ergüçlü nunca fingiu encaixar no molde da indústria. «Nunca serei uma pessoa obediente, recatada e bem-comportada», afirmou em 2018.

Os seus dois filmes mais recentes são os mais interessantes. Em The Things You Kill, de Alireza Khatami, que estreou na secção World Cinema Dramatic Competition do Festival de Sundance, em janeiro de 2025, e venceu o prémio de realização, interpreta Hazar, a mulher de um professor de literatura, interpretado por Ekin Koç, seu colega de elenco em Hayat Sırları. O Canadá escolheu o filme para o representar na categoria de Melhor Filme Internacional dos Óscares; não chegou a ser nomeado. Seguiu-se Mutter: The Diary of a Mother, o filme de terror de Alphan Eşeli, rodado na costa do Mar Negro em 2024. Ergüçlü interpreta Gül, cujo marido foge assim que vê o recém-nascido, deixando-a sozinha com a criança numa casa em ruínas. O filme teve a sua estreia mundial a 6 de junho de 2026 no Festival de Tribeca, em Nova Iorque, na secção de género Escape from Tribeca. Na crítica que escreveu para a ScreenAnarchy, Olga Artemyeva interpretou-o como uma história sobre «a realidade da maternidade a solo numa sociedade patriarcal intrinsecamente imperfeita».

Na 33.ª edição do festival Adana Altın Koza, no início de outubro de 2026, o papel valeu-lhe o prémio de Melhor Atriz. No discurso de agradecimento, falou de Yaşar, o rapaz de 13 anos que se recusava a abandonar o caixão do pai, um mineiro morto num desabamento em Soma. «Tenho vergonha do ar que respiro. Peço desculpa a Yaşar», disse. Mais tarde, explicou que escrevera o discurso no avião. Em poucos dias, o filme chegou a Espanha para integrar a competição principal do festival de Sitges, com sessões a 12 e 13 de outubro.

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Mutter: The Diary of a Mother tem estreia prevista nas salas de cinema turcas a 27 de novembro de 2026. Será a primeira vez que o público turco poderá avaliar, fora do circuito de festivais, uma interpretação principal num filme que ela ajudou a concretizar.

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