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Isakapatnam no Prime Video: num porto dos anos 90, quem desafia o patriarca é a sua filha

Veronica Loop

Um homem organizou a vida inteira para ver qualquer ameaça antes de ela o alcançar e descobre, tarde de mais, que a única que lhe escapou cresceu dentro da sua própria casa. É este o motor de Isakapatnam, e aguenta mais do que os tiros do trailer deixam ver. Naidu é dono da água: da carga, dos funcionários da alfândega, dos homens que carregam e descarregam uma economia regional inteira. A sua certeza de que nenhum rival lhe pode tocar é absoluta. O rival é a filha.

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Retirada a pólvora, Isakapatnam é uma série criminal em telugu sobre um único bem: um porto. Ambientada numa cidade portuária fictícia dos anos noventa que dá nome à série, trata o cais como outras sagas tratam um trono. Samuthirakani interpreta Naidu, o homem que detém esse controlo há tempo suficiente para o confundir com algo permanente. Aishwarya Rajesh é Bharati, a filha que recusa o mundo que ele construiu e decide, com método, desfazê-lo.

Fazer de um porto o prémio é o que distingue a série do thriller de vingança habitual. O cais não é cenário: é o estrangulamento por onde uma cidade inteira é obrigada a passar. Quem decide quem descarrega, quem paga e quem faz vista grossa controla o comércio, a política e o dinheiro. Naidu passou décadas a transformar aquela porta numa portagem privada, e a série observa essa rotina com lucidez. O poder, aqui, é logístico antes de ser violento, e é por isso que durou.

Em vez de um duelo frontal entre pai e filha, Isakapatnam constrói-se como uma convergência. Três forças fecham-se sobre Naidu ao mesmo tempo: uma mulher movida pela justiça, um homem de confiança cuja lealdade começa a custar-lhe mais do que rende e um homem comum com uma dívida de vingança a cobrar. O realizador Garry BH deixa essas linhas tensionar-se devagar, e essa paciência é o acerto. As cenas mais perigosas não são os tiroteios, mas as salas onde ninguém levanta uma arma e todos percebem o que está a ser decidido.

Isakapatnam - Prime Video
Isakapatnam – Prime Video

O que dá espinha à série é a época. Os anos noventa na costa sul da Índia foram os do contrabando da liberalização, dos sindicatos portuários e dos homens fortes que transformaram a infraestrutura pública em alavanca privada. Bharati não se revolta tanto contra um pai como contra essa ordem, contra a regra não escrita de que uma cidade assim pertence a quem estiver disposto a segurá-la pela força. E a série deixa em aberto, com honestidade, a pergunta de fundo: mesmo que o porto mude de mãos, o que é que isso resolve sobre a quem pertence verdadeiramente um lugar?

Para o Prime Video, Isakapatnam é mais um lance de uma estratégia que já não é experimental: explorar as sagas criminais em telugu para um público que vai muito além de Andhra Pradesh e Telangana. A série de sete episódios, produzida por Rahul Tamada e Saideep Reddy Borra para a Tamada Media Productions, estreia em telugu com dobragens em tâmil e hindi e legendas em quinze línguas, o português entre elas, a 2 de julho. A aposta é que uma história de máfias regionais contada com esta paciência viaje pelos mais de 240 territórios onde a plataforma chega. Pelo modo como ergue o seu porto e o seu patriarca, é uma aposta que se justifica.

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