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Michael Jackson: The Verdict chega à Netflix com o julgamento que um veredicto nunca conseguiu encerrar

Alice Lange

Durante grande parte daquele ano, o maior julgamento criminal da década chegou ao público apenas em fragmentos. Um esboço a carvão da sala, com os rostos ligeiramente tortos. Alguns segundos de um todo-o-terreno escuro a atravessar um portão de ferro. O rosto de um comentador a preencher o ecrã de um estúdio, a narrar uma sala onde não estava. As câmaras estavam proibidas no tribunal de Santa Maria, pelo que a imagem de Michael Jackson no banco dos réus foi sempre desenhada, resumida ou descrita, nunca vista. O retrato chegou em segunda mão e aos bocados, e um país inteiro formou o seu veredicto com esses bocados semanas antes de doze jurados terminarem o seu.

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Michael Jackson: The Verdict parte desse incómodo. Quase todos os que formaram uma opinião sobre o caso fizeram-no sem o ver. O júri ouviu meses de depoimentos no condado de Santa Bárbara e absolveu Jackson de todas as acusações. Lá fora, o público realizou um julgamento paralelo na televisão por cabo e nos tabloides e chegou à conclusão oposta. A série instala-se na distância entre essas duas salas: a selada, onde as provas foram realmente pesadas, e as salas de estar, onde se pesou apenas um rumor delas.

Vale a pena recordar como é estranho o arquivo visual daquele processo. Como nenhuma objetiva podia entrar, um canal por cabo contratou atores para recriar cada dia de audiência e transmitiu a dramatização nessa mesma noite: milhões de pessoas viram uma representação do julgamento em vez do julgamento. O homem que chegou atrasado de pijama, o breve número sobre o tejadilho do todo-o-terreno em frente ao tribunal, tornaram-se as imagens definitivas do caso precisamente porque o processo não tinha imagens próprias. A série faz dessa substituição o seu problema de partida.

O realizador Nick Green reconstrói a audiência como um investigador refaz uma cena: a partir de material em primeira mão e não da memória. Os jurados percorrem de novo as provas tal como as manusearam então. Testemunhas, acusadores e defensores falam cada um do seu lado do corredor, e os relatos são deixados a roçar uns nos outros em vez de alisados numa só voz. As imagens da investigação em Neverland ficam ao lado dos autos. A textura é deliberadamente despojada — processos, transcrições, a luz plana dos noticiários da época — e é essa sobriedade que trabalha. A série não procura entregar uma conclusão, mas estender o material em bruto que o público nunca teve nas mãos.

Convém situá-la. A comparação imediata é Leaving Neverland, o filme de 2019 que colocou dois acusadores no centro e fez do seu testemunho a coluna vertebral. Michael Jackson: The Verdict assenta no instinto oposto, mais perto de O.J.: Made in America ou de Making a Murderer, que reabriu um caso encerrado recusando-se a decidi-lo em vez do espectador. É uma escolha de custo conhecido pelos autores. E encontra uma época em que uma absolvição quase já não encerra nada: para grande parte do público, o «não culpado» tornou-se um «ainda não provado», e regressar às provas é, neste clima, uma provocação por muito equilibrada que seja a montagem.

É exatamente esse o nervo que o anúncio tocou. Uma petição no Change.org e uma campanha #CancelNetflix exigem a retirada da série antes de ir para o ar um único fotograma, lendo a promessa de mostrar «os dois lados» como pretexto para julgar de novo um homem que já não se pode defender. O calendário afia o conflito: o documentário chega poucas semanas depois do filme Michael, realizado por Antoine Fuqua, que ultrapassou os setecentos milhões de dólares de bilheteira contornando o julgamento. Dois projetos reclamam a mesma herança: um transforma a vida num espetáculo de estádio e vende a música, o outro entra diretamente na sala que o espetáculo preferiu evitar. Para uma plataforma, uma ferida cultural por sarar é um recurso renovável, e a rejeição não é uma falha da estratégia, mas parte da forma como ela circula.

Por baixo do ruído corre um argumento mais sereno, aquele que o título não se cansa de apontar. Um veredicto deveria encerrar algo. Este nunca o fez. A absolvição foi um facto jurídico na tarde em que foi lida, e desde então não funcionou uma única vez como facto cultural. A série assume essa incapacidade de encerrar como verdadeiro tema. Reconstruir o processo inteiro não entrega a certeza que cada lado espera dele; faz algo mais pequeno e mais perturbador: mostra como a visão do público foi sempre ténue, quanto uma convicção partilhada assenta em depoimentos que ninguém ouviu, numa sala onde ninguém entrou.

Michael Jackson: The Verdict estreia a 3 de junho de 2026 na Netflix como série em três partes, realizada por Nick Green e produzida pela Candle True Stories.

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